Metade Cartier, metade Bresson

O bebê que aparece nesta foto de 1909 é Henri Cartier-Bresson. Nascido em 22 de agosto de 1908, ele tinha cerca de 1 ano de idade quando foi fotografado junto a seus pais, Marthe e André. Além de ajudar o pequeno Henri a se manter de pé com tão pouca idade, o casal teve uma enorme participação na formação da personalidade de um dos maiores fotógrafos que o mundo já conheceu. E quem desvenda estas influências é o biógrafo Pierre Assouline no livro Cartier-Bresson: o olhar do século:

Apesar de batizado com o nome do avô paterno, Henri Cartier-Bresson puxou muito mais a sua mãe. Dizem que ele se parece com ela, por sua beleza, sua sensibilidade e seu caráter. Ou melhor, Henri é filho de uma normanda. Descendente de uma velha família de Rouen, dona de uma grande propriedade no vale que acabava em Dieppe, Marthe – nascida Le Verdier – é uma mulher de graça superior. Seus retratos, tirados por Boissonnas e Tapenier no ateliê da Rue de la Paix, revelam um porte, um aspecto, uma elegância e um brilho naturais. Nervosa, sempre cheia de dúvidas, ela podia ficar absorta em suas leituras por duas inteiros e só sair para se sentar ao piano.

(…)

No casal Cartier-Bresson, Marthe é a intelectual, a musicista, a meditativa. André, seu marido, é completamente diferente, por inclinação natural e por força das circunstâncias. Esse homem severo, de uma correção que chega à rigidez, é antes de tudo um homem de princípios, tornando-se assim, desde muito jovem, devido à morte de seu pai. Ocupado demais com suas responsabilidades familiares para se entregar à vida das ideias, ele escolhera a Escola de Altos Estudos Comerciais para ter acesso mais rápido à direção geral da empresa. Não deixava de ser um homem de gosto, só que toda a sua sensibilidade artística se concentrara no desenho, na pintura e no mobiliário.  (…) De tanto ver o pai passar a maior parte de seu tempo fechado no escritório, inclusive em casa, Henri desenvolve uma franca aversão pelo mundo dos negócios. (…)

Henri, o mais velho de cinco filhos, é normando até em sua preocupação incorrigível de se fazer passar por siciliano, e portanto mediterrâneo, pois fora concebido, ou melhor, desejado, em Palermo, onde seus pais haviam passado a lua de mel. É normando também na maneira como se assemelha tanto a um quanto a outro, acompanhando sua mãe na flauta quando ela toca piano e seu pai à floresta quando ele vai caçar. Justa divisão de tarefas e prazeres, mesmo se sentindo naturalmente mais próximo à mãe. Nessas grandes famílias burguesas, a mãe segue de perto a educação dos filhos, mais ainda quando sutis afinidades e evidentes semelhanças os aproximam. Sua influência é determinante.

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