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O impressionante livro “Antes que eu queime”

quarta-feira, 25 janeiro 2017

Por José Antonio Pinheiro Machado

Antes que eu queime é um livro de qualidade impressionante.  O jovem autor norueguês Gaute Heivoll ambienta num pacato vilarejo do interior do seu país a ação. E que ação! De repente, logo no início, a casa de um casal de modestos moradores é incendiada. A princípio, parece que se trata de uma infeliz fatalidade, resultante do calor do verão, falta de chuvas etc.. Haverá muitas explicações e conjeturas para aquele aparente acidente, mas pende, como se fosse a lâmina de uma guilhotina, um mudo ponto de interrogação sobre todas as cabeças: será que foi mesmo um acidente? Alguns dias se passam, a rotina pouco a pouco se restabelece, a vida continua e, quando todos estão quase esquecendo o desagradável episódio, ocorre outro incêndio! E depois mais outro… A situação se torna incontrolável, diante da absoluta ausência de qualquer indício ou pista que possa apontar um suspeito. O primeiro incêndio ocorre no dia do nascimento do narrador que, muitos anos depois, volta ao vilarejo em que nasceu para contar a história e desvendar o mistério. A escritura é de primeira classe e o resultado, um suspense incontornável, impossível largar antes do ponto final. Depois de ler a primeira página só é possível parar depois da última frase: “Permita-me escrever isso tudo antes que eu queime.” (L&PM Editores, 2013 – 253 páginas, Tradução de Guilherme da Silva Braga)

O livro de Gaute Heivoll com tradução de Guilherme da Silva Braga

O livro de Gaute Heivoll com tradução de Guilherme da Silva Braga

Seminário gratuito sobre o lendário político José Gomes Pinheiro Machado

segunda-feira, 9 maio 2016

José Gomes Pinheiro Machado é uma figura lendária no política brasileira. Passados cem anos da sua morte, ocorrida em 8 de setembro de 2015, este que foi considerado o “mandarim da República” será o assunto de um Seminário promovido pelo Memorial Judiciário do RS e o Instituto Histórico Geográfico do RS, que acontece na quinta-feira, 12 de maio, em Porto Alegre.

senador pinheiro machado

Pinheiro Machado foi assassinado por um outro gaúcho, Francisco Manço de Paiva Coimbra, a facadas, no Hotel dos Estrangeiros, na então Capital Federal, Rio de Janeiro, quando ia conversar sobre questões políticas com o ex-Presidente do Estado de São Paulo, Manuel Joaquim de Albuquerque Lins, que ali se hospedava.

Entre os palestrantes estará José Antônio Gomes Pinheiro Machado, conhecido do grande público como Anonymus Gourmet. José Antônio é sobrinho bisneto do Senador e resgatará histórias desconhecidas das atuais gerações sobre o personagem. Com seu estilo discreto, severo e altaneiro “era a estrela do Senado, o que fazia crescer o ódio silencioso de seus rivais que, salvo Ruy Barbosa, nunca ousaram enfrentá-lo ou desafiá-lo” revela José Antônio que está preparando uma biografia do tio avô que será lançada pela L&PM Editores ainda este ano.

Informações e inscrições gratuitas no site seminariopinheiromachado.wordpress.com

Cartaz do seminário

Cartaz do seminário

A segunda morte de Breno Caldas

terça-feira, 6 outubro 2015

No dia primeiro de outubro, o Correio do Povo completou 120 anos de atividades ininterruptas. Durante 50 anos, ele foi considerado um dos maiores e mais influentes jornais brasileiros, período em que foi dirigido pessoalmente pelo seu dono Breno Alcaraz Caldas, filho do fundador Caldas Jr. Acossado por sérios problemas financeiros, Breno Caldas viu-se obrigado a vender o jornal em meados dos anos 1980. A L&PM publicou, em 1987, um grande depoimento de Breno Caldas dado ao jornalista e escritor José Antonio Pinheiro Machado sobre a história, a glória e a queda do grande jornal. Aqui reproduzimos o texto escrito por José Antônio, publicado na edição eletrônica do Jornal “JÁ” do dia 3 de outubro de 2015. Neste texto o jornalista destaca o fato de que, na edição especial comemorativa aos 120 anos do Correio do Povo, sequer foi mencionado o nome de Breno Caldas.

Nos 120 anos do Correio do Povo,
a segunda morte de Breno Caldas

Por José Antonio Pinheiro Machado

Com a mesma discrição que viveu, o jornalista Breno Caldas teve no dia 1º de outubro passado sua segunda morte.

O fato ocorreu nos festejos dos 120 anos do Correio do Povo e na edição comemorativa a essa data notável. Breno Caldas foi o jornalista mais importante da história do Correio do Povo.

Filho do fundador, Caldas Júnior, Breno Caldas comandou o jornal durante 50 anos ― os 50 anos em que o Correio do Povo se tornou um dos jornais mais importantes do País.

Apesar disso, seu nome não mereceu destaque na edição comemorativa do jornal. Na verdade, o Correio do Povo de hoje, que comemora os 120 anos que não viveu, é bem diferente do Correio do Povo que construiu a lenda: o Correio do Povo de Breno Caldas.

A primeira morte do jornalista Breno Caldas, sua morte física, ocorreu em 1989, aos 79 anos, depois de uma agonia quase tão dolorosa quanto a do jornal que dirigiu durante meio século, o Correio do Povo.

Fui seu amigo durante seus últimos anos, quando já estava longe de ser um dos 10 homens mais ricos do Brasil, co­mo foi considerado pela revista Veja nos anos 1970.

Aproximei-me de Breno Caldas movido pela perplexidade que, desde 1984, atingia a maioria dos gaúchos: co­mo e por que o Correio, a publicação ma­is importante do Rio Grande ― e uma das mais importantes do Brasil ―, quebrou?

Era a história incrível de um jornal que tinha deixado de circular apesar de ter invejável espaço publicitário e 90 mil assinaturas pagas.

Já tinha ouvido as opiniões e análises mais diversas, mas eu queria saber a versão do personagem principal: o que pensava a respeito aque­le homem enigmático que tinha sido uma espécie de Vice-Rei do Rio Grande, e que, depois da derrocada, se recolhera a um silêncio impenetrável na sua bela propriedade da Ponta do Arado?

Nossos primeiros contatos foram mui­to difíceis, pois o “Dr. Breno” não admitia a idéia da publicação de um depoimento seu sobre o fim do Correio do Povo:

“Ninguém está interessado nas desculpas de um falido”, dizia, com sua inesgotável capacidade de rir de si mesmo.

Se não fosse nossa paixão em comum por alguns esplêndidos cavalos, espe­cialmente os egressos dos campos de criação do inesquecível Marcel Boussac, as conversas não teriam ido adiante: talvez tivessem ficado naquele final de uma tarde luminosa de inverno em que tomamos chá inglês Earl Grey com bis­coitos caseiros, quando visitei-o pela primeira vez.

Mas, por causa dos cavalos, voltamos a conversar, e o assunto voltou para o jornal. Por fim, o constrangimento do empresário mal sucedido sucumbiu diante da sensibilidade do velho redator-chefe, e Breno Caldas concordou em me conceder um longo depoimento que resultou no livro “Meio Século de Correio do Povo —Glória e Agonia de um Grande Jornal”― o livro mais vendido da Feira do Livro de Porto Alegre de 1987, que obrigou a Editora L&PM a imprimir uma segunda edição durante a Feira.

Como ficou claro no livro, Breno Caldas tinha a dizer, é claro, muito mais do que desculpas sobre a falência; e muito mais gente do que ele imaginava estava interessada na sua versão.

Quase todos perceberam esse lado épico de uma tragédia shakesperiana: ele perdeu sua fortuna tentando salvar sua paixão, o jornal.

O livro não tem o depoimento de um ressentido, mas sim o balanço de alguém que chegou ao fim da vida com seu dever cumprido. Nas saborosas reminiscências de um velho jornalista, Breno Cal­das retratou de forma impiedosa, os equívocos – especial­mente os dele – que levaram sua empre­sa a mergulhar em dívidas impagáveis quando decidiu renovar o parque gráfico e implantar uma emissora de TV. Tam­bém fez um libelo corajoso com acusações (que não tiveram contestação) a políticos e governantes da época que deram a voz de comando: “Vamos que­brar o Breno!” Atribuía isso a um ajuste de contas de poderosos, descontentes com sua “excessiva independência”.

Era um homem conservador, mas, como lhe confidenciara um general, “não inteira­mente confiável”. Sua falência foi um filme repetido nos tempos do “milagre brasileiro” com tantos outros empre­sários: depois de ter sido induzido a cap­tar financiamentos em dólar através da famigerada “Resolução 63”, Breno Caldas enfrentou duas maxi-desvalorizações da moeda que multi­plicaram sua dívida.

Em vez de deixar a pessoa jurídica, isto é, o jornal, afundar, salvando sua fortuna pessoal, resistiu em desespero e consumiu 90% do seu imen­so patrimônio particular tentando salvar o Correio do Povo. Por certo que não agiu com a prudência que se quer de um empresário, mas foi um jornalista exemplar: num dos lances finais da agonia do jornal, quando não tinha mais crédito para obter papel, trocou a metade dos 800 hectares que possuía na espetacular Fazenda do Arado, no sul de Porto Alegre, pelas bobinas ne­cessárias para imprimir o Correio mais algumas semanas.

No que restou do Arado, uma belíssi­ma propriedade no extremo sul do município de Porto Alegre, onde o rio Guaíba faz a sua última volta, Bruno Caldas passou os últimos anos sem qual­quer arrependimento pelos prejuízos incalculáveis que teve: “Tudo o que eu possuía, veio do Correio; era justo que voltasse para o jornal.”

Durante as gravações do depoimentos que me concedeu sempre se recusou a mencionar as cifras exatas de suas per­das. Mas, depois do livro impresso, num fim de tarde, quando bebíamos Dimple na sacada do seu gabinete, no Arado, diante do pôr-de-sol no Guaíba, confes­sou:

“Uma vez, naqueles dias, numa única tarde perdi 35 milhões de dólares”.

Mas em seguida mudou de assunto, passando a recordar Estensoro, El Centauro, El Supremo, Estupenda, e outros cavalos magníficos que, nos bons tempos, criou nos campos do Haras do Arado. Também o Haras se foi, na voragem das dívidas.

A todos esses golpes resistiu sem amargura, recolhendo-se às tardes silen­ciosas de sua bela biblioteca com cente­nas de volumes encadernados em couro, onde se deliciava lendo Dickens, Proust, Goethe e Chateaubriand ― sempre no original: ele falava, lia e escrevia com fluência em inglês, francês e alemão.

Só não teve forças para enfrentar um último golpe, poucos anos antes de sua própria morte: a morte do filho, Francisco Antônio, de pouco mais de 50 anos, que por mais de três décadas o acompanhou, também trabalhando no Correio, na gerência comercial. A luta silenciosa do filho durante mais de um ano contra o câncer, sem uma queixa sequer, deixou Breno Caldas espantado:

“O meu filho tinha fibras que eu desconhecia”, me disse.

Não se recu­perou desse golpe, porém. E poucos meses depois, com problemas renais e respiratórios, mergulhou numa agonia dolorosa e irreversível. Enfrentou-a com a serenidade que suportou o naufrágio do seu jornal, revelando as mesmas fibras insuspeitadas do seu filho diante da morte.

O livro que contou a história de Breno Caldas e seu jornal

O livro que contou a história de Breno Caldas e seu jornal

Depois do almoço, Dostoiévski

sexta-feira, 6 dezembro 2013

Por José Antonio Pinheiro Machado*

Conheci Dostoiévski em Xangrilá, depois do almoço. É uma das tantas dívidas que o Ivan e eu temos com nosso pai: na base do centralismo democrático stalinista, ligeiramente tropicalizado, o pai nos impôs um programa obrigatório de leituras. Longe da cidade que é hoje, a Xangrilá da nossa adolescência era um descampado, o Nordestão desenhando cômoros no areal entre as poucas casas. Não havia muito o que fazer: depois do banho de mar, o almoço demorado e, a partir daquele dia, a tarde começava com duas horas de Dostoiévski.

O livro escolhido para minha iniciação, nos dias de hoje, talvez provocasse a intervenção do Conselho Tutelar ou do Juizado da Infância e da Juventude: Crime e Castigo! Abri contrafeito o pesado volume encadernado em couro e, logo depois de ler os primeiros parágrafos, ainda me recordo do impacto inesperado. Anos se passaram, e Jorge Luis Borges, na escuridão de sua cegueira, iluminaria, em duas frases, aquela minha perplexidade juvenil: “Como a descoberta do amor, como a descoberta do mar, a descoberta de Dostoiévski marca uma data memorável de nossa vida. Em geral, corresponde à adolescência; a maturidade busca e descobre escritores serenos”.

Naquele dia, por momentos o Nordestão deixou de assobiar, o céu azul do azul lavado pela chuva, do verso de Paulo Mendes Campos, perdeu sua atração irresistível, e o dia límpido e ensolarado lentamente foi substituído pela urgência da emoção nova e avassaladora daquela primeira leitura. Borges deve ter vivido algo parecido na juventude em Genebra: “Ler um livro de Dostoiévski é penetrar em uma grande cidade, que desconhecemos, ou nas sombras de uma batalha”. A história do jovem Raskolnikov é soberba, contada de forma magnífica. Estudante pobre, cheio de sonhos, divide os indivíduos entre ordinários e extraordinários e se impõe a missão de fazer algo realmente importante, ainda que seja uma violação às leis. Escolhe matar com violência uma velha agiota e, ao fugir, também assassina a irmã da vítima, que apareceu de surpresa e testemunhou o crime. Rouba algumas joias, que acaba por descartar, atormentado pela culpa. O romance brilha no relato do remorso sem remédio que persegue o personagem como uma danação. Quando um inocente é preso, Raskolnikov assume o crime e é condenado. Diversas histórias paralelas reforçam o eixo principal da narrativa, entre elas, a relação do protagonista com Sonia, que o encoraja a confessar o crime. Toda a miséria e toda a grandeza da condição humana transbordavam daquelas páginas. Mas nem todos se emocionaram tanto assim. No prefácio de uma antologia da literatura russa, Nabokov escreveu que não encontrou uma única página de Dostoiévski digna de ser incluída. Borges recusou essa afronta com uma verdade salpicada de ironia: “Isso quer dizer que Dostoiévski não deve ser julgado por páginas soltas, e sim pela soma de páginas que compõe o livro”.

* Crônica publicada originalmente na Coluna do Anonymus Gourmet, publicada no caderno Gastrô do Jornal Zero Hora em 6 de dezembro de 2013.

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Anonymus Gourmet além mar

sexta-feira, 29 novembro 2013

Anonymus Gourmet atravessou o Atlântico, chegou na Europa e está no Caderno Life&Style do jornal português “Público”. Na matéria, escrita pela jornalista Alexandra Prado Coelho, e publicada em 28 de novembro, os portugueses são apresentados ao personagem criado há 30 anos por José Antônio Pinheiro Machado e que há duas décadas possui um programa de gastronomia em um canal de televisão do Rio Grande do Sul. Confira parte da matéria:

Afinal, quem é Anonymus Gourmet?

A pergunta no título deste texto não faria qualquer sentido se estivéssemos no estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Aí será difícil encontrar alguém que não reconheça o lacinho (gravata borboleta, como dizem os brasileiros), os óculos de aros grossos e redondos, e o sorriso bem-disposto do homem que há duas décadas fala de comida na televisão e se apresenta como Anonymus Gourmet.

Sentado à nossa frente num restaurante de Lisboa, numa recente passagem pela cidade, exibe, orgulhoso, o passaporte, onde aparece identificado com esse mesmo nome: Anonymus Gourmet. “Foi uma personagem de um livro que escrevi há uns 30 anos [O Brasileiro que ganhou o Prémio Nobel – Uma Aventura de Anonymus Gourmet], e que ficou muito marcada”, conta. “Era um homem muito exigente, mas partidário das coisas simples e de boa qualidade, e era contra esses enfeites que muitos cozinheiros fazem para disfarçar os erros”. 

Mas o homem dos óculos redondos e lacinho ao pescoço tem outro nome, e outra (ou outras) vida. Ele é (também) José António Pinheiro Machado, advogado, jornalista, escritor, antigo correspondente em Roma e em Paris, que esteve em Lisboa “durante a revolução dos cravos e muitas outras vezes depois disso”. E um apaixonado por cozinha a quem um dia propuseram que fizesse um programa no canal RBS-TV, que pertence à Rede Globo no Sul do Brasil, chamado Homem na Cozinha. “Eu achei o nome muito calhorda, achei que as mulheres iam detestar e sugeri dar-lhe o nome da personagem do meu livro?”. Nasceu o Anonymus Gourmet. (…)

(Clique aqui e leia o texto na íntegra)

O mais recente livro de receitas de Anonymus Gourmet

O mais recente livro de receitas de Anonymus Gourmet

Dr. Lucchese desafia a felicidade

segunda-feira, 29 julho 2013

O escritor J. A. Pinheiro Machado escreveu sobre o novo livro do Dr. Lucchese, Não sou feliz, em sua coluna no jornal Zero Hora da última sexta-feira, dia 26 de julho. Clique na imagem e leia na íntegra.

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(clique para ampliar)

Pela primeira vez em português: “O idiota da família”, de Sartre

segunda-feira, 26 março 2012

“Flaubert representa, para mim, exatamente o contrário da minha própria concepção da literatura: um alienamento total e a procura de um ideal formal que não é, de modo algum, o meu…”. A frase, dita por Jean-Paul Sartre, talvez justifique a obsessão dele por Flaubert. Obsessão essa que consumiu anos da vida do escritor e o levou a escrever a biografia definitiva do autor de Madame Bovary. Em O idiota da família, Sartre proporciona ao leitor um livro enorme, dividido em três tomos, que é lido como uma grande aventura. É uma investigação minuciosa e maníaca do início da infância do menino Gustave, literalmente o idiota da família, em que Sartre procura, nas trajetórias individuais do pai, da mãe, do irmão mais velho, da irmã caçula, nas características socioeconômicas da família Flaubert, nos acontecimentos históricos da época, elementos de explicação para essa estranha criança que foi Gustave: espremido entre os irmãos, meio apatetado, que aos sete anos ainda não sabia ler, mas aos treze já escrevia cartas e livros.

O contrato para a publicação de O idiota da família em português acaba de ser assinado e a tradutora Júlia da Rosa Simões já começou a tradução do volume 1 que será lançado em 2013. Ou seja: finalmente os brasileiros poderão ler – em português – este que é considerado um projeto soberbo, o livro que encerra a obra sartriana.

Houve um momento, no final dos anos 1960, em que a maioria dos críticos considerou a carreira literária de Jean Paul Sartre esgotada e encerrada. Foi quando o grande filósofo e escritor surpreendeu o mundo com as quase 3000 páginas – impecavelmente escritas – dos três volumes d’O Idiota da Família, um estudo sem precedentes da vida e da obra de Gustave Flaubert, que na infância chegou a ser considerado quase um débil mental e, na idade madura, com devoção de sacerdote e o trabalho obstinado de operário, construiu o monumento Madame Bovary. Sartre percorreu as páginas do grande romance de Flaubert com um olhar inteiramente novo, descobrindo as delicadas linhas que ligaram a vida pessoal do escritor e a sua extraordinária ficção. O idiota da infância, percebeu Sartre, transformou-se num gênio capaz de sublimar sua própria fragilidade. A leitura dessa obra colossal deixa uma suspeita inevitável: talvez Flaubert tenha sido para Sartre o que Madame Bovary foi para Flaubert. (Palavras do escritor, jornalista e advogado José Antônio Pinheiro Machado, o Anonymus Gourmet, que leu a obra em francês)

Os três volumes em francês de "O idiota da família" que serão publicados pela L&PM

L&PM em tempo real

terça-feira, 24 janeiro 2012

Viva o mundo da web! Que permite que nós possamos estar ao mesmo tempo em todos os lugares. E melhor do que isso: ao mesmo tempo, em todos os lugares e ao vivo. Ontem, 23 de janeiro, a L&PM WebTV transmitiu, em tempo real e diretamente de Porto Alegre, o evento “Segundas literárias” com a participação de José Antonio Pinheiro Machado, o Anonymus Gourmet. Ao entrar no site da L&PM e clicar sobre o link “ao vivo”, as pessoas eram imediatamente levadas para o evento. Enquanto isso, também era possível participar via Twitter, comentando e enviando perguntas para o escritor.

Nanni Rios e Nathália Silva preparam-se para transmitir ao vivo o encontro com José Antonio Pinheiro Machado, o Anonymus Gourmet

No “Segundas literárias” da semana que vem, dia 30 de janeiro, novamente estaremos transmitindo ao vivo o evento que terá como tema os quadrinhos e que reunirá os cartunistas Iotti e Edgar Vasques, mais André Kleinert, um dos autores de Enciclopédia dos quadrinhos. Breve, os melhores momentos desses encontros do “Segundas literárias” estarão disponíveis na WebTV, onde todos os vídeos estão relacionados com suas obras. Aliás, já deu uma olhada na quantidade de conteúdo que tem por lá?

Morando na camisa embaixo do chapéu

sexta-feira, 16 setembro 2011

Por Anonymus Gourmet (José Antonio Pinheiro Machado)*

Anonymus Gourmet, que sobreviveu ao regime militar, inclui entre suas vaidades favoritas a tolerância amável ao direito das minorias. Ele sempre esteve do lado mais difícil, orgulha-se Madame Queiroz, testemunha daqueles tempos. Ela gosta de repetir a frase de Borges (ele, sempre ele): A um verdadeiro cavalheiro só podem interessar causas perdidas. Houve um tempo em que os vegetarianos não passavam de uma minoria ridicularizada. Anonymus, então, não hesitou em empunhar alfaces e cenouras como se fossem estandartes que não poderiam ser calados. Hoje, a carne a carne vermelha como dizem aqueles que desejam estigmatizar nossos bifes, diz a solidária Madame Queiroz é o alvo da Inquisição.

– Ainda bem que os Torquemadas ainda não estão incendiando açougues! – constata Anonymus.

Em pleno mês Farroupilha (no início, era a “data”, com o tempo virou “Semana Farroupilha”, agora é o setembro inteiro), Madame Queiroz gosta de lembrar um dos maiores escritores do Rio Grande, o inesquecível Athos Damasceno: “Ao passo que o Norte flutuava numa doce enseada de calda, nós aqui singrávamos num mar vermelho de sangue – sangue de boi, de ovelha e de carneiro. E não raro, até sangue de homem, tanto nos custou, em diferentes épocas, levantar uma barreira de peitos contra a cobiça dos espanhóis e suas pretensões territoriais”.

Tudo isso adverte que o churrasco dominical rio-grandense tem raízes profundas. Anonymus gosta de lembrar que o gado bovino chegou ao Rio Grande do Sul no século 17, mostrando o recorte já amarelado de uma antiga revista Claudia, no texto excelente da querida amiga Adélia Porto. Era o chamado gado xucro ou gado chimarrão, que vivia à solta, sem cerca e sem controle, caçado pelos índios charruas, nativos da região, que se tornaram grandes mestres da arte do churrasco. Adélia conta que a habilidade e o apetite dos índios espantaram o padre Antônio Seppé, que esteve por aqui em 1691. Seppé escreveu um livro, Viagem às Missões Jesuítas e Trabalhos Apostólicos, onde se lê: “Impossível dizer-se com que perícia e rapidez os índios pegam uma rês, derrubam-na, tiram-lhe o couro e esquartejam-na. Mas muito mais rápidos ainda são no comer”. Perplexo, o padre fala de um casal de índios que, sentindo fome, interrompeu a lavração de uma roça e devorou um dos bois de serviço, utilizando o arado, que era de pau, para principiar o fogo – um insólito churrasco de emergência. Depois dos índios, vieram os comerciantes de couros e os tropeiros, que recolhiam gado para São Paulo e Minas Gerais. Eram os primeiros gaúchos, gente rude, sem governo, que “morava na sua camisa, debaixo do chapéu”.

* José Antonio Pinheiro Machado (Anonymus Gourmet) é autor de diversos livros da série Gastronomia L&PM. Este texto foi originalmente publicado na pg. 2 do Caderno Gastronomia de Zero Hora do dia 16 de setembro.

29. “Revista Oitenta”: histórias do jornalismo utópico

terça-feira, 24 maio 2011

Por Ivan Pinheiro Machado*

A Revista OITENTA foi uma publicação cultural da L&PM Editores que circulou nacionalmente entre o final da década de 70 e meados da década de 80. Inspirada num clássico da época – a Granta Magazine inglesa – tinha cara de livro e edição de revista. Os ensaios, artigos, entrevistas, resenhas de livros, quadrinhos publicados na Oitenta, traziam a marca do novo, do revolucionário, do singular. Sua presença foi marcante e aqueles que a conheceram não esquecem. Foram 9 volumes. O primeiro foi lançado em setembro de 1979 e o último em setembro de 1984.

Quando concebemos o projeto e o nome, tínhamos a intenção de celebrar a nova década que, segundo se previa, seria a década da ressurreição do país; democracia, liberdade, progresso social e econômico. Os anos 70 terminavam sem deixar saudades. O país preparava-se para mudar. José Antonio Pinheiro Machado, meu irmão, morava em Roma naquela época. Ele era o entusiasta principal do projeto da revista-livro. E numa longa e intensa troca de cartas, nós fizemos o projeto, a pauta e colocamos de pé o primeiro número em setembro de 1979.

Tal foi a repercussão do primeiro volume, que decidimos comemorar o lançamento do volume 2 com uma grande festa de réveillon. Durante muito anos, setores da  inteligentzia portoalegrense relembrariam o fantástico réveillon “Revista 80”, realizado no inesquecível bar “Doce Vida”, na rua da República, primeiro boteco-ícone do bairro Cidade Baixa de Porto Alegre, hoje a meca da boemia local. Neste copioso réveillon, foram destruídos casamentos sólidos, foram bebidas mais de 2 mil garrafas de cerveja, 600 garrafas de champanhe e, às 10 horas da manhã, ainda se comemorava a entrada da nova década que, certamente, seria a porta dourada do futuro. Nosso e do país.

Pela revista OITENTA passaram todos os grandes intelectuais da época. Aquela que Millôr considerava sua melhor entrevista foi publicada em Oitenta. Fellini, Josué Guimarães, Woody Allen, Simenon e muitos outros falaram para a OITENTA. Umberto Eco pré-Nome da Rosa, estreou no Brasil, via Revista OITENTA. Éramos 6 editores, o José Antonio Pinheiro Machado, o Paulo de Almeida Lima, o José Onofre, o Eduardo “Peninha” Bueno, o Jorge Polydoro e eu.

Os seis primeiros volumes da Revista Oitenta

A revista acabou, como tudo acaba. A utopia de uma publicação ousada e eminentemente cultural, sustentada somente pelo leitor, naufragou com o fim das ilusões. As nossas vidas e o país mudaram. Veio a democratização e o que se viu foi um país destroçado pelo projeto fracassado da ditadura. O começo da década que nós celebramos numa festa sem fim naquele réveillon de 1980 foi o contrário do que imaginávamos. A tão sonhada década de ouro virou historicamente a famosa “década perdida”. Inflação, hiper-inflação, corrupção, foram as marcas da volta do país à democracia. O presidente Tancredo, no qual o Brasil acreditava, adoeceu antes da posse. E nós herdamos a era Sarney. E como se não bastasse, ainda teríamos Collor no réveillon de 1990…

*Toda terça-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata histórias que aconteceram em mais de três décadas de L&PM. Este é o vigésimo nono post da Série “Era uma vez… uma editora“.