﻿{"id":8765,"date":"2011-06-16T12:05:15","date_gmt":"2011-06-16T15:05:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=8765"},"modified":"2011-06-16T18:31:35","modified_gmt":"2011-06-16T21:31:35","slug":"my-buks-day","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=8765","title":{"rendered":"My Buk&#8217;s day"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Reinaldo Moraes*<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/BUKOWSKI.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8767\" title=\"BUKOWSKI\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/BUKOWSKI.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"308\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/BUKOWSKI.png 500w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/BUKOWSKI-292x300.png 292w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Women<\/em> (pronuncia-se <em>U\u00edmem<\/em>), do velho Buk, me caiu na m\u00e3o, n\u00e3o lembro como, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80, e logo pensei em traduzir a baga\u00e7a, de tanto que eu curti a leitura e releitura do livro. Bukowski virou meu \u00eddolo liter\u00e1rio da hora. Traduzi uns dois cap\u00edtulos por conta pr\u00f3pria e levei para a Brasiliense, editora forte na \u00e9poca, que topou bancar a empreitada. Meti, pois, m\u00e3os e p\u00e9s e pinto e cora\u00e7\u00e3o \u00e0 obra, que saiu em 1984, se n\u00e3o me engano. Durante o trabalho, que levou quase um semestre, eu contava \u00e0s pessoas que estava traduzindo o <em>Women<\/em>, do Bukowski, e as ditas pessoas sempre se espantavam com essa informa\u00e7\u00e3o, pois entendiam que eu estava a traduzir &#8220;O h\u00edmen&#8221;.\u00a0 Como \u00e9 que eu podia estar traduzindo essa inc\u00f4moda membrana que se antep\u00f5e \u00e0 plena realiza\u00e7\u00e3o sexual das mulheres e tamb\u00e9m dos homens, <em>by the way<\/em>? E para que outra membrana eu estaria traduzindo o h\u00edmem? Para o diafragma? O perit\u00f4nio?\u00a0 Quando a minha vers\u00e3o em portugu\u00eas de &#8220;O h\u00edmem&#8221; ficou finalmente pronta, batizada naturalmente de <em><a href=\"http:\/\/lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=636453&amp;ID=815051\" target=\"_blank\">Mulheres<\/a> <\/em>(o curioso \u00e9 que todas as mulheres que aparecem no livro j\u00e1 haviam se livrado do seu h\u00edmen h\u00e1 muito tempo), tomei um banho, botei uma cal\u00e7a branca comprada em Barcelona e uma camisa azul comprada em Paris, e fui, babando de orgulho, levar o calhama\u00e7o datilografado at\u00e9 a editora, que ficava pras bandas do centro de S\u00e3o Paulo.\u00a0 Ao sair da editora, com o chequinho da tradu\u00e7\u00e3o no bolso e tomado de grande al\u00edvio e sentimento de realiza\u00e7\u00e3o, resolvi entrar num bar com terra\u00e7o da avenida Ang\u00e9lica, perto de onde eu morava, para tomar um chopinho vespertino de confraterniza\u00e7\u00e3o comigo mesmo. Eis que, meia hora depois, me entra no bar e senta-se na mesa ao lado da minha uma senhorita com uma camisa amarrada na barriguinha saliente, decote <em>fuck-me-baby<\/em>, cal\u00e7a just\u00edssima real\u00e7ando o bund\u00e3o e umas sand\u00e1lias de salto alto. Naquele tremendo <em>piranha-look<\/em>,\u00a0 a fulana parecia sa\u00edda diretamente das p\u00e1ginas calientes e divertidas de <em><a href=\"http:\/\/lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=636453&amp;ID=815051\" target=\"_blank\">Mulheres<\/a><\/em> que eu acabara de revisar apenas algumas horas antes. A mulher pediu um chope, puxou um cigarro e me pediu fogo, que eu n\u00e3o tinha, pois n\u00e3o fumava e n\u00e3o fumo. O gar\u00e7om acendeu o cigarro dela. Fiquei na minha, tomando meu pr\u00f3prio chope e lendo, ou fingindo que lia, o jornal que eu tinha trazido comigo. N\u00e3o muitos minutos se passaram antes que a piranhuda criatura viesse me pedir a p\u00e1gina de cinema do jornal. Emprestei a p\u00e1gina e logo entabulamos conversa\u00e7\u00e3o de mesa a mesa. Que filmes legais estavam passando na cidade, quem j\u00e1 tinha visto o qu\u00ea, esse tipo de conversinha mole. Quando ficou claro que logo nos tornar\u00edamos mais \u00edntimos, ela veio se sentar \u00e0 minha mesa. V\u00e1rios, qui\u00e7\u00e1 muitos chopes depois, sem contar alguns Steinhaegers, sa\u00edmos do bar abra\u00e7ados, rumo ao meu carro, um Chevette 77, que fez o favor de nos conduzir at\u00e9 um hoteleco fuleiro do Bexiga, onde passamos algumas horas fazendo a mesma coisa que o sacana do Hank, o personagem-narrador de <em>Mulheres<\/em>, passara as 300 e tantas p\u00e1ginas do livro a fazer com a legi\u00e3o de namoradas, paqueras ocasionais e putas de alto bordo que por ali desfilam gostosamente. Era inacredit\u00e1vel: eu estava vivendo mais uma das aventuras sexuais errantes narradas pelo Buk com uma de suas mulheres teletransportadas da Calif\u00f3rnia para S\u00e3o Paulo, j\u00e1 com tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea. No fim, trocamos telefones e eu nunca mais vi a vagaba que, b\u00eabada e pelada no nosso ninho do amor provis\u00f3rio do Bexiga, revelara-se muito da tesuda. Imposs\u00edvel uma experi\u00eancia mais bukowskiana que essa, que conto aqui sem nenhuma inten\u00e7\u00e3o de me vangloriar como o grande literato mach\u00e3o que papa todas as bucetinhas desavisadas e mesmo algumas avisad\u00edssimas, no melhor estilo do meu \u00eddolo americano. Ou talvez eu at\u00e9 esteja mesmo tendo aqui essa inten\u00e7\u00e3o imbecil, por\u00e9m viril, de me vangloriar um pouco, em que pese o fato de todas as gl\u00f3rias serem v\u00e3s, ao fim e ao cabo, e vice-versa. Afinal, fui Bukowski por um dia, depois de ter passado meses a fio diante da minha Lettera 22 \u00e0s voltas com as po\u00e9ticas putarias do velho safado. Eu merecia aquilo, tanto quanto mere\u00e7o agora me vangloriar um teco daquela fa\u00e7anha er\u00f3tica-et\u00edlica-po\u00e9tica com a peruete galinha da avenida Ang\u00e9lica, 30 anos atr\u00e1s, inda mais agora que a minha tradu\u00e7\u00e3o reaparece em formato de bolso pela L&amp;PM, uma das melhores not\u00edcias que tive nos \u00faltimos tempos. O mesmo dir\u00e3o, imagino, os futuros leitores de <em>O h\u00edmen<\/em>, esse cl\u00e1ssico bukowskiano. E podem ficar todos sossegados: vagabas h\u00e3o de pintar por a\u00ed, ontem, hoje e sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>*<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Reinaldo_Moraes\" target=\"_blank\">Reinaldo Moraes<\/a> \u00e9 o tradutor do livro <\/em><a href=\"http:\/\/lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=636453&amp;ID=815051\" target=\"_blank\">Mulheres<\/a><em>, de Charles Bukowski, que <a href=\"http:\/\/twitpic.com\/5ccndu\" target=\"_blank\">acaba de chegar<\/a> \u00e0 Cole\u00e7\u00e3o L&amp;PM Pocket, autor de <\/em><a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/mat\/2009\/06\/13\/trecho-um-de-pornopopeia-de-reinaldo-moraes-756329155.asp\" target=\"_blank\">Pornopop\u00e9ia<\/a><em>,\u00a0entre outros livros, e escreveu este texto especialmente para o blog da L&amp;PM.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Reinaldo Moraes* Women (pronuncia-se U\u00edmem), do velho Buk, me caiu na m\u00e3o, n\u00e3o lembro como, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80, e logo pensei em traduzir a baga\u00e7a, de tanto que eu curti a leitura e releitura do livro. 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