﻿{"id":8399,"date":"2011-06-01T12:14:53","date_gmt":"2011-06-01T15:14:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=8399"},"modified":"2011-06-01T17:11:05","modified_gmt":"2011-06-01T20:11:05","slug":"os-contos-de-caio-fernando-abreu-por-lygia-fagundes-telles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=8399","title":{"rendered":"Os contos de Caio Fernando Abreu, por Lygia Fagundes Telles"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/ovo-apunhalado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-8412 alignright\" title=\"ovo apunhalado\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/ovo-apunhalado-173x300.jpg\" alt=\"\" width=\"173\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/ovo-apunhalado-173x300.jpg 173w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/ovo-apunhalado.jpg 391w\" sizes=\"auto, (max-width: 173px) 100vw, 173px\" \/><\/a>O que me inquieta e fascina nos contos de Caio Fernando Abreu \u00e9 essa loucura l\u00facida, essa magia de encantador de serpentes que, despojado e limpo, vai tocando sua flauta e as pessoas v\u00e3o-se aproximando de todo aquele ritual aparentemente simples, mas terr\u00edvel porque revelador de um denso mundo de sofrimento. De piedade. De amor.<\/p>\n<p>Mundo de uma desesperada busca, onde as palavras se procuram no escuro e no sil\u00eancio como m\u00e3os que raramente (t\u00e3o raramente, meu Deus) se encontram e se separam em meio do vazio. Da solid\u00e3o. \u201cO pensamento verte sangue\u201d diz o poeta. \u00c9 desse sangue que essas p\u00e1ginas ficam impregnadas \u2013 mas t\u00e3o disfar\u00e7adamente, t\u00e3o ambiguamente: por pudor, talvez, Caio Fernando Abreu disfar\u00e7a, escamoteia atrav\u00e9s das personagens (sempre anti-her\u00f3is) a \u201cdor que deveras sente\u201d . O medo, a perplexidade, a c\u00f3lera, a ironia, o fervor \u2013 o sentimento do homem ca\u00e7a e ca\u00e7ador \u00e9 redescoberto neste corpo a corpo de criador e cria\u00e7\u00e3o. Sim, suas personagens s\u00e3o os antiher\u00f3is, mas com eles Caio n\u00e3o constr\u00f3i o anticonto t\u00e3o ao gosto de seus companheiros de gera\u00e7\u00e3o. Revolucion\u00e1rio sempre. Original sempre, mas sem se preocupar com modismos (importados ou n\u00e3o) que tentam impressionar um p\u00fablico que, de resto, j\u00e1 n\u00e3o se impressiona com nada. Ele n\u00e3o escreve o antitexto, mas O TEXTO que reabilita e renova o g\u00eanero. Caio Fernando Abreu assume a emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Emo\u00e7\u00e3o esta que \u00e9 vertida para uma linguagem que em alguns momentos atinge a rara plenitude pr\u00f3xima de um estado de gra\u00e7a. Linguagem que o coloca na fam\u00edlia dos possessos (que j\u00e1 nos deu um Van Gogh, um Dostoievski, um Orson Welles), cultivadores n\u00e3o s\u00f3 da \u201cpaix\u00e3o da linguagem\u201d, na express\u00e3o de Octavio Paz, mas tamb\u00e9m da \u201clinguagem da paix\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Gostaria de destacar aqui os contos que mais amei deste singular livro do mo\u00e7o ga\u00facho que um dia me escreveu numa carta: \u201cOs crep\u00fasculos t\u00eam sido lindos. Passei o melhor ver\u00e3o da minha vida, ganhei um gatinho chamado Saturno (ele \u00e9 Capric\u00f3rnio), amei muito, fiz ioga \u00e0 beira-mar. Enfim, tenho agradecido por estar vivo e ter andado por todos os lugares onde andei e ter vivido tudo o que vivi e ser exatamente como sou\u201d.<\/p>\n<p>Apontar este ou aquele conto? Mas se vejo cada um dos textos que formam <em>O ovo apunhalado<\/em> como pe\u00e7as de um jogo, destac\u00e1veis e curiosamente insepar\u00e1veis na sua alquimia mais profunda, cada qual trazendo sua parcela de realidade e sonho, rotina e po\u00e9tica magia \u2013 vida e desvida com seu mist\u00e9rio e sua revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando nos semin\u00e1rios de literatura os te\u00f3ricos pedantes acabam por condenar a palavra, minha vontade \u00e9 simplesmente mostrar-lhes um livro como este. Provar-lhes a atualidade da desacreditada palavra com a pr\u00f3pria palavra, quando a servi\u00e7o de uma t\u00e9cnica rica de recursos. Aliada a uma imagina\u00e7\u00e3o cintilante.<br \/>\n<em> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><em>Lygia Fagundes Telles &#8211; <\/em>S\u00e3o Paulo, abril de 1975 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Texto publicado no Pref\u00e1cio do livro <em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=717472&amp;ID=506363\" target=\"_blank\">O ovo apunhalado<\/a><\/em>, de Caio Fernando Abreu &#8211; Cole\u00e7\u00e3o L&amp;PM POCKET<\/p>\n<div id=\"attachment_8400\" style=\"width: 307px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/Caio_e_Lygia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8400\" class=\"size-full wp-image-8400 \" title=\"Caio_e_Lygia\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/Caio_e_Lygia.jpg\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"204\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-8400\" class=\"wp-caption-text\">Caio e Lygia nos anos 1970<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que me inquieta e fascina nos contos de Caio Fernando Abreu \u00e9 essa loucura l\u00facida, essa magia de encantador de serpentes que, despojado e limpo, vai tocando sua flauta e as pessoas v\u00e3o-se aproximando de todo aquele ritual aparentemente simples, mas terr\u00edvel porque revelador de um denso mundo de sofrimento. 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