﻿{"id":7991,"date":"2011-05-17T15:48:17","date_gmt":"2011-05-17T18:48:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=7991"},"modified":"2011-05-17T15:48:17","modified_gmt":"2011-05-17T18:48:17","slug":"28-o-segredo-de-polichinelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=7991","title":{"rendered":"28. O segredo de polichinelo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/britto_porta_voz.jpg\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ERA-UMA-VEZ-22.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-7994\" title=\"ERA UMA VEZ 2\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ERA-UMA-VEZ-22-1024x122.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"53\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ERA-UMA-VEZ-22-1024x122.jpg 1024w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ERA-UMA-VEZ-22-300x35.jpg 300w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/ERA-UMA-VEZ-22.jpg 1121w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Por Ivan Pinheiro Machado*<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/britto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8000 alignleft\" title=\"britto\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/britto.jpg\" alt=\"\" width=\"202\" height=\"281\" \/><\/a>Em 1985, depois de cair enfermo na v\u00e9spera da posse, o primeiro presidente civil p\u00f3s-golpe de 1964, Tancredo Neves, morreu 39 dias depois, emblematicamente no dia de Tiradentes, 21 de abril de 1985. Pelo seu estilo af\u00e1vel, conciliador, ideais democr\u00e1ticos, orat\u00f3ria impec\u00e1vel \u2013 e por ser o presidente que levaria o Brasil definitivamente \u00e0 democracia \u2013 Tancredo Neves era admirado pelo povo brasileiro. A partir de sua doen\u00e7a, ele passou a ser cultuado e amado como um super pop star. Uma agonia que foi acompanhada minuto a minuto pela TV e trouxe junto para o pante\u00e3o das celebridades o seu porta-voz: Ant\u00f4nio Britto. Britto era o homem que, com ar compungido e espessa barba escura, comunicava diariamente a 120 milh\u00f5es de brasileiros, o estado de sa\u00fade do presidente que n\u00e3o conseguira assumir. Britto e Tancredo se confundiam no imagin\u00e1rio do povo. Competente como jornalista, Britto passou pelos principais jornais do Rio Grande do Sul e chegou a ser o mais respeit\u00e1vel rep\u00f3rter da TV Globo. Tancredo convidou-o para ser seu porta-voz. Com a morte do presidente, Britto iniciou brilhante carreira pol\u00edtica. Foi o deputado mais votado no Rio Grande, Ministro da Previd\u00eancia e depois Governador do Estado. No s\u00e9culo 21, abandonou a pol\u00edtica e hoje \u00e9 um vitorioso empres\u00e1rio.<\/p>\n<p>Pois bem. Quando morreu Tancredo, assumiu Jos\u00e9 Sarney, o vice. Com a Na\u00e7\u00e3o paralisada, atrav\u00e9s de meu irm\u00e3o, Jos\u00e9 Antonio, contatamos Britto que estava escondido em algum lugar da serra ga\u00facha. \u00c9ramos todos ex-colegas de jornal, tanto no Correio do Povo, como na Zero Hora. Utilizando uma opera\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia sofisticad\u00edssima, secret\u00edssima e impec\u00e1vel, conseguimos descobrir onde estava Ant\u00f4nio Britto. E numa noite de neblina espessa, num hotel nos arredores de Gramado, combinamos que Britto juntamente com o jornalista Luis Cl\u00e1udio Cunha, faria o livro contando tudo sobre a agonia e morte de Tancredo Neves. Uma verdadeira bomba (do bem) editorial estava nas nossas m\u00e3os. Acertamos todos os detalhes e, excitad\u00edssimos com a novidade, descemos a serra em condi\u00e7\u00f5es precar\u00edssimas, j\u00e1 que um fog praticamente intranspon\u00edvel e caracter\u00edstico do outono ga\u00facho tomava conta da estrada sinuosa e perigosa.<\/p>\n<p>O Dudu Guimar\u00e3es era um personagem folcl\u00f3rico entre o meio jornal\u00edstico. No legend\u00e1rio bar do IAB, ele sempre estava l\u00e1, rodando de mesa em mesa, sabendo de tudo que acontecia. Ele falava com todo mundo e acabava sempre sentado na mesa do cineasta Jorge Furtado, de quem antevia o futuro brilhante. Mas se chegasse no bar, por exemplo, o Chico Buarque, Caetano Veloso ou algum outro m\u00fasico da moda, ou quem sabe um fil\u00f3sofo famoso ou um escritor c\u00e9lebre, em poucos instantes o Dudu abandonava a mesa de Jorge Furtado e se aboletava na mesa do \u00eddolo.<\/p>\n<p>Mas voltemos a 24 de abril de 1985, dia em que contratamos o grande <em>bestseller<\/em> do ano. Conseguimos transpor a neblina da serra, chegamos a Porto Alegre e logo\u00a0o Eduardo \u201cPeninha\u201d Bueno, que trabalhava na L&amp;PM, quis saber o motivo de tanta alegria. Eu e o Lima dissemos que n\u00e3o pod\u00edamos contar. Ele insistiu.\u00a0Falamos que ele era boca grande demais. Ele continuou insistindo para saber o que estava acontecendo. At\u00e9 que diante de tantos pedidos (e do juramento de que se aquela not\u00edcia vazasse ele seria demitido) contamos para o Peninha que o Britto escreveria o livro. Ele era a quarta pessoa a saber e jurou n\u00e3o contar nada. Juntos, decidimos comemorar nosso enorme segredo numa festa que se realizava todos os anos no antigo cinema Castelo no bairro da Azenha em Porto Alegre. O Trof\u00e9u Scalp. Uma esp\u00e9cie de sacanagem ao Oscar, onde o Scalp, um grande sal\u00e3o de cabelereiros, oferecia um trof\u00e9u estranh\u00edssimo aos destaques do ano na \u00e1rea cultural. Na verdade, a entrega dos trof\u00e9us era pretexto para um grande e imperd\u00edvel baile pop. Sa\u00edmos direto da editora para l\u00e1.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m, na imprensa brasileira sabia onde estava Britto. Todos queriam o seu depoimento e ca\u00e7avam o porta-voz de Tancredo em Minas, Rio, S\u00e3o Paulo, Bahia. Uma complexa opera\u00e7\u00e3o que envolveu at\u00e9 v\u00f4o privado, levara Britto em segredo para longe do mundo, oculto na neblina da serra ga\u00facha.\u00a0Juramos\u00a0que n\u00e3o falar\u00edamos nada para ningu\u00e9m. Nem do seu paradeiro, nem do livro. \u00c9ramos quatro c\u00famplices de um mesmo segredo.<\/p>\n<p>Horas depois deste solene pacto,\u00a0entramos l\u00e9pidos e saltitantes, o Peninha e eu no cinema Castelo, j\u00e1 sonhando com o futuro super-betseller. Pois o Dudu Guimar\u00e3es estava presente na festa (\u00f3bvio). Levantou-se subitamente da mesa do Jorge Furtado, onde havia ancorado \u2013 como sempre \u2013 e veio em nossa dire\u00e7\u00e3o. Sorria \u2013 como sempre tamb\u00e9m \u2013 por tr\u00e1s de seus \u00f3culos de lentes espessas e emba\u00e7adas. Deu um abra\u00e7o apertado no Peninha e perguntou:<\/p>\n<p>\u2013 V\u00e3o lan\u00e7ar o livro do Britto, hein?!<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que nosso mundo caiu.<\/p>\n<p><em>P.S.:\u00a0 nosso sonho de bestseller se concretizou 30 dias mais tarde, quando o livro \u201cAssim morreu Tancredo\u201d estourou no Brasil vendendo mais de 200 mil exemplares. E nunca ficamos sabendo quem contou para o Dudu.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_8006\" style=\"width: 324px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8006\" class=\"size-full wp-image-8006  \" title=\"britto_porta_voz\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/britto_porta_voz1.jpg\" alt=\"\" width=\"314\" height=\"462\" \/><p id=\"caption-attachment-8006\" class=\"wp-caption-text\">A capa de &quot;Assim morreu Tancredo&quot;, de Ant\u00f4nio Britto<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>*Toda ter\u00e7a-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata hist\u00f3rias que aconteceram em mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de L&amp;PM. Este \u00e9 o vig\u00e9simo\u00a0oitavo post da S\u00e9rie \u201c<\/em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/blog\/?cat=777\" target=\"_blank\"><em>Era uma vez\u2026 uma editora<\/em><\/a><em>\u201c.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ivan Pinheiro Machado* Em 1985, depois de cair enfermo na v\u00e9spera da posse, o primeiro presidente civil p\u00f3s-golpe de 1964, Tancredo Neves, morreu 39 dias depois, emblematicamente no dia de Tiradentes, 21 de abril de 1985. 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