﻿{"id":7452,"date":"2011-04-26T16:14:49","date_gmt":"2011-04-26T19:14:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=7452"},"modified":"2014-08-18T13:50:32","modified_gmt":"2014-08-18T16:50:32","slug":"25-o-dia-em-que-victor-hugo-me-apresentou-a-balzac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=7452","title":{"rendered":"25. O dia em que Victor Hugo me apresentou a Balzac"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/ERA-UMA-VEZ-24.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-7453\" title=\"ERA UMA VEZ 2\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/ERA-UMA-VEZ-24-1024x122.jpg\" width=\"450\" height=\"53\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/ERA-UMA-VEZ-24-1024x122.jpg 1024w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/ERA-UMA-VEZ-24-300x35.jpg 300w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/ERA-UMA-VEZ-24.jpg 1121w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Por Ivan Pinheiro Machado*<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_7456\" style=\"width: 209px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/tumulo_balzac.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-7456\" class=\"size-medium wp-image-7456\" title=\"tumulo_balzac\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/tumulo_balzac-199x300.jpg\" width=\"199\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/tumulo_balzac-199x300.jpg 199w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/tumulo_balzac.jpg 332w\" sizes=\"auto, (max-width: 199px) 100vw, 199px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-7456\" class=\"wp-caption-text\">O t\u00famulo de Balzac no cemit\u00e9rio P\u00e8re Lachaise em Paris<\/p><\/div>\n<p>Meu pai gostava de discursos. Como deputado e advogado, foi um orador brilhante. Abastecia-se na leitura e em particular nos grandes discursos. Com isso, apresentava um pouco da grande literatura a mim e a meu irm\u00e3o. Assim, conhecemos discursos c\u00e9lebres como o mon\u00f3logo shakesperiano de Marco Antonio diante do cad\u00e1ver de Julio C\u00e9sar; o discurso de Churchill diante da amea\u00e7a nazista, onde ele pedia aos ingleses sangue, suor e l\u00e1grimas; a emocionada ora\u00e7\u00e3o de Martin Luther King pela igualdade racial e muitos outros, entre os quais o discurso de Victor Hugo diante do t\u00famulo de Balzac. Uma vez meu pai o leu em voz alta. \u00c9ramos pequenos, pr\u00e9-adolescentes e aquelas palavras pungentes me impressionaram definitivamente. Muito anos depois, uma das frases do autor de \u201cOs miser\u00e1veis\u201d e \u201cCorcunda de Notre Dame\u201d ainda estava guardada nos rec\u00f4nditos da mem\u00f3ria: \u201cMonsieur de Balzac era um dos primeiros entre os maiores e um dos mais altos entre os melhores\u201d. Foi ent\u00e3o que um dia eu pensei&#8230; preciso ler este cara. Portanto, o discurso f\u00fanebre, de t\u00e3o brilhante, me levou a Balzac, cuja obra est\u00e1 sendo <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=510927&amp;SubsecaoID=0&amp;Serie=Balzac\" target=\"_blank\">publicada na cole\u00e7\u00e3o L&amp;PM Pocket<\/a>. E aqui, neste espa\u00e7o de lembran\u00e7as, eu gostaria de compartilhar com meus 12 leitores este texto maravilhoso. Principalmente, se considerarmos o contexto em que foi dito. Quando morreu, em 18 de agosto de 1850, Balzac era um escritor muito, muito popular. Mas era detestado pela \u201cinteligentzia\u201d que o ridicularizava. Seu g\u00eanio estri\u00f4nico, sua superprodu\u00e7\u00e3o e a imensa empatia com o grande p\u00fablico, irritava os intelectuais. O genial Victor Hugo foi um dos poucos grandes escritores do seu tempo que teve a sensibilidade de antever o g\u00eanio de Balzac. Vejam s\u00f3:<\/p>\n<blockquote><p><strong>Discurso F\u00fanebre para Honor\u00e9 de Balzac, por Victor Hugo &#8211; <\/strong><strong>21 de\u00a0agosto de 1850<\/strong><\/p>\n<p><em>Cavalheiros:<\/em><\/p>\n<p><em>O homem que acaba de descer a esta tumba era um daqueles a quem a dor p\u00fablica acompanha seu cortejo f\u00fanebre. Nos tempos por que passamos, todas as fic\u00e7\u00f5es se desvanecem. Doravante, os olhos n\u00e3o se fixam mais sobre as cabe\u00e7as reinantes, mas sobre as cabe\u00e7as que pensam, e o pa\u00eds inteiro sofre um abalo quando uma dessas cabe\u00e7as desaparece. Hoje, o luto popular \u00e9 provocado pela morte de um homem de talento; o luto nacional \u00e9 a morte de um homem de g\u00eanio.<\/em><\/p>\n<p><em>Cavalheiros, o nome de Balzac se incluir\u00e1 no rastro luminoso que nossa \u00e9poca ir\u00e1 deixar para o futuro. Monsieur de Balzac fazia parte dessa pujante gera\u00e7\u00e3o de escritores do s\u00e9culo XIX que surgiu depois de Napole\u00e3o, do mesmo modo que a ilustre pl\u00eaiade do s\u00e9culo XVII depois de Richelieu, tal como se, no desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o, houvesse uma lei que fa\u00e7a suceder os que dominaram atrav\u00e9s do gl\u00e1dio por aqueles que dominam pelo esp\u00edrito.<\/em><\/p>\n<p><em>Monsieur de Balzac era um dos primeiros entre os maiores e um dos mais altos entre os melhores. Este n\u00e3o \u00e9 o lugar de dizer tudo o que era essa espl\u00eandida e soberana intelig\u00eancia. Todos os seus livros formam apenas um s\u00f3 livro, o livro vivo, luminoso, profundo, em que se v\u00ea ir e vir, andar e mover-se, com um algo de assustador e terr\u00edvel misturado ao real, toda a nossa civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea; um livro maravilhoso que o poeta intitulou \u201ccom\u00e9dia\u201d, mas que poderia ter denominado \u201chist\u00f3ria\u201d; que assume todas as formas e todos os estilos; que ultrapassa o picante e vai at\u00e9 Suet\u00f4nio; que atravessa Beaumarchais e chega at\u00e9 Rabelais; um livro que \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o e a imagina\u00e7\u00e3o; que prodigaliza o verdadeiro, o \u00edntimo, o burgu\u00eas, o trivial e o material; e que, por momentos, atrav\u00e9s de todas as realidades bruscamente e amplamente dilaceradas, deixa de repente entrever o ideal mais sombrio e mais tr\u00e1gico.<\/em><\/p>\n<p><em>Contra sua vontade, quer ele quisesse ou n\u00e3o, quer consentisse ou n\u00e3o, o autor desta obra estranha e imensa tem o rosto vigoroso dos escritores revolucion\u00e1rios. Balzac vai direto ao fim. Ele enfrenta corpo a corpo a sociedade moderna. Ele arranca a todos alguma coisa: de alguns tira uma ilus\u00e3o; de outros, a esperan\u00e7a; arranca destes um grito e \u00e0queles uma m\u00e1scara. Ele revira os v\u00edcios, disseca as paix\u00f5es, esvazia e sonda o interior dos homens, sua alma, seu cora\u00e7\u00e3o, suas entranhas e seu c\u00e9rebro, o abismo que cada um de n\u00f3s traz dentro de si mesmo. E, por um dom de sua livre e vigorosa intelig\u00eancia, por esse privil\u00e9gio das intelig\u00eancias de nosso tempo que, tendo visto de perto as revolu\u00e7\u00f5es, percebem melhor o fim da humanidade e compreendem melhor a Provid\u00eancia, Balzac se destaca, sorridente e sereno, desses estudos tem\u00edveis que nos produziram a melancolia de Moli\u00e8re e a misantropia de Rousseau.<\/em><\/p>\n<p><em>Vejam o que ele fez entre n\u00f3s. Eis a obra que nos deixa; a obra elevada e s\u00f3lida, robusto amontoado de l\u00e1pides de granito: um monumento! A obra do alto da qual resplandecer\u00e1 doravante sua celebridade. Os grandes homens constroem seus pr\u00f3prios pedestais; o futuro encarrega-se de erguer-lhes as est\u00e1tuas.<\/em><\/p>\n<p><em>Sua morte encheu Paris de estupor.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 apenas alguns meses, ele retornara \u00e0 Fran\u00e7a. Sentindo que a morte se aproximava, quis rever a p\u00e1tria, como na v\u00e9spera de uma grande viagem vamos abra\u00e7ar nossa irm\u00e3. Sua vida foi curta, mas plena, mais cheia de obras que de dias. Ai de n\u00f3s! Este trabalhador pujante, que nunca se fatigava, este fil\u00f3sofo, este pensador, este poeta, este g\u00eanio, viveu entre n\u00f3s esta vida de borrascas, de lutas, de disputas, de combates, em todos os tempos o destino comum de todos os grandes homens. Hoje, aqui se encontra ele, em paz. Ele sai das contesta\u00e7\u00f5es e dos \u00f3dios. No mesmo dia, ele entra na gl\u00f3ria e no t\u00famulo. Ele vai reluzir daqui para a frente, acima de todas estas nuvens escuras que se acumulam sobre nossas cabe\u00e7as, entre as estrelas da p\u00e1tria!<\/em><\/p>\n<p><em>Todos voc\u00eas que est\u00e3o aqui, n\u00e3o se sentem tentados a invej\u00e1-lo? Cavalheiros, qualquer que seja nossa dor em presen\u00e7a de tal perda, devemos sempre resignar-nos a tais cat\u00e1strofes. Aceit\u00e1-las naquilo que elas t\u00eam de mais pungente e severo. \u00c9 bom talvez, quem sabe \u00e9 necess\u00e1rio, em uma \u00e9poca como a nossa, que de tempos em tempos uma grande morte comunique aos esp\u00edritos devorados pela d\u00favida e pelo ceticismo uma como\u00e7\u00e3o religiosa. A Provid\u00eancia sabe o que faz, no momento em que coloca o povo assim, face a face com o mist\u00e9rio supremo e quando o faz meditar sobre a morte, que \u00e9 a grande igualdade e que \u00e9 tamb\u00e9m a grande liberdade.<\/em><\/p>\n<p><em>A Provid\u00eancia sabe o que faz, pois este \u00e9 o mais elevado de todos os ensinamentos. Aqui n\u00e3o podem existir sen\u00e3o os pensamentos mais austeros e mais s\u00e9rios em todos os cora\u00e7\u00f5es, quando um sublime esp\u00edrito faz majestosamente sua entrada na outra vida, quando um desses seres que planaram por longo tempo acima das multid\u00f5es com as asas vis\u00edveis do g\u00eanio, desfraldando de repente estas outras asas que n\u00e3o se viam, mergulha bruscamente no desconhecido.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o desconhecido!&#8230; N\u00e3o, eu j\u00e1 disse em outra ocasi\u00e3o dolorosa e n\u00e3o me cansarei de repeti-lo!&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a noite, \u00e9 a luz! N\u00e3o \u00e9 o fim, \u00e9 o come\u00e7o! N\u00e3o \u00e9 o nada, \u00e9 a eternidade! Todos voc\u00eas que me escutam, n\u00e3o \u00e9 verdade? S\u00e3o justamente esses f\u00e9retros que nos demonstram a imortalidade; \u00e9 na presen\u00e7a de certos mortos ilustres que sentimos mais distintamente os destinos divinos dessas intelig\u00eancias que atravessam a terra para sofrer e para se purificar e que o homem p\u00e1ra e pensa e ent\u00e3o diz a si mesmo que \u00e9 imposs\u00edvel que aqueles que foram g\u00eanios durante a vida n\u00e3o se transformem em almas depois da morte!<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><em>*Toda ter\u00e7a-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata hist\u00f3rias que aconteceram em mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de L&amp;PM. Este \u00e9 o vig\u00e9simo\u00a0quinto post da S\u00e9rie \u201c<\/em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/blog\/?cat=777\" target=\"_blank\"><em>Era uma vez\u2026 uma editora<\/em><\/a><em>&#8220;.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ivan Pinheiro Machado* Meu pai gostava de discursos. Como deputado e advogado, foi um orador brilhante. Abastecia-se na leitura e em particular nos grandes discursos. Com isso, apresentava um pouco da grande literatura a mim e a meu irm\u00e3o. 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