﻿{"id":6201,"date":"2011-02-28T11:27:56","date_gmt":"2011-02-28T14:27:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=6201"},"modified":"2011-02-28T11:35:37","modified_gmt":"2011-02-28T14:35:37","slug":"obrigado-doutor-scliar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=6201","title":{"rendered":"Obrigado Doutor Scliar!"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Ivan Pinheiro Machado<\/em><\/p>\n<p>Era o ano de 1977, a L&amp;PM Editores, literalmente, engatinhava. Est\u00e1vamos na Livraria Lima, na rua Borges de Medeiros em Porto Alegre, quando entrou o jovem escritor e m\u00e9dico Moacyr Scliar. Ele j\u00e1 havia escrito o livro de contos \u201cO carnaval dos animais\u201d e tivera uma excelente repercuss\u00e3o de p\u00fablico e cr\u00edtica com dois romances, \u201c<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=717472&amp;ID=519291\" target=\"_blank\">A guerra no Bom Fim<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=717472&amp;ID=633443\" target=\"_blank\">O ex\u00e9rcito de um homem s\u00f3<\/a>\u201d. Come\u00e7amos a conversar, ele cumprimentou-nos pela ousadia de fazer uma editora naquela \u00e9poca t\u00e3o dif\u00edcil, econ\u00f4mica e politicamente. Foi um papo simp\u00e1tico, o Lima e eu ficamos muito tocados pela aten\u00e7\u00e3o. T\u00ednhamos 24 e 23 anos, respectivamente, e uma editora com 25 livros publicados e dois anos e meio de vida. Poucos dias depois, o telefone tocou na \u201csede\u201d da L&amp;PM, na rua 24 de Outubro, numa velha casa que divid\u00edamos com o arquiteto Roque Fiori (t\u00ednhamos duas salas).<\/p>\n<p><em>\u2013 Vou direto ao ponto.<\/em> Disse Scliar. <em>\u2013 <\/em><em>Voc\u00eas querem publicar um livro meu?<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_6203\" style=\"width: 298px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/grupo-pega-pra-kapput.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6203\" class=\"size-full wp-image-6203  \" title=\"grupo pega pra kapput\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/grupo-pega-pra-kapput.jpg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6203\" class=\"wp-caption-text\">&quot;Doutor&quot; Scliar entre Edgar Vasques, Luis Fernando Ver\u00edssimo e Josu\u00e9 Guimar\u00e3es, o grupo de &quot;Pega pra Kaputt&quot;<\/p><\/div>\n<p>Ficamos euf\u00f3ricos. Rec\u00e9m hav\u00edamos publicado \u201c<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=636453&amp;ID=649292\" target=\"_blank\">\u00c9 tarde para saber<\/a>\u201d de Josu\u00e9 Guimar\u00e3es, e \u201cDevora-me ou te decifro\u201d de Mill\u00f4r Fernandes. A editora ia bem e publicar Scliar seria um passo muito importante. Foi assim que editamos \u201c<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=717472&amp;ID=543305\" target=\"_blank\">M\u00eas de C\u00e3es Danados<\/a>\u201d, um romance que se passa na \u00e9poca da c\u00e9lebre Campanha da Legalidade, quando Leonel Brizola evitou o golpe militar que teria sucesso tr\u00eas anos mais tarde em 1964. Neste mesmo ano de 1977, fizemos \u201c<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=625470&amp;ID=616123\" target=\"_blank\">Pega pra Kaputt<\/a>\u201d, o primeiro (e \u00fanico) romance coletivo brasileiro que misturava texto e quadrinhos, com Josu\u00e9 Guimar\u00e3es, Moacyr Scliar, Luis Fernando Ver\u00edssimo e Edgar Vasques na HQ e emplacamos o livro mais vendido da Feira do Livro de Porto Alegre com \u201cM\u00eas de C\u00e3es Danados\u201d. Logo no ano seguinte, publicamos \u201c<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=636453&amp;ID=846063\" target=\"_blank\">Os Deuses de Raquel<\/a>\u201d, \u201c\u201d<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=636453&amp;ID=546072\" target=\"_blank\">Doutor Miragem<\/a>\u201d. Em 1979, editamos \u201c<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=717472&amp;ID=508318\">Os volunt\u00e1rios<\/a>\u201d. Em 1980, reeditamos o maravilhoso \u201cO ex\u00e9rcito de um homem s\u00f3\u201d e \u201cA guerra no Bom Fim\u201d. Em 1983, relan\u00e7amos o premiad\u00edssimo \u201cO centauro no jardim\u201d, lan\u00e7ado pela Editora de S\u00e9rgio Lacerda, a Nova Fronteira, em 1980.<\/p>\n<p>Enfim, de l\u00e1 para c\u00e1, foram 34 anos de conv\u00edvio e 24 livros lan\u00e7ados.<\/p>\n<p>Ontem, recebemos a not\u00edcia que tem\u00edamos desde que, no final de janeiro, Scliar hospitalizara-se acometido de um Acidente Vascular Cerebral. O Doutor, como o cham\u00e1vamos, tinha lutado, mas n\u00e3o conseguiu resistir\u00a0\u00e0 gravidade da doen\u00e7a. Em dezembro, Paulo Lima e eu encontramos Scliar no v\u00f4o que ia para o Rio. N\u00f3s \u00edamos para uma reuni\u00e3o e ele para uma sess\u00e3o na Academia. No final da tarde, nos encontramos novamente no Santos Dumont, para pegar o v\u00f4o de volta. Na ocasi\u00e3o, conversamos bastante e ele falou de seus planos para o futuro, que eram muitos. Estava trabalhando em v\u00e1rios projetos, tinha \u201cuns tr\u00eas ou quatro\u201d romances na cabe\u00e7a e estava\u00a0se dedicando\u00a0a dois. Gentil como sempre, se disse fascinado com a distribui\u00e7\u00e3o dos pockets da L&amp;PM: \u201cSemana passada eu estava no interior do interior de Minas para uma palestra e estava l\u00e1 o display dos pockets, e tinha livros meus!\u201d<\/p>\n<p>Numa carreira que teve seus primeiros passos com o livro \u201cHist\u00f3rias de um m\u00e9dico em forma\u00e7\u00e3o\u201d (uma obra de juventude, escrita em 1962, que ele n\u00e3o gostava muito de incluir na sua bibliografia) e \u201cCarnaval dos Animais\u201d, de 1972, foram mais de 70 t\u00edtulos entre ensaios, contos e romances. A qualidade, inventividade e originalidade da sua obra o levaram ao reconhecimento nacional, internacional (foi traduzido em v\u00e1rias l\u00ednguas) e \u00e0 Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<p>Nascido e criado no Bom Fim, o bairro judeu de Porto Alegre, ele soube como ningu\u00e9m expressar os mist\u00e9rios ocultos da suas ruas, as m\u00faltiplas vozes de emigrantes, refugiados, o humor \u00e1cido cultivado numa tradi\u00e7\u00e3o de sofrimento e fugas. E esta foi sua grande marca. Traduzir esta compatibilidade de uma cultura universal para os nossos tr\u00f3picos. Sem perder a alma de tradi\u00e7\u00f5es ancestrais. Scliar, assim, foi universal, raz\u00e3o pela qual seus livros transitam pelo mundo com naturalidade em v\u00e1rias l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Mas recordando a conversa leve e divertida no aeroporto Santos Dumont, um m\u00eas e meio atr\u00e1s, n\u00e3o posso deixar de pensar na velha e batida precariedade das nossas vidas. Scliar estava bem, l\u00e9pido em seus 73 anos, r\u00e1pido como sempre, apressado e cheio de planos. Scliar tinha uma urg\u00eancia em viver. E ele vivia muito atrav\u00e9s de suas hist\u00f3rias. Escrevia sempre, sempre.<\/p>\n<p>A multid\u00e3o dos seus leitores ter\u00e1 como consolo uma obra vasta, de enorme qualidade. Mas aqueles que ficam privados dele ter\u00e3o muita saudade. Scliar era amigo e solid\u00e1rio. N\u00e3o cultivava nem uma grama de inveja, t\u00e3o comum entre n\u00f3s; estimulava os jovens escritores como muito poucos, tinha sempre uma palavra de carinho para todos e usava seu espa\u00e7o na imprensa para divulgar tudo o que ele achava que tinha qualidade ou era promissor. Aqui na L&amp;PM temos o exemplo cl\u00e1ssico da generosidade do Doutor. No final dos anos 90, atravessamos uma crise s\u00e9ria, quase fechamos as portas. Scliar, preocupado, acompanhou a \u201ccrise\u201d desde os piores momentos, at\u00e9 o final feliz. E nos ajudou muito mais do que ele imaginava. Pois o voto de confian\u00e7a que depositou em n\u00f3s, os livros novos que editamos naquele momento incerto, a sua ades\u00e3o irrestrita \u00e0 cole\u00e7\u00e3o de bolso, l\u00e1 em 1997, quando todos \u2013 autores, imprensa e livreiros \u2013 duvidavam que pudesse dar certo, foi fundamental para chegarmos at\u00e9 aqui. Hoje, a L&amp;PM tem a maior cole\u00e7\u00e3o de bolso do pa\u00eds e um lugar de destaque entre as grandes editoras brasileiras. O Doutor Scliar faz parte disso e n\u00f3s seremos gratos para sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ivan Pinheiro Machado Era o ano de 1977, a L&amp;PM Editores, literalmente, engatinhava. Est\u00e1vamos na Livraria Lima, na rua Borges de Medeiros em Porto Alegre, quando entrou o jovem escritor e m\u00e9dico Moacyr Scliar. 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