﻿{"id":5769,"date":"2011-02-08T13:10:58","date_gmt":"2011-02-08T15:10:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=5769"},"modified":"2011-02-08T12:13:15","modified_gmt":"2011-02-08T14:13:15","slug":"14-o-ballet-proibido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=5769","title":{"rendered":"14. &#8220;O Ballet proibido&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/ERA-UMA-VEZ-21.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-5770\" title=\"ERA UMA VEZ 2\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/ERA-UMA-VEZ-21-1024x122.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"53\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/ERA-UMA-VEZ-21-1024x122.jpg 1024w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/ERA-UMA-VEZ-21-300x35.jpg 300w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/ERA-UMA-VEZ-21.jpg 1121w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Por Ivan Pinheiro Machado*<\/em><\/p>\n<p>Quando eu era crian\u00e7a, l\u00e1 nos anos 60, meu pai falava em Get\u00falio Vargas, Estado Novo, e\u00a0para n\u00f3s parecia que eram coisas\u00a0passadas no per\u00edodo Paleol\u00edtico, h\u00e1 milhares de anos.\u00a0Ele falava como se as coisas tivessem acontecido&#8230; ontem. No entanto, menos de uma d\u00e9cada\u00a0nos separava do suic\u00eddio de Vargas e da ditadura do Estado Novo. Eu imagino que voc\u00ea, que \u00e9 jovem h\u00e1 menos tempo do que n\u00f3s, tenha esta mesma sensa\u00e7\u00e3o quando falo aqui neste blog sobre a ditadura militar. Perdoe-me, mas \u00e9 imposs\u00edvel falar sobre o come\u00e7o da L&amp;PM sem falar\u00a0da pr\u00e9-hist\u00f3ria, como por exemplo, na ditadura implantada em mar\u00e7o de 1964. Pois ela marcou nossa vida e nos perseguiu por mais de 10 anos, de 1974 quando foi fundada a editora at\u00e9 1985 com o fim do governo do General Figueiredo.<\/p>\n<p>As ditaduras alternam burrice e crueldade ou praticam as duas coisas ao mesmo tempo. N\u00f3s desafiamos a ditadura v\u00e1rias vezes. Claro que t\u00ednhamos medo, mas \u00e9ramos muito jovens e n\u00e3o med\u00edamos muito bem as consequ\u00eancias. E houve v\u00e1rias.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/ballet-proibido.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5771\" title=\"ballet proibido\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/ballet-proibido-193x300.jpg\" alt=\"\" width=\"193\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/ballet-proibido-193x300.jpg 193w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/02\/ballet-proibido.jpg 596w\" sizes=\"auto, (max-width: 193px) 100vw, 193px\" \/><\/a>Em 1976, publicamos um livro que revelava de forma quase did\u00e1tica a face burra e totalit\u00e1ria da ditadura, \u201cO Ballet Proibido\u201d, do ent\u00e3o senador pelo Rio Grande do Sul Paulo Brossard de Souza Pinto. Neste livro foi reproduzido o discurso do senador Brossard no plen\u00e1rio do Congresso, onde ele protestava contra a proibi\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o de uma apresenta\u00e7\u00e3o do Ballet Bolshoi pela TV Globo. O Bolshoi, a mais famosa companhia de ballet do mundo, completava 200 anos e encenaria \u201cRomeu e Julieta\u201d. Uma superprodu\u00e7\u00e3o liderada pela BBC de Londres, CBS americana e a Teleglob alem\u00e3 enviaria para 112 pa\u00edses o grande espet\u00e1culo protagonizado por 300 bailarinos. Pois a TV Globo anunciou\u00a0durante semanas o grande evento e, um dia antes, recebeu um comunicado da Censura Federal assinado por um coronel (assinatura ileg\u00edvel) proibindo terminantemente a transmiss\u00e3o do acontecimento, considerado \u201csubversivo\u201d.<\/p>\n<p>Para que voc\u00ea entenda a l\u00f3gica dos milicos: o Bolshoi era um ballet russo e a R\u00fassia fazia parte da ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, cujo regime era comunista; portanto era uma apresenta\u00e7\u00e3o comunista. O governo proibiu a TV Globo de transmitir e, pior, proibiu a TV Globo de divulgar que tinha sido proibida\u00a0a transmiss\u00e3o. Quando milhares de pessoas sentavam-se em frente a TV para assistir o melhor ballet do planeta, simplesmente, sem explica\u00e7\u00e3o nenhuma, entrou uma com\u00e9dia holywoodiana de segunda ou terceira categoria.<\/p>\n<p>Brossard ocupou a tribuna do Senado dias depois e incendiou o plen\u00e1rio com um discurso inflamado denunciando o fato pat\u00e9tico da censura. Pela primeira vez, o Brasil ficava sabendo que a ditadura havia proibido o ballet e proibido a TV de dizer que o ballet estava proibido. Numa passagem de seu discurso ele diz ironicamente:<\/p>\n<p>(&#8230;)<em>\u201cO Ballet Bolshoi, sabem os menos incultos \u00e9 uma respeit\u00e1vel e secular instrumenta\u00e7\u00e3o internacional de dan\u00e7a. \u00c9 t\u00e3o marxista quanto o seria Leon Tolstoi, e o germe da subvers\u00e3o comunista est\u00e1 presente nos compassos de sua dan\u00e7a como poderia estar vivo nas barbas do Czar Nicolau II. Sem medo de exagero, pode-se garantir que ele \u00e9 t\u00e3o sovi\u00e9tico, quanto Shakespeare \u00e9 ingl\u00eas. Quer dizer: trata-se de um patrim\u00f4nio cultural da humanidade que n\u00e3o pode ser aprisionado pelo realismo socialista lucakseano nem vai deixar de falar a linguagem universal da dan\u00e7a por vontade de\u00a0 uma pol\u00edtica, seja a nossa tropical, seja a temperada nas estepes da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u201d<\/em>(&#8230;)<\/p>\n<p>A L&amp;PM publicou este discurso, juntamente com outros igualmente irreverentes e cr\u00edticos do senador Brossard, menos de um m\u00eas depois de proferido. E quando foi aventada a hip\u00f3tese de aprender o livro, nos agarramos a um eufemismo legal. O discurso estava j\u00e1 oficializado nos anais do Senado da Rep\u00fablica, portanto seria um grande esc\u00e2ndalo proibir a manifesta\u00e7\u00e3o de um senador que j\u00e1 havia se tornado p\u00fablica por constar dos anais&#8230; Hoje \u00e9 quase um del\u00edrio imaginarmos que um livro de discursos seria a \u00fanica forma de contestar os atos de um governo. \u201cO Ballet Proibido\u201d tornou-se um cl\u00e1ssico, pois representa magnificamente este per\u00edodo em que n\u00f3s, editores, public\u00e1vamos livros como \u00fanico meio de criticar o poder. E este desafio \u00e0 trucul\u00eancia do governo transformou \u201cO Ballet Proibido\u201d em um Best-seller a ponto de encabe\u00e7ar por v\u00e1rias semanas a lista dos mais vendidos da revista <em>Veja<\/em>.<\/p>\n<p><em>*Toda ter\u00e7a-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata hist\u00f3rias que aconteceram em mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de L&amp;PM. Este \u00e9 o d\u00e9cimo\u00a0quarto post da S\u00e9rie &#8220;<\/em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/blog\/?cat=777\" target=\"_blank\"><em>Era uma vez&#8230; uma editora<\/em><\/a><em>&#8220;.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ivan Pinheiro Machado* Quando eu era crian\u00e7a, l\u00e1 nos anos 60, meu pai falava em Get\u00falio Vargas, Estado Novo, e\u00a0para n\u00f3s parecia que eram coisas\u00a0passadas no per\u00edodo Paleol\u00edtico, h\u00e1 milhares de anos.\u00a0Ele falava como se as coisas tivessem acontecido&#8230; ontem. 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