﻿{"id":4717,"date":"2010-12-14T14:48:04","date_gmt":"2010-12-14T16:48:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=4717"},"modified":"2014-08-25T10:57:29","modified_gmt":"2014-08-25T13:57:29","slug":"o-dia-em-que-quase-publicamos-o-livro-de-glauber-rocha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=4717","title":{"rendered":"6. O dia em que quase publicamos o livro de Glauber Rocha"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/ERA-UMA-VEZ-22.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-4719\" title=\"ERA UMA VEZ 2\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/ERA-UMA-VEZ-22-1024x122.jpg\" width=\"450\" height=\"53\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/ERA-UMA-VEZ-22-1024x122.jpg 1024w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/ERA-UMA-VEZ-22-300x35.jpg 300w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/ERA-UMA-VEZ-22.jpg 1121w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Por Ivan Pinheiro Machado*<\/em><\/p>\n<p>Certa vez, no inverno de 1977, bem no come\u00e7o da L&amp;PM, n\u00f3s recebemos uma carta estranha. O remetente assinava G. Rocha. O endere\u00e7o era Rua Borges de Medeiros, numero tal, Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro. Abri a carta. Naquela \u00e9poca, meros iniciantes, n\u00e3o era comum recebermos cartas. Era um texto denso, datilografado em duas p\u00e1ginas de papel of\u00edcio, espa\u00e7o um. A assinatura era de Glauber Rocha, o autor de \u201cDeus e o Diabo na Terra do Sol\u201d, \u201cTerra em transe\u201d, \u201cDrag\u00e3o da maldade contra o santo guerreiro\u201d entre outros cl\u00e1ssicos do cinema \u201cbrazyleyro\u201d \u2013 como ele gostava de escrever \u2013 e mundial. Glauber queria publicar a sua obra. Ele mencionava \u201cv\u00e1rios livros\u201d, e especialmente uma \u201cHist\u00f3ria do Cinema\u201d. Segundo ele escrevia na carta de junho de 1977:<em>\u201cminha Hist\u00f3ria do Cinema\u201d tem 1.000 p\u00e1ginas (&#8230;), \u00e9 um livro original porque eu revelo entrevistas in\u00e9ditas com cineastas do mundo todo e conto a Hist\u00f3ria do ponto de vista de um cineasta que viveu por dentro da cozinha. O livro trata do cinema em todos os lugares, do in\u00edcio do s\u00e9culo at\u00e9 hoje. Conto a verdadeira hist\u00f3ria do Cinema Novo, quinze anos de pol\u00edtica e cultura. N\u00e3o existe bibliografia de cinema que preste no Brasil<\/em>\u201d. Ele prosseguia propondo um acordo editorial prevendo adiantamento e uma percentagem de 10% sobre o pre\u00e7o de capa, assegurando a ele os direitos para o exterior. E encerrava assim: <em>\u201cN\u00e3o quero enviar originais pelo Correio. Mandem algu\u00e9m aqui, ou venham aqui. (&#8230;) As editoras tem que financiar os autores&#8230; Acontece que temos poucos autores modernos depois que morreram Erico Ver\u00edssimo, Guimar\u00e3es Rosa&#8230; Jorge Amado \u00e9 o \u00faltimo romancista popular&#8230; No entanto, nossa literatura \u00e9 uma crian\u00e7a, como nossa sociedade&#8230;\u201d . <\/em>Ele indicava um telefone. Liguei e atendeu uma voz feminina com um sotaque castelhano. Identifiquei-me, combinamos dia e hora para uma reuni\u00e3o e fui para o Rio. Por coincid\u00eancia, viajei com um amigo meu, o Nilo Lopumo, que acabou sendo testemunha do p\u00e9riplo de tr\u00eas visitas que cumprimos juntos a um apartamento em um edif\u00edcio de luxo na Lagoa Rodrigo de Freitas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.tempoglauber.com.br\/\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4720 alignleft\" title=\"Glauber escrevendo\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/Glauber-escrevendo.bmp\" width=\"284\" height=\"182\" \/><\/a><strong>O cl\u00edmax e o anticlimax &#8211; <\/strong>Ao sair do elevador, sentia-se um cheiro acre de \u201ccanabis\u201d por todo o andar. Indo atr\u00e1s do cheiro, chegava-se ao apartamento 501, emprestado por um amigo psiquiatra a Glauber Rocha e sua namorada, uma deslumbrante loura colombiana. Quando entramos no bel\u00edssimo ap\u00ea com vista para a Lagoa, o grande Glauber come\u00e7ou um longo, brilhante e exaltado mon\u00f3logo sobre sua obra como escritor e o potencial cinematogr\u00e1fico que a hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul possu\u00eda. Ele sugeria uma filmagem da Guerra dos Farrapos, com Marlon Brando no papel de Bento Gon\u00e7alves. \u201cEu ligo pra ele e fa\u00e7o o convite. Ele me conhece. Este tipo de astro topa trabalhar num filme por uma participa\u00e7\u00e3o na bilheteria\u201d. E sugeria que Anita Garibaldi fosse a Sandra Braga que, segundo ele, era perfeita para o papel, \u201cela nasceu para ser a Anita Garibaldi\u201d. Por fim, nos mostrou dois calhama\u00e7os datilografados com mais ou menos 500 p\u00e1ginas cada um. O primeiro era uma colet\u00e2nea de \u201censaios e observa\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas\u201d e o segundo calhama\u00e7o era um \u201cromance \u00e9pico\u201d que se chamaria \u201cDjango\u201d, baseado na vida de Jango Goulart, o presidente deposto pelo golpe de 1964. \u201cDepois eu mostro a <em>Hist\u00f3ria do Cinema<\/em>\u201d. Eu e o Nilo, vindos l\u00e1 do extremo do Brasil, observ\u00e1vamos perplexos aquela explos\u00e3o verborr\u00e1gica. Ele tinha uma flu\u00eancia impressionante. Falava sobre o momento de abrandamento da ditadura, da genialidade de Golbery do Couto e Silva, o Ministro da Casa Civil, que seria o \u201cgrande art\u00edfice do desmonte do regime\u201d, era \u201co G\u00eanio da ra\u00e7a\u201d, frase que ele repetia sempre quando se referia ao Golbery e que j\u00e1 ficou c\u00e9lebre. Depois de quatro horas de discursos, fomos embora. Combinamos voltar no outro dia para resolver os detalhes, pois ele me entregaria os originais de \u201cDjango\u201d, dos ensaios &amp; filosofia que eu n\u00e3o consigo lembrar o t\u00edtulo e da tal \u201cHist\u00f3ria do Cinema\u201d de 1.000 p\u00e1ginas. Voltamos conforme o combinado. Foi mais uma sess\u00e3o de discursos brilhantes. N\u00e3o vimos mais original nenhum, ele s\u00f3 falava, falava e, de tempos em tempos, fazia uma longa pausa arfando, exausto. Descansava um pouco e voltava a falar, falar. A conversa acabou no come\u00e7o da noite porque sua mulher lembrou que eles tinham que prestigiar a pr\u00e9-estr\u00e9ia de \u201cDona Flor e seus dois maridos\u201d, o romance de Jorge Amado, filmado por Bruno Barreto. Ficamos de voltar no outro dia \u00e0s 15 horas para pegar o material. Conforme o combinado, cheguei \u00e0s 15 horas ao ap\u00ea da Lagoa. Apertei a campainha. A loura atendeu a porta e sem me convidar para entrar disse constrangida: \u201co Glauber n\u00e3o pode atender, mas manda dizer que desistiu de publicar os seus livros&#8230;\u201d. E encerrou o assunto, fechando a porta. Eu fiquei ali parado por uns dois minutos tentando absorver aquele desfecho surreal. \u00c0 noite voltamos para Porto Alegre. Sem livro nenhum, mas com esta incr\u00edvel hist\u00f3ria para contar&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=4883\" target=\"_blank\"><strong><em>Para ler o pr\u00f3ximo post da s\u00e9rie &#8220;Era uma vez uma editora&#8230;&#8221; clique aqui.<\/em><\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ivan Pinheiro Machado* Certa vez, no inverno de 1977, bem no come\u00e7o da L&amp;PM, n\u00f3s recebemos uma carta estranha. O remetente assinava G. Rocha. O endere\u00e7o era Rua Borges de Medeiros, numero tal, Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro. Abri a carta. 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