﻿{"id":4656,"date":"2010-12-10T14:07:43","date_gmt":"2010-12-10T16:07:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=4656"},"modified":"2010-12-10T14:11:06","modified_gmt":"2010-12-10T16:11:06","slug":"lendo-walden-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=4656","title":{"rendered":"Lendo Walden"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Denise Bottmann*<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dizem que Thoreau fez tr\u00eas coisas\u00a0quando morava em <\/em><a href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=527090&amp;ID=805251\" target=\"_blank\">Walden<\/a><em>: escreveu\u00a0Uma semana nos rios Concord e Merrimack, foi preso por n\u00e3o ter pagado o imposto do munic\u00edpio e escreveu muitas notas que vieram a fazer parte de sua obra mais famosa,\u00a0Walden.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e1 comentei\u00a0que a leitura de\u00a0Walden \u00e0s vezes pode ser\u00a0opaca, embora todas\u00a0as pistas estejam l\u00e1.\u00a0\u00c9 o caso de\u00a0uma passagem bel\u00edssima, onde se mesclam\u00a0ironias,\u00a0coloquialismos, met\u00e1foras, repeti\u00e7\u00f5es, jogos de palavras e outras figuras de estilo, misturam-se\u00a0planos\u00a0temporais,\u00a0fazem-se digress\u00f5es de car\u00e1ter geral e apenas insinua-se o sentido:<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">N\u00e3o faz muito tempo, um \u00edndio andarilho foi vender cestos na casa de um famoso advogado de minha vizinhan\u00e7a. \u201cQuerem comprar cestos?\u201d, perguntou ele. \u201cN\u00e3o, n\u00e3o queremos\u201d, foi a resposta. \u201cO qu\u00ea!\u201d, exclamou o \u00edndio ao sair pelo port\u00e3o, \u201cquerem nos matar de fome?\u201d Tendo visto seus industriosos vizinhos brancos t\u00e3o bem de vida \u2013 que bastava o advogado tecer argumentos e, por algum passe de m\u00e1gica, logo se seguiam a riqueza e a posi\u00e7\u00e3o \u2013, ele falou consigo mesmo: vou montar um neg\u00f3cio; vou tecer cestos; \u00e9 uma coisa que sei fazer. Pensando que, feitos os cestos, estava feita sua parte, agora caberia ao homem branco compr\u00e1-los. Ele n\u00e3o tinha descoberto que\u00a0precisava fazer com que valesse a pena, para o outro, compr\u00e1-los, ou pelo menos faz\u00ea-lo pensar que valia, ou fazer alguma outra coisa que, para ele, valesse a pena comprar. Eu tamb\u00e9m tinha tecido uma esp\u00e9cie de cesto de tessitura delicada, mas n\u00e3o tinha feito com que valesse a pena, para ningu\u00e9m, compr\u00e1-los. Mas nem por isso, em meu caso, deixei de pensar que valia a pena tec\u00ea-los e, em vez de estudar como fazer com que valesse a pena para os outros comprar meus cestos, preferi estudar como evitar a necessidade de vend\u00ea-los. A vida que os homens louvam e consideram bem-sucedida \u00e9 apenas um tipo de vida. Por que havemos de exagerar s\u00f3 um tipo de vida em detrimento dos demais?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Vendo que meus concidad\u00e3os n\u00e3o pareciam dispostos a me oferecer nenhuma sala no tribunal de justi\u00e7a ou nenhum curato ou sinecura em qualquer outro lugar, mas que eu teria de me arranjar sozinho, passei a me dedicar em car\u00e1ter mais exclusivo do que nunca \u00e0s matas, onde eu era mais conhecido. Decidi montar logo meu neg\u00f3cio, em vez de esperar at\u00e9 conseguir o capital habitual, usando os magros recursos que eu j\u00e1 tinha. Meu objetivo ao ir para o lago Walden n\u00e3o era viver barato nem viver caro, e sim dar andamento a alguns neg\u00f3cios privados com o m\u00ednimo poss\u00edvel de obst\u00e1culos; mais do que triste, parecia-me tolo ter de adi\u00e1-los somente por falta de um pouco de siso, um pouco de tino empresarial e comercial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A que &#8220;neg\u00f3cios privados&#8221;\u00a0Thoreau queria dar andamento ao se mudar para Walden? E que &#8220;cesto de tessitura delicada&#8221;\u00a0seria aquele para o\u00a0qual\u00a0n\u00e3o conseguiu\u00a0compradores? <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por muitos anos Thoreau alimentou a vontade de ir morar sozinho na mata, e v\u00e1rios elementos se compuseram para que\u00a0decidisse ir para Walden.\u00a0A oportunidade prop\u00edcia surgiu quando Emerson comprou uma propriedade no local.\u00a0O poeta Ellery Channing, conhecendo os anseios do amigo Thoreau, sugeriu que se instalasse l\u00e1. Thoreau combinou com Emerson, e assim foi.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas uma das ideias que por anos vinham ocupando\u00a0seu esp\u00edrito era fazer uma homenagem\u00a0\u00e0 mem\u00f3ria ao irm\u00e3o, falecido em idade prematura em 1842, e escrever um livro narrando a excurs\u00e3o que ambos tinham feito em 1839, percorrendo os rios Concord e Merrimack. Morando em Concord, n\u00e3o tinha o vagar e a liberdade mental de que precisava para escrever a obra. Estes eram os &#8220;neg\u00f3cios privados&#8221; (ou assuntos particulares) a que queria dar andamento &#8220;com o m\u00ednimo de obst\u00e1culos&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><em>Tendo efetivamente escrito <\/em>A Week on the Concord and Merrimack Rivers <em>durante sua perman\u00eancia em Walden, o livro foi publicado em 1849. Nos anos em que refletiu sobre a experi\u00eancia\u00a0em <\/em>Walden\u00a0<em>e reelaborou\u00a0essas reflex\u00f5es ao longo de cinco a sete vers\u00f5es diferentes de\u00a0Walden (que viria a ser publicado em 1854), Thoreau\u00a0p\u00f4de conhecer a fortuna do tributo que fizera ao irm\u00e3o: um fracasso de vendas &#8211; duzentos exemplares vendidos em quatro anos&#8230; Diga-se de passagem que apenas em d\u00e9cadas recentes tem-se reconhecido a fin\u00edssima lavra de <\/em>A Week<em>: at\u00e9\u00a0ent\u00e3o, era tida como obra canhestra e desconjuntada.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/_zVPImTviU9s\/TQGAfTvz7hI\/AAAAAAAAEjU\/D2ZuuPG2BlU\/s1600\/a+week.jpg\"><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/s7d2.scene7.com\/is\/image\/Sothebys\/N08698-432-lr-1?$new_main$\" alt=\"\" width=\"520\" height=\"520\" \/><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Assim se entende qual era o cesto de delicada tessitura que ningu\u00e9m se interessara em comprar&#8230; Notem-se os movimentos temporais:\u00a0o par\u00e1grafo\u00a0inicial \u00e9 uma reflex\u00e3o posterior ao relato apresentado no par\u00e1grafo seguinte; dentro do inicial, h\u00e1\u00a0tamb\u00e9m uma sutil circunvolu\u00e7\u00e3o:\u00a0o epis\u00f3dio do \u00edndio funciona como uma esp\u00e9cie de justificativa\u00a0a posteriori de sua decis\u00e3o\u00a0em\u00a0adotar uma forma de vida\u00a0que lhe permitisse tecer seus textos\/cestos em paz,\u00a0sem a prem\u00eancia de vend\u00ea-los. Vivendo em <\/em>Walden<em>, p\u00f4de construir uma narrativa\u00a0com trama de singular e complexo lirismo, que demandaria mais de cem anos para vir a ser devidamente reavaliada.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>De passagem, entende-se tamb\u00e9m o sentido, de outra forma obscuro,\u00a0do adjetivo\u00a0triste: &#8220;mais do que\u00a0<strong>triste<\/strong>, seria tolo&#8221;\u00a0adiar seus planos de construir o memorial ao irm\u00e3o, se fosse apenas\u00a0por quest\u00f5es de fundo\u00a0pragm\u00e1tico.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Outra caracter\u00edstica de <\/em>Walden<em>, tamb\u00e9m ilustrada nos trechos acima:\u00a0as refer\u00eancias, em sua imensa maioria, s\u00e3o concretas. O epis\u00f3dio do \u00edndio \u00e9 aut\u00eantico,\u00a0e Thoreau chegou a registrar em seu di\u00e1rio\u00a0o nome do advogado (Samuel Hoar, figura muito conhecida na cidade). <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> (Uma boa\u00a0fonte de consulta \u00e9 a bela edi\u00e7\u00e3o anotada de <\/em>Walden <em>com introdu\u00e7\u00e3o e notas de Walter Harding, Houghton Mifflin, 1995. Tamb\u00e9m interessante \u00e9\u00a0<a href=\"http:\/\/thoreau.eserver.org\/default.html\" target=\"_blank\">The Thoreau Reader,<\/a> site\u00a0com suas obras anotadas. <\/em><a style=\"font-style: italic;\" href=\"http:\/\/www.sothebys.com\/app\/live\/lot\/LotDetail.jsp?lot_id=159605271\">Ilustra\u00e7\u00e3o<\/a><em>: verso de p\u00e1gina da primeira edi\u00e7\u00e3o de <\/em>A Week<em>, em exemplar pessoal de Thoreau. Cita\u00e7\u00e3o dos trechos: <\/em>Walden<em>, tradu\u00e7\u00e3o minha, L&amp;PM, 2010, pp. 31-32. Para o original,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.gutenberg.org\/files\/205\/205-h\/205-h.htm\" target=\"_blank\">ver aqui.<\/a>)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>*Denise Bottmann \u00e9 tradutora de Walden, publicado pela L&amp;PM. Semanalmente Denise escreve no seu blog <a href=\"http:\/\/naogostodeplagio.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">N\u00e3o gosto de pl\u00e1gio <\/a><\/em><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Georgia, serif; line-height: 20px; color: #333333;\"><span style=\"font-size: x-small;\"><br \/>\n<\/span><\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Denise Bottmann* Dizem que Thoreau fez tr\u00eas coisas\u00a0quando morava em Walden: escreveu\u00a0Uma semana nos rios Concord e Merrimack, foi preso por n\u00e3o ter pagado o imposto do munic\u00edpio e escreveu muitas notas que vieram a fazer parte de sua obra mais famosa,\u00a0Walden. 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