﻿{"id":4264,"date":"2010-11-24T16:43:54","date_gmt":"2010-11-24T18:43:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=4264"},"modified":"2014-08-25T10:52:25","modified_gmt":"2014-08-25T13:52:25","slug":"a-ditadura-que-odiava-os-livros-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=4264","title":{"rendered":"3. A ditadura que odiava os livros &#8211; parte I"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/ERA-UMA-VEZ-22.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-4268\" title=\"ERA UMA VEZ 2\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/ERA-UMA-VEZ-22-1024x122.jpg\" width=\"450\" height=\"53\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/ERA-UMA-VEZ-22-1024x122.jpg 1024w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/ERA-UMA-VEZ-22-300x35.jpg 300w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/ERA-UMA-VEZ-22.jpg 1121w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Por Ivan Pinheiro Machado*<\/em><\/p>\n<p>Foi em setembro de 1978 que a \u00faltima apreens\u00e3o de um livro por motivos pol\u00edticos aconteceu no Brasil. O t\u00edtulo da obra em quest\u00e3o: \u201cMem\u00f3rias: a verdade de um revolucion\u00e1rio\u201d. Seu autor: General Olympio Mour\u00e3o Filho. Sua editora: a L&amp;PM. Mesmo que estiv\u00e9ssemos no in\u00edcio de uma \u201cabertura\u201d \u2013 que mais parecia uma fresta de redemocratiza\u00e7\u00e3o, a censura insistiu em bater novamente \u00e0 nossa porta. O general Mour\u00e3o Filho havia sido o chefe das tropas que insurgiram em 31 de mar\u00e7o de 1964, derrubando Jango e dando in\u00edcio \u00e0 ditadura militar. Estabelecido o governo golpista, Mour\u00e3o acabou sendo preterido na hora da escolha no Presidente da Rep\u00fablica. Primeiro, em detrimento do General Castelo Branco e, depois, do General Costa e Silva. A partir de ent\u00e3o, o General Mour\u00e3o deixou-se corroer pelo sentimento de injusti\u00e7a at\u00e9 morrer amargurado em 1972. No leito de morte, legou a um amigo, o historiador H\u00e9lio Silva, um pacote com os originais das suas mem\u00f3rias, obtendo de H\u00e9lio a promessa de que o livro seria publicado. Louco de curiosidade com o que tinha nas m\u00e3os, assim que chegou em seu amplo apartamento na Avenida Atl\u00e2ntica, H\u00e9lio abriu o pacote e come\u00e7ou a ler a c\u00f3pia datilografada em papel de seda, com tipos azulados do carbono. Ao final de algumas horas, ele j\u00e1 havia vencido 300 das 500 p\u00e1ginas do original. Estava pasmo. Tinha consigo uma metralhadora girat\u00f3ria cujos alvos eram os poderosos ex-presidentes Castelo Branco, Costa e Silva e M\u00e9dici. Engoliu em seco ao lembrar do juramento ao General moribundo. Meses depois da morte de Mour\u00e3o, H\u00e9lio havia mostrado os originais a todos os editores importantes do Rio de Janeiro e, diante das recusas em s\u00e9rie, concluiu que s\u00f3 um louco seria capaz de publicar aquilo. Mas n\u00e3o desistiu. Mais do que obstinado, H\u00e9lio era um cat\u00f3lico convicto e, para ele, juramento era algo divino.<\/p>\n<p>Corria o ano de 1977. Meu pai, Antonio Pinheiro Machado Netto, era dono de um col\u00e9gio, o Educand\u00e1rio Cec\u00edlia Meirelles, que inaugurou em Porto Alegre a pr\u00e1tica de trazer grandes personagens da cultura brasileira para confer\u00eancias pagas. Lembro de D\u00e9cio Pignatari, Barbosa Lima Sobrinho, Antonio Callado, Helio Pelegrino e muitos outros, entre os quais H\u00e9lio Silva, considerado na \u00e9poca um dos principais historiadores brasileiros do per\u00edodo republicano. Ele falou, foi brilhante e, no final de sua confer\u00eancia, foi apresentado a mim e ao Lima pelo meu pai. Ali, ficou sabendo que t\u00ednhamos uma editora e interessou-se. Era um dos grandes autores nacionais, editado pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, a mais importante editora do pa\u00eds na \u00e9poca. Seu \u201cCiclo de Vargas\u201d, em 16 volumes de mais de 500 p\u00e1ginas cada, um \u00e9 uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria para quem quer conhecer a Hist\u00f3ria recente do Brasil. Pois bem. H\u00e9lio olhou para n\u00f3s e perguntou sem rodeios:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas teriam coragem de publicar um material altamente explosivo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cComo assim?\u201d perguntou o Lima.<\/p>\n<p>\u201cAs mem\u00f3rias do homem que iniciou a revolu\u00e7\u00e3o de 1964\u201d.<\/p>\n<p>Eu ri e disse: \u201cDesculpe professor, mas n\u00f3s n\u00e3o somos uma editora de direita&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Foi a vez dele rir: \u201cVoc\u00eas nem imaginam o que ele diz dos milicos. Ele brigou com todos os generais. \u00c9 um livro important\u00edssimo, pois h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es absolutamente in\u00e9ditas sobre o golpe de 64\u201d.<\/p>\n<p>Fez uma pausa e acrescentou: \u201cPor uma quest\u00e3o de honestidade, devo dizer a voc\u00eas que \u00e9 um material perigoso, pois vai incomodar muita gente. Ele esculhamba os generais e ridiculariza o golpe.\u201d<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos espantados com a revela\u00e7\u00e3o. \u00c9ramos muito jovens, iniciantes e querendo nos firmar nacionalmente como editores. Esta poderia ser uma boa chance. Topamos na hora. O acordo foi no jantar, com brinde e tudo. Est\u00e1vamos muito excitados com a possibilidade de editar o livro. Meses depois, estar\u00edamos quase arrependidos e tecnicamente quebrados&#8230; <em>(continua na pr\u00f3xima semana)<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_4267\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Iva-e-Lima-em-19781.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4267\" class=\"size-large wp-image-4267\" title=\"Iva e Lima em 1978\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Iva-e-Lima-em-19781-1024x725.jpg\" width=\"450\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Iva-e-Lima-em-19781-1024x725.jpg 1024w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Iva-e-Lima-em-19781-300x212.jpg 300w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/Iva-e-Lima-em-19781.jpg 1202w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4267\" class=\"wp-caption-text\">Ivan Pinheiro Machado e Paulo Lima com o livro de H\u00e9lio Silva nas m\u00e3os<\/p><\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=4394\" target=\"_blank\"><strong><em>Para ler o pr\u00f3ximo post da S\u00e9rie &#8220;Era uma vez uma editora&#8230;&#8221; clique aqui.<\/em><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ivan Pinheiro Machado* Foi em setembro de 1978 que a \u00faltima apreens\u00e3o de um livro por motivos pol\u00edticos aconteceu no Brasil. 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