﻿{"id":29051,"date":"2021-03-03T09:29:47","date_gmt":"2021-03-03T12:29:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=29051"},"modified":"2021-03-03T09:29:47","modified_gmt":"2021-03-03T12:29:47","slug":"denise-bottmann-e-sua-traducao-de-a-fazenda-dos-animais-de-george-orwell","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=29051","title":{"rendered":"Denise Bottmann e sua tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;A fazenda dos animais&#8221;, de George Orwell"},"content":{"rendered":"<p>Denise Bottmann \u00e9 uma respeitada e premiada tradutora que h\u00e1 muitos anos trabalha com a L&amp;PM Editores. Pedimos que ela escrevesse um texto contando sobre sua tradu\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>A fazenda dos animais<\/em>, de George Orwell que, por um longo per\u00edodo, foi editado no Brasil com o t\u00edtulo de <em>A<\/em> r<em>evolu\u00e7\u00e3o dos bichos. <\/em>Por mais que alguns leitores tenham se apegado a esse t\u00edtulo, Denise explica sua op\u00e7\u00e3o de seguir o original que \u00e9 publicado na L&amp;PM nos<a href=\"https:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..%2Flivros%2Flayout_buscaprodutos.asp&amp;FiltroStr=fazenda&amp;FiltroCampo=Titulo&amp;I1.x=0&amp;I1.y=0\" target=\"_blank\"> formatos convencional e pocket<\/a>.<\/p>\n<blockquote><p><strong>A fazenda dos animais\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Denise Bottmann<\/em><\/p>\n<p>Creio que uma das \u00e1reas a que melhor se aplica o sapient\u00edssimo dito \u201cNingu\u00e9m \u00e9 dono da verdade\u201d \u00e9, provavelmente, a tradu\u00e7\u00e3o. E a infind\u00e1vel variedade de seus frutos \u00e9 o que faz da tradu\u00e7\u00e3o algo t\u00e3o interessante e fascinante.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que Animal Farm, a f\u00e1bula escrita por George Orwell nos idos dos anos 40, pode ser lida em Portugal e no Brasil sob diferentes t\u00edtulos: A quinta dos animais, O porco triunfante, O triunfo dos porcos, A revolu\u00e7\u00e3o dos bichos e, last but not least, A fazenda dos animais.<\/p>\n<p>De meu ponto de vista, um elemento \u00fatil para me nortear no oceano relativista em que n\u00f3s tradutorxs podemos navegar \u2013 e talvez, ou n\u00e3o, nos afogar \u2013 \u00e9 o original. N\u00e3o ou\u00e7o mentalmente nenhuma voz clamando para que me afaste de um claro e singelo Animal Farm: A fazenda dos animais, sem maiores problemas nem grandes d\u00favidas. A\u00ed algu\u00e9m pode objetar: \u201cfazenda\u201d? Melhor \u201cs\u00edtio\u201d ou \u201cgranja\u201d ou \u201cherdade\u201d&#8230; Tenho l\u00e1 minhas raz\u00f5es para preferir \u201cfazenda\u201d \u2013 mas que seja, n\u00e3o vou ficar brigando por causa disso.<\/p>\n<p>At\u00e9 a\u00ed, \u00e9 simples. Mas, atendo-nos ao t\u00edtulo mais usado no Brasil \u2013 A revolu\u00e7\u00e3o dos bichos \u2013, fico um pouco confusa, em primeiro lugar, com \u201cbichos\u201d. Que bichos, gente? Pois, quanto a isso, a grande quest\u00e3o \u00e9 que Orwell estabelece muito cuidadosamente, muito meticulosamente, muito sistematicamente, uma divis\u00e3o do reino animal dentro da obra. E a estabelece adotando uma terminologia muito espec\u00edfica e constante ao longo de toda a sua f\u00e1bula.<\/p>\n<p>Vejamos, pois. Por animals ele designa \u00fanica e exclusivamente o que chamamos de animais dom\u00e9sticos, de trabalho, cria\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o: vacas, cavalos, cabras, ovelhas, porcos, galinhas, gansos, pombos. Aram as terras, puxam carro\u00e7as, pisam o trigo, fornecem ovos, servem de reprodutores e assim por diante. Note-se \u2013 e isso \u00e9 bonitinho \u2013 que tamb\u00e9m h\u00e1 entre eles uma gata: ela vive fugindo ao trabalho, mas os outros animais n\u00e3o se zangam com sua mandriice porque, quando aparece depois das jornadas de trabalho, \u00e9 sempre muito meiga, carinhosa e afetiva. Ou seja, entre os animais dom\u00e9sticos inclui-se tamb\u00e9m o que chamar\u00edamos de animal de estima\u00e7\u00e3o (n\u00e3o de trabalho, cria\u00e7\u00e3o etc.). Al\u00e9m da gata, h\u00e1 os cachorros, tamb\u00e9m inclu\u00eddos entre eles na fun\u00e7\u00e3o de c\u00e3es de guarda, de pastoreio e mesmo de ca\u00e7a. Esses s\u00e3o os animals orwellianos.<\/p>\n<p>E os outros? Os ratos, os coelhos do mato, os pardais? Orwell nunca, nunca os trata como animals: s\u00e3o wild creatures, n\u00e3o dom\u00e9sticos e sim silvestres. Ali\u00e1s, \u00e9 muito interessante que, depois de expulsos os homens e instaurado o novo regime \u2013 animal \u2013 na fazenda, um dos l\u00edderes, o porco Bola de Neve, cria \u201co Comit\u00ea de Reeduca\u00e7\u00e3o dos Camaradas Silvestres (o objetivo desse comit\u00ea era domesticar os ratos e os coelhos)\u201d, para integrar as wild creatures \u00e0 sociedade animal \u2013 que n\u00e3o tenha dado muito certo, s\u00e3o outros quinhentos.<\/p>\n<p>E, por fim, temos beasts: aqui, sim, eu diria \u201cbichos\u201d. Com o termo beasts, Orwell abarca a totalidade dos seres animais, dom\u00e9sticos e silvestres. Da\u00ed a import\u00e2ncia da can\u00e7\u00e3o Beasts of England, que se torna por algum tempo o hino da nova sociedade animal: todos os seres animais, os dom\u00e9sticos e os silvestres, nele se congregam. Ali\u00e1s, logo no come\u00e7o, quando o Maioral come\u00e7ava a organizar os animais da fazenda, havia at\u00e9 algumas d\u00favidas se os bichos do mato, as criaturas silvestres, seriam considerados \u201ccamaradas\u201d dos animais dom\u00e9sticos. \u201cOs bichos do mato, como os ratos e os coelhos, s\u00e3o amigos ou inimigos nossos? Vamos p\u00f4r em vota\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7o a seguinte pergunta \u00e0 assembleia: os ratos s\u00e3o camaradas?\u201d. Sim, foram considerados camaradas quase por unanimidade (e vale notar que apenas os cachorros votaram contra: afinal gostavam de perseguir os ratos e acompanhavam os homens na ca\u00e7a \u00e0s lebres).<\/p>\n<p>Bem, a quest\u00e3o central \u00e9 que animals, wild creatures e beasts designam coisas diferentes, de abrang\u00eancia e interrela\u00e7\u00f5es bem espec\u00edficas. Posso em s\u00e3 consci\u00eancia tratar indiscriminadamente os termos? Falar em \u201cbichos\u201d para me referir especificamente aos animals? Ou, inversamente, falar em \u201canimais\u201d para me referir especificamente \u00e0s wild creatures? A meu ver, creio que n\u00e3o. Se Orwell fez assim, tinha l\u00e1 suas raz\u00f5es para isso \u2013 as quais, ali\u00e1s, ficam muito claras durante a leitura do texto. Assim, n\u00e3o entendo como eu poderia falar em Fazenda dos bichos ou, ainda menos, em Revolu\u00e7\u00e3o dos bichos. Repisando, n\u00e3o foram as beasts que se rebelaram, foram apenas os animals.<\/p>\n<p>E os animais n\u00e3o fazem uma revolu\u00e7\u00e3o: os animais se rebelam, se levantam numa rebeli\u00e3o. N\u00e3o t\u00eam qualquer programa revolucion\u00e1rio, a n\u00e3o ser aspira\u00e7\u00f5es de tipo cooperativista e autogestion\u00e1rio de longo prazo. Mobilizam-se por insatisfa\u00e7\u00e3o, rebelam-se contra a opress\u00e3o: que essa rebeli\u00e3o coletiva depois resulte numa nova situa\u00e7\u00e3o, cujo comando vir\u00e1 a se concentrar progressivamente num n\u00famero cada vez mais restrito de animais, s\u00e3o outros quinhentos. D\u00e1-se a rebeli\u00e3o, mas n\u00e3o se implanta concretamente qualquer tipo de coisa que se assemelhe \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es que acompanhavam a rebeli\u00e3o: e \u00e9 esse \u00e9 o drama da coisa.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, \u00e9 o papel fundamental dessa mobiliza\u00e7\u00e3o pessoal contra a opress\u00e3o que Orwell deixa t\u00e3o claro em rela\u00e7\u00e3o a si mesmo, no famoso pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o ucraniana: \u201cTornei-me pr\u00f3-socialista mais por horror \u00e0 opress\u00e3o e ao descaso a que estava submetida a parcela mais pobre dos oper\u00e1rios industriais do que por qualquer admira\u00e7\u00e3o te\u00f3rica por uma sociedade planejada\u201d. \u00c9 esse elemento subjetivo, a profunda insatisfa\u00e7\u00e3o com o status quo, amparado em outro elemento subjetivo, o sonho com um mundo melhor, que leva os animais da Fazenda do Solar a se erguerem contra a situa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o uma ades\u00e3o a um projeto revolucion\u00e1rio pr\u00e9-elaborado. N\u00e3o \u00e0 toa, em momento algum encontramos o termo revolution em Animal Farm; \u00e9 sempre, \u00fanica e exclusivamente, rebellion. A \u00fanica vez em que encontramos algo similar a revolution \u00e9 um derivado: o adjetivo revolutionary, tratado como algo descabido, quando o porco Napole\u00e3o se re\u00fane com um grupo de fazendeiros humanos e declara, em discurso indireto citado: \u201cPor muito tempo circularam rumores \u2013 divulgados &#8230; por algum inimigo mal\u00e9volo \u2013 de que havia algo de subversivo e at\u00e9 de revolucion\u00e1rio na posi\u00e7\u00e3o dele e dos seus colegas. &#8230; Nada podia estar mais distante da verdade!\u201d.<\/p>\n<p>Em suma, em tradu\u00e7\u00e3o pode-se fazer praticamente qualquer coisa. O que nos d\u00e1 b\u00fassola, guia, norte, \u00e9 o texto original. Nada, por\u00e9m, obriga que o tomemos como b\u00fassola, guia ou norte. Vai de cada um. De minha parte, prefiro me ancorar no autor. E viva A fazenda dos animais!<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_29052\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FAZENDA-DOS-ANIMAIS-CAPA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-29052\" class=\"size-large wp-image-29052\" alt=\"&quot;A fazenda dos animais&quot; \u00e9 publicado na L&amp;PM Editores em formatos convencional e pocket com tradu\u00e7\u00e3o de Denise Bottmann\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FAZENDA-DOS-ANIMAIS-CAPA-683x1024.jpg\" width=\"450\" height=\"674\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FAZENDA-DOS-ANIMAIS-CAPA-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FAZENDA-DOS-ANIMAIS-CAPA-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/FAZENDA-DOS-ANIMAIS-CAPA.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-29052\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A fazenda dos animais&#8221; \u00e9 publicado na L&amp;PM Editores em formatos convencional e pocket com tradu\u00e7\u00e3o de Denise Bottmann<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Denise Bottmann \u00e9 uma respeitada e premiada tradutora que h\u00e1 muitos anos trabalha com a L&amp;PM Editores. 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