﻿{"id":28690,"date":"2019-04-16T17:19:50","date_gmt":"2019-04-16T20:19:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=28690"},"modified":"2019-04-16T17:19:50","modified_gmt":"2019-04-16T20:19:50","slug":"voce-precisa-conhecer-a-poeta-russa-anna-akhmatova","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=28690","title":{"rendered":"Voc\u00ea precisa conhecer a poeta russa Anna Akhm\u00e1tova"},"content":{"rendered":"<p>Na maioria das vezes, quando se fala em literatura russa, os nomes que v\u00eam \u00e0 mente costumam ser sempre os mesmos e, na maioria das vezes, masculinos. Mas se o nome de Anna Akhm\u00e1tova quase nunca \u00e9 pronunciado na lista de not\u00e1veis, isso se deve n\u00e3o por falta de m\u00e9rito, mas ao fato de ainda ser pouco lida fora da R\u00fassia. Perseguida por St\u00e1lin, a poeta merece (e muito!) ser descoberta pelos leitores como mostra a \u00f3tima coluna de Gustavo Pacheco na Revista \u00c9poca online. <a href=\"https:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?FiltroStr=anna+akhmatova&amp;FiltroCampo=ALL&amp;I1.x=0&amp;I1.y=0&amp;Template=..%2Flivros%2Flayout_buscaprodutos.asp\" target=\"_blank\">Os poemas de Akhm\u00e1tova, com tradu\u00e7\u00e3o de Lauro Machado Coelho, h\u00e1 anos s\u00e3o publicados pela L&amp;PM Editores em diferentes edi\u00e7\u00f5es<\/a>.<\/p>\n<div id=\"attachment_28691\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/anna-ak.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-28691\" class=\"size-large wp-image-28691\" alt=\"Anna Akhm\u00e1tova merece ser lida\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/anna-ak-665x1024.jpg\" width=\"450\" height=\"692\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/anna-ak-665x1024.jpg 665w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/anna-ak.jpg 1535w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-28691\" class=\"wp-caption-text\">Anna Akhm\u00e1tova merece ser lida<\/p><\/div>\n<blockquote><p><strong>ANNA AKHM\u00c1TOVA E O POEMA DE UM MILH\u00c3O DE GRITOS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/epoca.globo.com\/anna-akhmatova-o-poema-de-um-milhao-de-gritos-23601786\" target=\"_blank\"><i>Por Gustavo Pacheco &#8211; Revista \u00c9poca &#8211; 16 de abril de 2019<\/i><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 uma manh\u00e3 de inverno na cidade que um dia voltar\u00e1 a se chamar S\u00e3o Petersburgo, mas neste momento se chama Leningrado. Em frente \u00e0 pris\u00e3o de Kresty, h\u00e1 uma fila com centenas de mulheres encasacadas que carregam embrulhos e cartas para seus maridos, pais e filhos presos pela pol\u00edcia pol\u00edtica de St\u00e1lin. As portas da pris\u00e3o est\u00e3o fechadas e ningu\u00e9m vem falar com elas, mas todos os dias elas voltam, \u00e0 espera de alguma not\u00edcia, algum sinal de vida.<\/p>\n<p>\u00c9 ent\u00e3o que uma mulher de l\u00e1bios l\u00edvidos se aproxima da poeta Anna Akhm\u00e1tova, que est\u00e1 na mesma fila, e lhe pergunta, sussurrando:<\/p>\n<p>&#8211; E isso, a senhora pode descrever?<\/p>\n<p>A poeta responde:<\/p>\n<p>&#8211; Posso.<\/p>\n<p>Anos depois, ela contaria assim a rea\u00e7\u00e3o da mulher: \u201cA\u00ed, uma coisa parecida com um sorriso surgiu naquilo que, um dia, tinha sido o seu rosto.\u201d<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria \u00e9 narrada como uma esp\u00e9cie de pref\u00e1cio em R\u00e9quiem, o conjunto de poemas mais conhecido de Anna Akhm\u00e1tova e um dos pontos mais altos da poesia do s\u00e9culo XX, em qualquer idioma. Escrito entre 1935 e 1961, R\u00e9quiem condensa o sofrimento de incont\u00e1veis mulheres russas e tamb\u00e9m da pr\u00f3pria autora. Escrevendo \u00e0s vezes na primeira pessoa, \u00e0s vezes na terceira, sempre com linguagem clara e concisa, ela transita entre o seu pr\u00f3prio desespero e o de tantas outras mulheres an\u00f4nimas, com sua \u201cboca fatigada, atrav\u00e9s da qual jorra um milh\u00e3o de gritos\u201d:<\/p>\n<p><em>Gostaria de poder cham\u00e1-las, a todas, por seus nomes,<\/em><br \/>\n<em> mas levaram a lista embora, e onde posso me informar?<\/em><br \/>\n<em> Para elas teci uma ampla mortalha<\/em><br \/>\n<em> com suas pobres palavras que consegui escutar.<\/em><\/p>\n<p>Anna Akhm\u00e1tova nasceu em 1889 em Odessa, na Ucr\u00e2nia, e ainda crian\u00e7a se mudou para uma pequena cidade perto de S\u00e3o Petersburgo. Come\u00e7ou a escrever poemas aos onze anos de idade. Quando publicou seu primeiro livro, aos 23, j\u00e1 era uma das poetas mais aclamadas de S\u00e3o Petersburgo, ao lado de \u00d3ssip Mandelstam e de Nikolai Gumili\u00f3v, com quem viria a se casar. O estilo l\u00edrico e ao mesmo tempo contido de Akhm\u00e1tova, que combinava alta carga emocional com uma linguagem direta e sem met\u00e1foras fl\u00e1cidas, rapidamente ganhou popularidade e gerou uma multid\u00e3o de admiradores e imitadores. Segundo Joseph Brodsky, seu amigo e disc\u00edpulo, os poemas dedicados a ela ocupariam mais volumes do que suas pr\u00f3prias obras reunidas.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou a mudar com a entrada da R\u00fassia na Primeira Guerra Mundial e a onda de devasta\u00e7\u00e3o que veio em seguida. Em 1915, Akhm\u00e1tova escreveu um poema intitulado Ora\u00e7\u00e3o, em que se oferecia em sacrif\u00edcio pelo fim da guerra:<\/p>\n<p><em>Manda-me amargos anos de doen\u00e7a,<\/em><br \/>\n<em> a febre, a ins\u00f4nia, a inquieta\u00e7\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em> leva de mim meu filho, meu amigo,<\/em><br \/>\n<em> e o dom misterioso de cantar.<\/em><\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 a minha ora\u00e7\u00e3o durante a tua liturgia:<\/em><br \/>\n<em> ap\u00f3s as tormentas de t\u00e3o longos dias,<\/em><br \/>\n<em> que a nuvem que pesou sombria sobre a R\u00fassia,<\/em><br \/>\n<em> transforme-se noutra nuvem, de gloriosos raios.<\/em><\/p>\n<p>Quando lemos esse poema \u00e0 luz da biografia da poeta, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o ver nele uma premoni\u00e7\u00e3o sinistra. Com o advento da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, a poesia de Anna Akhm\u00e1tova passou a ser considerada \u201cultrapassada\u201d, \u201cindividualista\u201d e incompat\u00edvel com o esp\u00edrito coletivista do novo regime. Al\u00e9m disso, ela ficou marcada como vi\u00fava de um \u201cinimigo do povo\u201d. Nikolai Gumili\u00f3v, de quem ela havia se separado em 1918, foi acusado de envolvimento em uma conspira\u00e7\u00e3o e fuzilado sumariamente, tr\u00eas anos depois. Ela ficou sabendo pelos jornais, e escreveu este poema:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o est\u00e1s mais entre os vivos.<\/em><br \/>\n<em> Da neve n\u00e3o podes erguer-te.<\/em><br \/>\n<em> Vinte e oito baionetadas.<\/em><br \/>\n<em> Cinco buracos de bala.<\/em><\/p>\n<p><em>Amarga camisa nova<\/em><br \/>\n<em> cosi para o meu amado.<\/em><br \/>\n<em> Esta terra russa gosta,<\/em><br \/>\n<em> gosta do gosto de sangue<\/em><\/p>\n<p>A partir de 1923, Anna Akhm\u00e1tova n\u00e3o conseguia mais publicar poemas e vivia na pen\u00faria quase absoluta, subsistindo com a mag\u00e9rrima renda de tradutora e pesquisadora. Ainda assim, mais tarde ela chamaria esses anos de \u201cvegetarianos\u201d, em compara\u00e7\u00e3o com o terror \u201ccarn\u00edvoro\u201d que St\u00e1lin imp\u00f4s \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a partir da metade da d\u00e9cada de 1930. Seu marido, Nikolai P\u00fanin, foi preso e levado para a Sib\u00e9ria; o mesmo aconteceu com seu amigo \u00d3ssip Mandelstam, mais tarde assassinado na pris\u00e3o, e com seu filho Lev, que passaria longos anos em campos de trabalho.<\/p>\n<p>Mesmo privada do marido e do filho, proscrita, paup\u00e9rrima, tuberculosa e com problemas na tireoide, Anna Akhm\u00e1tova nunca deixou a poesia de lado. Foi nessa \u00e9poca que come\u00e7ou a escrever R\u00e9quiem e outras obras c\u00e9lebres, como o longo e \u00e9pico Poema sem her\u00f3i. Sabendo do risco que corria caso seus poemas fossem descobertos, ela confiou a um pequeno grupo de amigas a tarefa de memoriz\u00e1-los. Uma dessas amigas, L\u00eddia Tchukovskaia, descreve em suas mem\u00f3rias como isso acontecia: \u201cSubitamente, no meio de uma conversa, ela ficava em sil\u00eancio, dirigia seu olhar para o teto e para as paredes, pegava um peda\u00e7o de papel e um l\u00e1pis; ent\u00e3o dizia em voz alta algo deveras mundano&#8230; cobria o papel com uma escrita apressada e me entregava. Eu lia os poemas e, ap\u00f3s memoriz\u00e1-los, devolvia-os em sil\u00eancio&#8230; e ent\u00e3o ela queimava o papel&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, o esfor\u00e7o de uni\u00e3o nacional deu margem a uma relativa abertura para os poetas e demais artistas proscritos. Mesmo sem publicar poemas h\u00e1 mais de quinze anos, Anna Akhm\u00e1tova n\u00e3o tinha sido esquecida; foi chamada para falar a seus compatriotas no r\u00e1dio, durante o cerco de Leningrado, e escreveu poemas patri\u00f3ticos como Coragem, que se espalhavam de boca a boca entre os soldados no front.<\/p>\n<p>O governo autorizou a edi\u00e7\u00e3o de uma antologia de seus poemas e, no dia do lan\u00e7amento, formaram-se imensas filas que disputavam a edi\u00e7\u00e3o limitada de 10 mil exemplares. As autoridades foram pegas de surpresa e o Presidente do Soviete Supremo, Andrei Jdanov, ordenou que o livro fosse retirado de circula\u00e7\u00e3o. Em 1946, o mesmo Jdanov foi encarregado por St\u00e1lin de coordenar a pol\u00edtica cultural sovi\u00e9tica. Seu primeiro ato foi lan\u00e7ar uma campanha p\u00fablica de condena\u00e7\u00e3o \u00e0 arte \u201cburguesa\u201d e \u201creacion\u00e1ria\u201d. Seu primeiro alvo foi Anna Akhm\u00e1tova, que foi expulsa da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de Escritores, teve seu cart\u00e3o de racionamento confiscado e foi mais uma vez proibida de publicar seus poemas.<\/p>\n<p>Ela suportou a condena\u00e7\u00e3o com a sobriedade e dignidade de sempre, e continuou a escrever e reescrever seus poemas em segredo. Viveu o suficiente para ver a morte de Jdanov e do pr\u00f3prio St\u00e1lin, e o relaxamento gradual da censura sobre seus poemas. Na d\u00e9cada de 1960, voltou a publicar livros, se tornou ainda mais popular do que era na sua juventude e sua reputa\u00e7\u00e3o cresceu de forma s\u00f3lida e consistente entre as novas gera\u00e7\u00f5es de poetas e leitores. Havia se tornado um dos poucos artistas russos de primeir\u00edssima grandeza que n\u00e3o tinham sido assassinados ou escapado para o ex\u00edlio. Talvez ela tivesse pressentido que um dia voltaria a ser a poeta mais amada da R\u00fassia, pois muitos anos antes escrevera, no ep\u00edlogo de R\u00e9quiem:<\/p>\n<p><em>E se, neste pa\u00eds, um dia decidirem<\/em><br \/>\n<em> \u00e0 minha mem\u00f3ria erguer um monumento,<\/em><\/p>\n<p><em>eu concordarei com essa honraria,<\/em><br \/>\n<em> desde que n\u00e3o me fa\u00e7am essa est\u00e1tua<\/em><\/p>\n<p><em>nem \u00e0 beira do mar, onde nasci \u2013<\/em><br \/>\n<em> meus \u00faltimos la\u00e7os com o mar j\u00e1 se romperam \u2013,<\/em><\/p>\n<p><em>nem no jardim do Tsar, junto ao tronco consagrado,<\/em><br \/>\n<em> onde uma sombra inconsol\u00e1vel ainda procura por mim,<\/em><\/p>\n<p><em>mas aqui, onde fiquei de p\u00e9 trezentas horas<\/em><br \/>\n<em> sem que os port\u00f5es para mim se destrancassem.<\/em><\/p>\n<p>Em 2006, quando as autoridades de S\u00e3o Petersburgo decidiram erguer um monumento a Anna Akhm\u00e1tova no anivers\u00e1rio de quarenta anos de sua morte, n\u00e3o foi dif\u00edcil escolher o lugar. A est\u00e1tua de bronze, de tr\u00eas metros de altura, foi colocada em frente \u00e0 pris\u00e3o de Kresty.<\/p>\n<p><em>* Devemos todos os poemas aqui transcritos a Lauro Machado Coelho (1944-2018), tradutor e bi\u00f3grafo de Anna Akhm\u00e1tova, a quem esta coluna \u00e9 dedicada.<\/em><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na maioria das vezes, quando se fala em literatura russa, os nomes que v\u00eam \u00e0 mente costumam ser sempre os mesmos e, na maioria das vezes, masculinos. 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