﻿{"id":27981,"date":"2017-03-30T16:17:06","date_gmt":"2017-03-30T19:17:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=27981"},"modified":"2017-03-31T10:40:51","modified_gmt":"2017-03-31T13:40:51","slug":"inedito-leia-trecho-da-unica-critica-que-van-gogh-recebeu-em-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=27981","title":{"rendered":"In\u00e9dito: leia trecho da \u00fanica cr\u00edtica que Van Gogh recebeu em vida"},"content":{"rendered":"<p>Em janeiro de 1890, o primeiro n\u00famero da legend\u00e1ria revista\u00a0<i>Mercure de France<\/i>, trazia um texto intitulado\u00a0<em>Os isolados.\u00a0<\/em>Escrito pelo poeta e cr\u00edtico de arte Gabriel-Albert Aurier, foi o primeiro\u00a0\u2013 e \u00fanico \u2013 texto cr\u00edtico sobre Van Gogh, publicado em vida do artista.<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;)<\/p>\n<p><strong>Sob c\u00e9us ora talhados no ofuscamento das safiras ou das turquesas, ora feitos de n\u00e3o sei que s\u00falfures infernais, quentes, delet\u00e9rios e cegantes; sob c\u00e9us como moldes de metais e cristais em fus\u00e3o, onde, por vezes, propagam-se, difusos, t\u00f3rridos discos solares; sob a incessante e formid\u00e1vel correnteza de todas as luzes poss\u00edveis, em atmosferas pesadas, flamejantes, abrasadoras, que parecem exalar de fant\u00e1sticas fornalhas onde se volatilizariam ouros, diamantes e gemas singulares \u2013 este \u00e9 o mostru\u00e1rio inquietante, perturbador, de uma estranha natureza, verdadeiramente real e ao mesmo tempo quase sobrenatural, de uma natureza excessiva onde tudo, seres e coisas, sombras e luzes, formas e cores, se empinam, se erguem numa vontade raivosa de gritar sua essencial e pr\u00f3pria can\u00e7\u00e3o, com o timbre mais intenso, o mais ferozmente superagudo; s\u00e3o \u00e1rvores, retorcidas como gigantes em batalha, proclamando com o gesto de seus bra\u00e7os nodosos que amea\u00e7am e com o tr\u00e1gico esvoa\u00e7ar de suas verdes cabeleiras, sua for\u00e7a indom\u00e1vel, o orgulho de sua musculatura, sua seiva quente como sangue, seu eterno desafio ao furac\u00e3o, ao rel\u00e2mpago, \u00e0 natureza nociva; s\u00e3o ciprestes erguendo suas pesadelares silhuetas de labaredas, que seriam negras; montanhas arqueando dorsos de mamutes ou de rinocerontes; pomares brancos, rosados e amarelados, como ideais sonhos de virgens; casas acocoradas, que se contorcem apaixonadamente como indiv\u00edduos que gozam, sofrem, pensam; pedras, terrenos, arbustos, gramados, jardins, rios que parecem esculpidos na forma de minerais desconhecidos, polidos, reluzentes, irisados, fe\u00e9ricos; s\u00e3o flamejantes paisagens que parecem a ebuli\u00e7\u00e3o de multicoloridos vernizes em algum diab\u00f3lico cadinho de alquimista, folhagens que parecem bronze antigo, cobre novo, vidro filetado; canteiros de flores que parecem menos flores do que riqu\u00edssimas joalherias de rubis, \u00e1gatas, \u00f4nix, esmeraldas, cor\u00edndons, crisoberilos, ametistas e calced\u00f4nias; \u00e9 a universal, louca e ofuscante fulgura\u00e7\u00e3o das coisas; \u00e9 a mat\u00e9ria, a natureza inteira retorcida freneticamente, paroxizada, levada ao auge da exacerba\u00e7\u00e3o; \u00e9 a forma que se torna pesadelo, a cor que se torna labareda, lava e pedraria, a luz que se faz inc\u00eandio, a vida, febre ardente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tal \u00e9 a impress\u00e3o, nada exagerada, ainda que assim se possa pensar, deixada na retina pelo primeiro olhar sobre as obras estranhas, intensas e febris de Vincent Van Gogh, compatriota e n\u00e3o indigno descendentes dos velhos mestres holandeses.<\/strong><\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Trecho de <em>Os isolados<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o de Julia da Rosa Sim\u00f5es<\/p><\/blockquote>\n<p>Este texto nunca foi traduzido e publicado no Brasil na \u00edntegra, mas ele ser\u00e1 acrescentado \u00e0 pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o de<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=638453&amp;ID=805461\" target=\"_blank\">\u00a0<em>Cartas a Theo\u00a0<\/em>e outros documentos sobre a vida de Van Gogh<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Cartas_a_Theo_e_outros_CONV.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-27984\" alt=\"Cartas_a_Theo_e_outros_CONV\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Cartas_a_Theo_e_outros_CONV-688x1024.jpg\" width=\"360\" height=\"535\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Cartas_a_Theo_e_outros_CONV-688x1024.jpg 688w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Cartas_a_Theo_e_outros_CONV-201x300.jpg 201w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Cartas_a_Theo_e_outros_CONV.jpg 1666w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao que tudo indica, foi somente cinco meses depois da publica\u00e7\u00e3o do artigo de Aurier, e da resposta quase imediata do pintor por carta, em fevereiro, transmitida por Theo, que ele e Van Gogh conheceram, na casa deste, no domingo, 6 de julho, na presen\u00e7a de \u00c9mile Bernard e Toulouse-Lautrec.\u00a0Depois da morte de Vincent, Th\u00e9o convidou Aurier a escrever o cat\u00e1logo das obras do pintor e um livro sobre ele. Mas o projeto n\u00e3o se concretizou.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sua morte, em 5 de outubro de 1892, v\u00edtima de uma febre tif\u00f3ide, \u00a0Paul Gauguin escreveu a Daniel de Monfreid: \u201cO pobre Aurier est\u00e1 morto. Decididamente, n\u00e3o estamos com sorte. Van Gogh, depois Aurier, o \u00fanico cr\u00edtico que nos compreendia e que um dia nos teria sido \u00fatil\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_27982\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Aurier_Albert_BNF_Gallica.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-27982\" class=\"size-large wp-image-27982\" alt=\"Aurier,_Albert,_BNF_Gallica\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Aurier_Albert_BNF_Gallica-801x1024.jpg\" width=\"450\" height=\"575\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Aurier_Albert_BNF_Gallica-801x1024.jpg 801w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Aurier_Albert_BNF_Gallica-234x300.jpg 234w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Aurier_Albert_BNF_Gallica.jpg 1589w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27982\" class=\"wp-caption-text\">Clique para ampliar a foto e impressione-se com o olhar de Aurier<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em janeiro de 1890, o primeiro n\u00famero da legend\u00e1ria revista\u00a0Mercure de France, trazia um texto intitulado\u00a0Os isolados.\u00a0Escrito pelo poeta e cr\u00edtico de arte Gabriel-Albert Aurier, foi o primeiro\u00a0\u2013 e \u00fanico \u2013 texto cr\u00edtico sobre Van Gogh, publicado em vida do artista. (&#8230;) Sob c\u00e9us ora talhados no ofuscamento das safiras ou das turquesas, ora feitos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[190,5613,5612,83],"class_list":["post-27981","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-cartas-a-theo","tag-gabriel-albert-aurier","tag-theo-van-gogh","tag-van-gogh"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27981","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27981"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27981\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27986,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27981\/revisions\/27986"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27981"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27981"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27981"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}