﻿{"id":27583,"date":"2016-08-19T15:51:33","date_gmt":"2016-08-19T18:51:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=27583"},"modified":"2016-08-19T15:53:31","modified_gmt":"2016-08-19T18:53:31","slug":"tradutora-comenta-desafio-ao-traduzir-montaigne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=27583","title":{"rendered":"Julia da Rosa Sim\u00f5es comenta desafio ao traduzir Montaigne"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/zh.clicrbs.com.br\/rs\/entretenimento\/livros\/noticia\/2016\/08\/tradutora-comenta-desafio-ao-traduzir-montaigne-7293742.html\" target=\"_blank\"><em>Jornal Zero Hora &#8211; Segundo Caderno, 19\/08\/2016<\/em><\/a><\/p>\n<p>Julia da Rosa Sim\u00f5es est\u00e1 vertendo para o portugu\u00eas os &#8220;Ensaios&#8221; do autor. O primeiro volume j\u00e1 est\u00e1 nas livrarias<\/p>\n<p>Julia Sim\u00f5es est\u00e1 traduzindo os\u00a0Ensaios\u00a0de Michel de Montaigne (1533 \u2013 1592) para a L&amp;PM Editores. Montaigne deixou tr\u00eas volumes da obra, sendo que o inicial foi dividido em dois tomos. <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=526091&amp;ID=617050\" target=\"_blank\">O primeiro j\u00e1 est\u00e1 nas livrarias<\/a>. O segundo deve ser lan\u00e7ado nos pr\u00f3ximos meses. No novo volume, a tradutora deparou com o termo &#8220;chacuni\u00e8re&#8221;, a partir do qual escreveu o texto a seguir.<\/p>\n<div id=\"attachment_27584\" style=\"width: 458px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Montaigne-Julia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-27584\" class=\" wp-image-27584 \" alt=\"Julia Sim\u00f5es visitou no ano passado o castelo no qual Montaigne escreveu os &quot;Ensaios&quot;, em Bordeaux, na Fran\u00e7a.   Ao lado, a capa do primeiro volume traduzido por Julia, j\u00e1 nas livrarias\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Montaigne-Julia.jpg\" width=\"448\" height=\"294\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Montaigne-Julia.jpg 640w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Montaigne-Julia-300x196.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-27584\" class=\"wp-caption-text\">Julia Sim\u00f5es visitou no ano passado o castelo no qual Montaigne escreveu os &#8220;Ensaios&#8221;, em Bordeaux, na Fran\u00e7a. Ao lado, a capa do primeiro volume traduzido por Julia, j\u00e1 nas livrarias<\/p><\/div>\n<blockquote><p><strong>\u00a0No cap\u00edtulo 34 de seus\u00a0<i>Ensaios<\/i>, intitulado\u00a0<i>De um defeito de nossa administra\u00e7\u00e3o<\/i>, Montaigne aborda um h\u00e1bito de seu pai, que reconhece como valoroso mas que teme n\u00e3o conseguir reproduzir: &#8220;M\u00e9todo que sei elogiar mas n\u00e3o seguir&#8221;. O pai de Montaigne contratava algu\u00e9m para escrever um di\u00e1rio, como diz o ensa\u00edsta, para registrar &#8220;as mem\u00f3rias da hist\u00f3ria de sua casa&#8221;. Coisa \u00fatil para quando surgisse uma d\u00favida ou dificuldade, mas tamb\u00e9m agrad\u00e1vel quando o tempo apagasse as lembran\u00e7as.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Montaigne encerra o ensaio com uma frase que cont\u00e9m uma express\u00e3o que me encanta: &#8220;Usage ancien, que je trouve bon \u00e0 rafraichir, chacun en sa chacuni\u00e8re: et me trouve un sot d\u00bfy avoir failly&#8221;.<i>\u00a0<\/i><i>Chacun en sa chacuni\u00e8re<\/i>. N\u00e3o consigo n\u00e3o sorrir. Fico fascinada com a palavra\u00a0<i>chacuni\u00e8re<\/i>, que soa a neologismo e, ao mesmo tempo, a arca\u00edsmo. Antes de dar uma conferida no dicion\u00e1rio, penso na express\u00e3o &#8220;cada um com seu cada qual&#8221;. Que \u00e9 boa, me agrada em portugu\u00eas. Mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa: lembra demais o batido &#8220;sempre tem um p\u00e9 torto para um chinelo velho&#8221;. Comentei-a com um amigo, apreciador das sutilezas da l\u00edngua, que sugeriu uma vers\u00e3o em carioqu\u00eas: &#8220;cada um com seus pobrema&#8221;. Ok, vale descontrair, mas n\u00e3o \u00e9 exatamente isso o que est\u00e1 em quest\u00e3o para Montaigne.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ao ir atr\u00e1s do significado e da etimologia de &#8220;chacuni\u00e8re&#8221;, n\u00e3o me surpreendi ao ver que um dicion\u00e1rio como o Le Petit Robert n\u00e3o a registra. O excelente Tr\u00e9sor de la Langue Fran\u00e7aise Informatis\u00e9, no entanto, sempre corresponde \u00e0s expectativas. Segundo ele, a palavra diz respeito a um local para o qual o indiv\u00edduo se retira, como uma casa ou um apartamento. Um trecho de Th\u00e9ophile Gautier, de 1863, confirma o uso, que segundo o dicion\u00e1rio \u00e9 informal. Outro uso, menos comum mas tamb\u00e9m poss\u00edvel, seria o de considerar a\u00a0<i>chacuni\u00e8re<\/i>\u00a0a mulher do\u00a0<i>chacun<\/i>. Muito menos interessante. O Grand Robert, por sua vez, d\u00e1 a palavra como alus\u00e3o arcaica \u00e0 &#8220;casa de cada um&#8221; (<i>maison de chacun<\/i>), algo como um mutante &#8220;individu\u00e1rio&#8221; (casa do indiv\u00edduo).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Para quem gosta de perder tempo com essas coisas, como eu (em vez de seguir em frente com a tradu\u00e7\u00e3o), foi bacana descobrir, ainda no TLFi, agora na se\u00e7\u00e3o Etimologia e Hist\u00f3ria da Palavra, que o primeiro uso da express\u00e3o data de 1532. Rabelais, em seu Pantagruel (cap\u00edtulo 14), j\u00e1 dissera: &#8220;Ainsi chascun s\u00bfen va \u00e0 sa chascuni\u00e8re&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Interessante&#8230; 1532! Estou trabalhando com a vers\u00e3o de 1595 do Montaigne. Pontas parecem se unir \u2013 na minha cabe\u00e7a, pelo menos. Algo pisca para mim, n\u00e3o sei bem o qu\u00ea. Rabelais, um dos criadores da prosa francesa, segundo Sain\u00e9an em La langue de Rabelais, de 1922-23. (O or\u00e1culo Google pode nos levar a maravilhas.) Para Sain\u00e9an,\u00a0<i>chascuni\u00e8re<\/i>\u00a0seria uma &#8220;forma\u00e7\u00e3o ou derivado anal\u00f3gico&#8221; de\u00a0<i>chaumi\u00e8re<\/i>\u00a0(choupana, cabana). A palavra tamb\u00e9m pode ser encontrada, segundo esse autor, em De P\u00e9riers e Montaigne, em Madame de S\u00e9vign\u00e9 e Scarron \u2013 todos fascinados, informa uma nota da edi\u00e7\u00e3o da Biblioth\u00e8que de la Pleiade, por essa &#8220;fantasia verbal de conson\u00e2ncia jur\u00eddica&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fico devendo na conson\u00e2ncia jur\u00eddica, mas j\u00e1 estou satisfeita. \u00c9 isso mesmo. Tamb\u00e9m em Rabelais\u00a0<i>chacuni\u00e8re<\/i>\u00a0tem a ver com a casa, o lugar de cada um. Da\u00ed que minha tradu\u00e7\u00e3o da frase fica: &#8220;Costume antigo, que considero bom reavivar, cada um em seu lar; e me considero um tolo por ter falhado nisso&#8221;. Perco a sonoridade, a alus\u00e3o, mas consigo manter o sentido.<\/strong><\/p>\n<p><strong>E n\u00e3o \u00e9 que, de repente, me ocorre a tradu\u00e7\u00e3o perfeita, ou o equivalente exato da express\u00e3o para o portugu\u00eas coloquial atual? O infame &#8220;cada um no seu quadrado&#8221;.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><em id=\"__mceDel\">E n\u00e3o \u00e9 que, de repente, me ocorre a tradu\u00e7\u00e3o perfeita, ou o equivalente exato da express\u00e3o para o portugu\u00eas coloquial atual? O infame &#8220;cada um no seu quadrado&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornal Zero Hora &#8211; Segundo Caderno, 19\/08\/2016 Julia da Rosa Sim\u00f5es est\u00e1 vertendo para o portugu\u00eas os &#8220;Ensaios&#8221; do autor. O primeiro volume j\u00e1 est\u00e1 nas livrarias Julia Sim\u00f5es est\u00e1 traduzindo os\u00a0Ensaios\u00a0de Michel de Montaigne (1533 \u2013 1592) para a L&amp;PM Editores. 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