﻿{"id":27285,"date":"2016-04-14T15:04:34","date_gmt":"2016-04-14T18:04:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=27285"},"modified":"2016-04-14T15:04:34","modified_gmt":"2016-04-14T18:04:34","slug":"as-ultimas-palavras-de-galeano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=27285","title":{"rendered":"As \u00faltimas palavras de Galeano"},"content":{"rendered":"<p>Vem a\u00ed &#8220;O ca\u00e7ador de hist\u00f3rias&#8221;, livro in\u00e9dito deixado pelo escritor uruguaio. Leia a seguir a mat\u00e9ria publicada pelo Jornal <em>O Globo<\/em> no dia 13 de abril, data de um ano da morte de Eduardo Galeano. O jornal publicou ainda trechos do novo livro que tem tradu\u00e7\u00e3o de Eric Nepomuceno e que ser\u00e1 lan\u00e7ado pela L&amp;PM em breve.<\/p>\n<div id=\"attachment_21642\" style=\"width: 458px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/eduardo-galeano2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-21642\" class=\"size-full wp-image-21642\" alt=\"eduardo galeano2\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/eduardo-galeano2.jpg\" width=\"448\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/eduardo-galeano2.jpg 448w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/eduardo-galeano2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-21642\" class=\"wp-caption-text\">Eric Nepomuceno e Eduardo Galeano<\/p><\/div>\n<blockquote><p><a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/livros\/eduardo-galeano-tera-livro-postumo-lancado-em-maio-leia-trechos-19069305\" target=\"_blank\"><em>Jornal O Globo &#8211; Por Guilherme Freitas<\/em><\/a><\/p>\n<p>RIO \u2014 Morto em 13 de abril de 2015, aos 74 anos, Eduardo Galeano dedicou seus \u00faltimos meses ao que mais gostava de fazer: escrever. As palavras finais do autor uruguaio est\u00e3o reunidas no livro \u201cO ca\u00e7ador de hist\u00f3rias\u201d, que chega este m\u00eas \u00e0s livrarias dos pa\u00edses de l\u00edngua espanhola. O lan\u00e7amento no Brasil est\u00e1 previsto para o fim de maio, pela editora L&amp;PM, em tradu\u00e7\u00e3o de Eric Nepomuceno, amigo do escritor por mais de quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Com textos curtos e po\u00e9ticos, entre o ensaio e a fic\u00e7\u00e3o, \u201cO ca\u00e7ador de hist\u00f3rias\u201d \u00e9 uma amostra de estilo e temas que marcaram a obra de Galeano. Em um fragmento, o autor de um dos livros de cabeceira da esquerda no continente, \u201cAs veias abertas da Am\u00e9rica Latina\u201d (1971), recorda a ocasi\u00e3o em que ouviu do chileno Salvador Allende, anos antes de sua morte no golpe de Pinochet, uma frase prof\u00e9tica: \u201cVale a pena morrer por tudo isso que, sem existir, n\u00e3o vale a pena viver\u201d. Outros textos evocam mitos e tradi\u00e7\u00f5es dos povos ind\u00edgenas da Am\u00e9rica, mat\u00e9ria-prima de cl\u00e1ssicos de Galeano, como a trilogia \u201cMem\u00f3ria do fogo\u201d.<\/p>\n<p>Um tema que atravessa o livro \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o da \u201cpaix\u00e3o in\u00fatil\u201d pela escrita: \u201cMeus mestres foram os admir\u00e1veis mentirosos que nos caf\u00e9s se reuniam para encontrar o tempo perdido\u201d, diz. Nos \u00faltimos textos, escritos quando ele combatia um c\u00e2ncer no pulm\u00e3o, surgem reflex\u00f5es pungentes sobre a proximidade do fim: \u201cO sol nos oferece um adeus sempre assombroso, que jamais repete o crep\u00fasculo de ontem nem o de amanh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Tradutor do primeiro texto de Galeano publicado no Brasil, o conto \u201cO monstro meu amigo\u201d, em 1974, Nepomuceno foi respons\u00e1vel desde ent\u00e3o por mais de uma dezena de t\u00edtulos do uruguaio no pa\u00eds. \u201cO ca\u00e7ador de hist\u00f3rias\u201d foi o primeiro em que n\u00e3o revisou cada palavra com o amigo. Nepomuceno selecionou os trechos publicados a seguir como uma homenagem a Galeano no primeiro anivers\u00e1rio de sua morte.<\/p>\n<p>\u2014 Se Eduardo era de uma exig\u00eancia sem tr\u00e9guas na hora de escrever, mais exigente ainda era na hora de revisar a tradu\u00e7\u00e3o. Negoci\u00e1vamos cada palavra, cada frase \u2014 diz Nepomuceno. \u2014 O vazio deixado por ele \u00e9 imenso. Sou \u00f3rf\u00e3o desse meu irm\u00e3o que a vida me deu. Cada palavra desta tradu\u00e7\u00e3o foi negociada na sua aus\u00eancia. Espero ter honrado a nossa parceria de 42 anos.<\/p>\n<p><strong>POR QUE ESCREVO\/II<\/strong><\/p>\n<p>Se n\u00e3o me engano, foi Jean-Paul Sartre quem disse:<\/p>\n<p><i>Escrever \u00e9 uma paix\u00e3o in\u00fatil.<\/i><\/p>\n<p>A gente escreve sem saber muito bem por que ou para que, mas sup\u00f5e-se que escrever tem a ver com as coisas nas quais a gente acredita da maneira mais profunda, tem a ver com os temas que nos desvelam.<\/p>\n<p>Escrevemos tendo por base algumas certezas, que tampouco s\u00e3o certezas\u00a0<i>full-time<\/i>. Eu, por exemplo, sou otimista segundo a hora do dia.<\/p>\n<p>Normalmente, at\u00e9 o meio-dia sou bastante otimista. Depois, do meio-dia at\u00e9 as quatro, minha alma despenca para o ch\u00e3o. L\u00e1 pelo entardecer ela se acomoda de novo no seu devido lugar, e de noite cai e se levanta, v\u00e1rias vezes, at\u00e9 a manh\u00e3 seguinte, e por a\u00ed vamos&#8230;<\/p>\n<p>Eu desconfio muito dos otimistas\u00a0<i>full-time<\/i>. Acho que eles s\u00e3o um resultado dos erros dos deuses.<\/p>\n<p>Segundo os deuses maias, todos n\u00f3s fomos feitos de milho, e por isso temos tantas cores diferentes, tantas como tem o milho. No Brasil, talvez nem tantas, mas no resto da Am\u00e9rica, sim: milho branco, amarelo, avermelhado, marrom, e por a\u00ed vamos. Muitas cores. Mas antes houve algumas tentativas muito desleixadas, que deram bem errado. Uma delas teve como resultado o homem e a mulher feitos de madeira.<\/p>\n<p>Os deuses andavam chateados e n\u00e3o tinham com quem conversar, porque aqueles humanos eram iguais a n\u00f3s mas n\u00e3o tinham o que dizer nem como dizer se tivessem o que dizer, porque n\u00e3o respiravam. N\u00e3o abriam a boca. E se n\u00e3o respiravam nem abriam a boca, n\u00e3o tinham alento. E eu sempre pensei que se n\u00e3o tinham alento, tamb\u00e9m n\u00e3o tinham desalento. Portanto, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o desastroso que a alma da gente despenque para o ch\u00e3o, porque \u00e9 s\u00f3 uma prova a mais de que somos humanos, humaninhos e nada mais.<\/p>\n<p>E como humaninho, puxado pelo alento ou pelo desalento, conforme as horas do dia, continuo escrevendo, praticando essa paix\u00e3o in\u00fatil.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong> PEGADAS<\/strong><\/p>\n<p>O vento apaga as pegadas das gaivotas.<\/p>\n<p>As chuvas apagam as pegadas dos passos humanos.<\/p>\n<p>O sol apaga as pegadas do tempo.<\/p>\n<p>Os contadores de hist\u00f3ria procuram as pegadas da mem\u00f3ria perdida, do amor e da dor, que n\u00e3o s\u00e3o vistas, mas que n\u00e3o se apagam.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong> HOMENAGENS<\/strong><\/p>\n<p>No morro de Santa Luc\u00eda, em pleno centro de Santiago do Chile, foi erguida uma est\u00e1tua do chefe ind\u00edgena Caupolic\u00e1n.<\/p>\n<p>Caupolic\u00e1n mais parece um \u00edndio de Hollywood, e isso tem explica\u00e7\u00e3o: a obra foi esculpida, em 1869, para um concurso realizado nos Estados Unidos em homenagem a James Fenimore Cooper, autor do romance \u201cO \u00faltimo dos moicanos\u201d.<\/p>\n<p>A escultura perdeu o concurso, e o moicano n\u00e3o teve outro rem\u00e9dio a n\u00e3o ser mudar de pa\u00eds e mentir que era chileno.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong> ESTRANGEIRO<\/strong><\/p>\n<p>No jornal do bairro de Raval, em Barcelona, a m\u00e3o an\u00f4nima escreveu:<\/p>\n<p>\u2013\u00a0<i>Teu deus \u00e9 judeu, tua m\u00fasica \u00e9 negra, teu carro \u00e9 japon\u00eas, tua pizza \u00e9 italiana, teu g\u00e1s \u00e9 argelino, teu caf\u00e9 \u00e9 brasileiro, tua democracia \u00e9 grega, teus n\u00fameros s\u00e3o \u00e1rabes, tuas letras s\u00e3o latinas.<\/i><\/p>\n<p><i>Eu sou teu vizinho. E tu dizes que sou estrangeiro?<\/i><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong> O VENTO<\/strong><\/p>\n<p>Espalha as sementes, conduz as nuvens, desafia os navegantes.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes limpa o ar, e \u00e0s vezes suja.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes aproxima o que est\u00e1 distante, e \u00e0s vezes afasta o que est\u00e1 perto.<\/p>\n<p>\u00c9 invis\u00edvel e \u00e9 intoc\u00e1vel.<\/p>\n<p>Acaricia voc\u00ea, golpeia voc\u00ea.<\/p>\n<p>Dizem que ele diz:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0<i>Eu sopro onde quiser.<\/i><\/p>\n<p>Sua voz sussurra ou ruge, mas n\u00e3o se entende o que diz.<\/p>\n<p>Anuncia o que vir\u00e1?<\/p>\n<p>Na China, os que preveem o tempo s\u00e3o chamados de espelhos do vento.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>\u00daLTIMA PORTA<\/strong><\/p>\n<p>Desde que se deitou pela \u00faltima vez, Guma Mu\u00f1oz n\u00e3o quis mais se levantar.<\/p>\n<p>Nem mesmo abria os olhos.<\/p>\n<p>Num de seus raros despertares, Guma reconheceu a filha, que apertava a sua m\u00e3o para dar serenidade ao seu sono.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, falou, ou melhor, murmurou:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0<i>Que esquisito, n\u00e3o \u00e9? A morte me dava medo. N\u00e3o d\u00e1 mais. Agora, me d\u00e1 curiosidade. Como ser\u00e1?<\/i><\/p>\n<p>E, perguntando como ser\u00e1, se deixou ir, morte adentro.<\/p><\/blockquote>\n<p>&#8220;O ca\u00e7ador de hist\u00f3rias&#8221; est\u00e1 em fase de produ\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 adiantamos que a capa ser\u00e1 igual \u00e0 capa da editora Siglo Veintiuno.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Galeano_NOVO_espanhol.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-27286\" alt=\"Galeano_NOVO_espanhol\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Galeano_NOVO_espanhol-682x1024.jpg\" width=\"450\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Galeano_NOVO_espanhol-682x1024.jpg 682w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Galeano_NOVO_espanhol-199x300.jpg 199w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Galeano_NOVO_espanhol.jpg 1653w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vem a\u00ed &#8220;O ca\u00e7ador de hist\u00f3rias&#8221;, livro in\u00e9dito deixado pelo escritor uruguaio. 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