﻿{"id":27115,"date":"2016-03-02T15:18:28","date_gmt":"2016-03-02T18:18:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=27115"},"modified":"2016-03-03T10:13:55","modified_gmt":"2016-03-03T13:13:55","slug":"a-dominatrix-lou-andreas-salome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=27115","title":{"rendered":"A &#8220;dominatrix&#8221; Lou Andreas-Salom\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Friedrich Nietzche e Paul R\u00e9e, ambos alem\u00e3es, ambos fil\u00f3sofos, ambos apaixonados pela mesma mulher: a jovem russa Lou von Salom\u00e9. Em 1882, os dois amigos \u2013 primeiro R\u00e9e e depois Nietzsche \u2013 pediram a m\u00e3o de Lou em casamento. Ela, que na \u00e9poca tinha apenas 20 anos, n\u00e3o aceitou nenhum deles. Ap\u00f3s recus\u00e1-los, Nietzsche sugeriu que os tr\u00eas fizessem uma foto juntos. A hist\u00f3ria desta fotografia, at\u00e9 hoje pol\u00eamica, est\u00e1 contada em \u201c<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1QsbtU1\" target=\"_blank\">Lou Andreas-Salom\u00e9<\/a>\u201d, de Dorian Astor (S\u00e9rie Biografias L&amp;PM).<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>O pedido solene acontecer\u00e1 em 13 de maio, em Lucerna: um encontro \u00e9 marcado no parque L\u00f6wengarten, ao p\u00e9 da est\u00e1tua do le\u00e3o. R\u00e9e aguarda no hotel, ansioso, Nietzsche faz sua declara\u00e7\u00e3o, Lou reitera sua recusa, relembra sua avers\u00e3o pelo casamento, insiste numa comunidade intelectual e amig\u00e1vel, \u00e0 qual o nome de R\u00e9e n\u00e3o deixa de ser associado. Eles v\u00e3o ao encontro de R\u00e9e no hotel. Nietzsche, para salvar as apar\u00eancias, prop\u00f5e que eles celebrem a Trindade com uma fotografia que seria encomendada a seu amigo Jules Bonnet.\u00a0R\u00e9e detesta sua pr\u00f3pria imagem e \u00e9 reticente; mesmo assim, os tr\u00eas amigos acertam a representa\u00e7\u00e3o de sua amizade, sob a dire\u00e7\u00e3o de Nietzsche. Esse famoso retrato n\u00e3o deixa de causar desconforto. O trio se organiza ao redor de uma pequena charrete, diante de um cen\u00e1rio representando a montanha de Jungfrau (a Virgem).<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/bonnetNietzsche.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27119\" alt=\"bonnetNietzsche\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/bonnetNietzsche.gif\" width=\"315\" height=\"495\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p><strong><em>R\u00e9e, no centro e em primeiro plano, olha para a c\u00e2mara com um sorriso embara\u00e7ado, suas m\u00e3os procuram uma posi\u00e7\u00e3o, a direita colocada dentro do colete, a esquerda ro\u00e7ando a atrelagem. Atr\u00e1s dele, Nietzsche segura a atrelagem com mais convic\u00e7\u00e3o, com o olhar voltado para longe, em dire\u00e7\u00e3o a um ponto obscuro. Lou est\u00e1 desconfortavelmente sentada dentro da charrete, fixando a c\u00e2mera com um semirrorriso satisfeito: ela segura na m\u00e3o direita um chicote ornamentado com lilases, pronta para fustigar os dois homens como dois bons cavalos de tra\u00e7\u00e3o. Sua m\u00e3o esquerda segura como r\u00e9deas as extremidades de uma corda enla\u00e7ada ao redor dos bra\u00e7os de R\u00e9e e Nietzsche. Comenta-se que o pr\u00f3prio Bonnet se chocara com a incid\u00eancia da pose. Mas os tr\u00eas nada quiseram ouvir.<\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/NietzscheLouPauldetalhe.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-27121\" alt=\"NietzscheLouPauldetalhe\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/NietzscheLouPauldetalhe.jpg\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/NietzscheLouPauldetalhe.jpg 620w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/NietzscheLouPauldetalhe-300x168.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Muito se comentou essa fotografia, que alimentou, em rela\u00e7\u00e3o a Lou von Salom\u00e9, a imagem da mulher fatal e cruel, aos p\u00e9s de quem os homens \u2013 mesmo um g\u00eanio da dimens\u00e3o de Nietzsche \u2013 se humilhavam, como que estupidificados. Se for para interpretar essa posi\u00e7\u00e3o como uma encena\u00e7\u00e3o masoquista (dois homens amarrados e submissos, e uma dominadora armada com um chicote), tamb\u00e9m ser\u00e1 preciso especificar que a rela\u00e7\u00e3o masoquista repousa num contrato livremente aceito, no qual o mestre do jogo n\u00e3o \u00e9 aquele que pensamos. (&#8230;) Depois de analisar por tempo suficiente essa fotografia, vemos que o mais tragicamente s\u00e9rio \u00e9 Paul R\u00e9e, aquele que n\u00e3o queria ser fotografado, aquele que n\u00e3o gostava de si mesmo, aquele que Nietzsche descreveria dois meses depois, num rascunho de carta para Malwida, da seguinte maneira: \u201cA ideia de perpetuar a humanidade lhe \u00e9 insuport\u00e1vel: ele n\u00e3o consegue vencer seu sentimento de aumentar o n\u00famero de infelizes.\u201d R\u00e9e desejaria de fato aquele casamento? Tudo acontece como se cada um dos tr\u00eas personagens da fotografia, reunidos para \u201ccelebrar a impossibilidade de um simples casamento&#8221;, fizesse com os outros dois um contrato de natureza completamente diferente: retardar a realiza\u00e7\u00e3o, adiar o desenlace, ser pura tens\u00e3o, pura dire\u00e7\u00e3o. Sujeitos a rebentar como uma corda tensionada demais. As duas bestas de carga se esgotar\u00e3o. A condutora se sair\u00e1 melhor. \u00a0 <\/em><\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Em 1887, Lou se casaria com Friedrich Carl Andreas. Em 1897, se tornaria amante do escritor Rainer Maria Rilke e, mais tarde, seria acolhida por Freud como sua disc\u00edpula mais brilhante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Friedrich Nietzche e Paul R\u00e9e, ambos alem\u00e3es, ambos fil\u00f3sofos, ambos apaixonados pela mesma mulher: a jovem russa Lou von Salom\u00e9. 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