﻿{"id":26675,"date":"2015-10-06T12:15:27","date_gmt":"2015-10-06T15:15:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=26675"},"modified":"2015-10-06T12:15:27","modified_gmt":"2015-10-06T15:15:27","slug":"a-segunda-morte-de-breno-caldas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=26675","title":{"rendered":"A segunda morte de Breno Caldas"},"content":{"rendered":"<p>No dia primeiro de outubro, o <em>Correio do Povo<\/em> completou 120 anos de atividades ininterruptas. Durante 50 anos, ele foi considerado um dos maiores e mais influentes jornais brasileiros, per\u00edodo em que foi dirigido pessoalmente pelo seu dono Breno Alcaraz Caldas, filho do fundador Caldas Jr. Acossado por s\u00e9rios problemas financeiros, Breno Caldas viu-se obrigado a vender o jornal em meados dos anos 1980. A L&amp;PM publicou, em 1987, um grande depoimento de Breno Caldas dado ao jornalista e escritor Jos\u00e9 Antonio Pinheiro Machado sobre a hist\u00f3ria, a gl\u00f3ria e a queda do grande jornal. Aqui reproduzimos o texto escrito por Jos\u00e9 Ant\u00f4nio, publicado na edi\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica do Jornal \u201cJ\u00c1\u201d do dia 3 de outubro de 2015. Neste texto o jornalista destaca o fato de que, na edi\u00e7\u00e3o especial comemorativa aos 120 anos do Correio do Povo, sequer foi mencionado o nome de Breno Caldas.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Nos 120 anos do Correio do Povo,<\/strong><br \/>\n<strong> a segunda morte de Breno Caldas<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Jos\u00e9 Antonio Pinheiro Machado<\/em><\/p>\n<p>Com a mesma discri\u00e7\u00e3o que viveu, o jornalista Breno Caldas teve no dia 1\u00ba de outubro passado sua segunda morte.<\/p>\n<p>O fato ocorreu nos festejos dos 120 anos do Correio do Povo e na edi\u00e7\u00e3o comemorativa a essa data not\u00e1vel. Breno Caldas foi o jornalista mais importante da hist\u00f3ria do Correio do Povo.<\/p>\n<p>Filho do fundador, Caldas J\u00fanior, Breno Caldas comandou o jornal durante 50 anos \u2015 os 50 anos em que o Correio do Povo se tornou um dos jornais mais importantes do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apesar disso, seu nome n\u00e3o mereceu destaque na edi\u00e7\u00e3o comemorativa do jornal. Na verdade, o Correio do Povo de hoje, que comemora os 120 anos que n\u00e3o viveu, \u00e9 bem diferente do Correio do Povo que construiu a lenda: o Correio do Povo de Breno Caldas.<\/p>\n<p>A primeira morte do jornalista Breno Caldas, sua morte f\u00edsica, ocorreu em 1989, aos 79 anos, depois de uma agonia quase t\u00e3o dolorosa quanto a do jornal que dirigiu durante meio s\u00e9culo, o Correio do Povo.<\/p>\n<p>Fui seu amigo durante seus \u00faltimos anos, quando j\u00e1 estava longe de ser um dos 10 homens mais ricos do Brasil, co\u00admo foi considerado pela revista Veja nos anos 1970.<\/p>\n<p>Aproximei-me de Breno Caldas movido pela perplexidade que, desde 1984, atingia a maioria dos ga\u00fachos: co\u00admo e por que o Correio, a publica\u00e7\u00e3o ma\u00adis importante do Rio Grande \u2015 e uma das mais importantes do Brasil \u2015, quebrou?<\/p>\n<p>Era a hist\u00f3ria incr\u00edvel de um jornal que tinha deixado de circular apesar de ter invej\u00e1vel espa\u00e7o publicit\u00e1rio e 90 mil assinaturas pagas.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinha ouvido as opini\u00f5es e an\u00e1lises mais diversas, mas eu queria saber a vers\u00e3o do personagem principal: o que pensava a respeito aque\u00adle homem enigm\u00e1tico que tinha sido uma esp\u00e9cie de Vice-Rei do Rio Grande, e que, depois da derrocada, se recolhera a um sil\u00eancio impenetr\u00e1vel na sua bela propriedade da Ponta do Arado?<\/p>\n<p>Nossos primeiros contatos foram mui\u00adto dif\u00edceis, pois o \u201cDr. Breno\u201d n\u00e3o admitia a id\u00e9ia da publica\u00e7\u00e3o de um depoimento seu sobre o fim do Correio do Povo:<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m est\u00e1 interessado nas desculpas de um falido\u201d, dizia, com sua inesgot\u00e1vel capacidade de rir de si mesmo.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse nossa paix\u00e3o em comum por alguns espl\u00eandidos cavalos, espe\u00adcialmente os egressos dos campos de cria\u00e7\u00e3o do inesquec\u00edvel Marcel Boussac, as conversas n\u00e3o teriam ido adiante: talvez tivessem ficado naquele final de uma tarde luminosa de inverno em que tomamos ch\u00e1 ingl\u00eas Earl Grey com bis\u00adcoitos caseiros, quando visitei-o pela primeira vez.<\/p>\n<p>Mas, por causa dos cavalos, voltamos a conversar, e o assunto voltou para o jornal. Por fim, o constrangimento do empres\u00e1rio mal sucedido sucumbiu diante da sensibilidade do velho redator-chefe, e Breno Caldas concordou em me conceder um longo depoimento que resultou no livro \u201cMeio S\u00e9culo de Correio do Povo \u2014Gl\u00f3ria e Agonia de um Grande Jornal\u201d\u2015 o livro mais vendido da Feira do Livro de Porto Alegre de 1987, que obrigou a Editora L&amp;PM a imprimir uma segunda edi\u00e7\u00e3o durante a Feira.<\/p>\n<p>Como ficou claro no livro, Breno Caldas tinha a dizer, \u00e9 claro, muito mais do que desculpas sobre a fal\u00eancia; e muito mais gente do que ele imaginava estava interessada na\u00a0sua vers\u00e3o.<\/p>\n<p>Quase todos perceberam esse lado \u00e9pico de uma trag\u00e9dia shakesperiana: ele perdeu sua fortuna tentando salvar sua paix\u00e3o, o jornal.<\/p>\n<p>O\u00a0livro n\u00e3o tem o depoimento de um ressentido, mas sim o balan\u00e7o de algu\u00e9m que chegou ao fim da vida com seu dever cumprido. Nas saborosas reminisc\u00eancias de um velho jornalista, Breno Cal\u00addas retratou de forma impiedosa, os equ\u00edvocos \u2013 especial\u00admente os dele \u2013 que levaram sua empre\u00adsa a mergulhar em d\u00edvidas impag\u00e1veis quando decidiu renovar o parque gr\u00e1fico e implantar uma emissora de TV. Tam\u00adb\u00e9m fez um libelo corajoso com acusa\u00e7\u00f5es (que n\u00e3o tiveram contesta\u00e7\u00e3o) a pol\u00edticos e governantes da \u00e9poca que deram a voz de comando: \u201cVamos que\u00adbrar o Breno!\u201d Atribu\u00eda isso a um ajuste de contas de poderosos, descontentes com sua \u201cexcessiva independ\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Era um homem conservador, mas, como lhe confidenciara um general, \u201cn\u00e3o inteira\u00admente confi\u00e1vel\u201d. Sua fal\u00eancia foi um filme repetido nos tempos do \u201cmilagre brasileiro\u201d com tantos outros empre\u00ads\u00e1rios: depois de ter sido induzido a cap\u00adtar financiamentos em d\u00f3lar atrav\u00e9s da famigerada \u201cResolu\u00e7\u00e3o 63\u201d, Breno Caldas enfrentou duas maxi-desvaloriza\u00e7\u00f5es da moeda que multi\u00adplicaram sua d\u00edvida.<\/p>\n<p>Em vez de deixar a pessoa jur\u00eddica, isto \u00e9, o jornal, afundar, salvando sua fortuna pessoal, resistiu em desespero e consumiu 90% do seu imen\u00adso patrim\u00f4nio particular tentando salvar\u00a0o Correio do Povo. Por certo que n\u00e3o agiu com a prud\u00eancia que se quer de um empres\u00e1rio, mas foi um jornalista exemplar: num dos lances finais da agonia do jornal, quando n\u00e3o tinha mais cr\u00e9dito para obter papel, trocou a metade dos 800 hectares que possu\u00eda na espetacular Fazenda do Arado, no sul de Porto Alegre, pelas bobinas ne\u00adcess\u00e1rias para imprimir o Correio mais algumas semanas.<\/p>\n<p>No que restou do Arado, uma bel\u00edssi\u00adma propriedade no extremo sul do munic\u00edpio de Porto Alegre, onde o rio Gua\u00edba faz a sua \u00faltima volta, Bruno Caldas passou os \u00faltimos anos sem qual\u00adquer arrependimento pelos preju\u00edzos incalcul\u00e1veis que teve: \u201cTudo o que eu possu\u00eda, veio do Correio; era justo que voltasse para o jornal.\u201d<\/p>\n<p>Durante as grava\u00e7\u00f5es do depoimentos que me concedeu sempre se recusou a mencionar as cifras exatas de suas per\u00addas. Mas, depois do livro impresso, num fim de tarde, quando beb\u00edamos Dimple na sacada do seu gabinete, no Arado, diante do p\u00f4r-de-sol no Gua\u00edba, confes\u00adsou:<\/p>\n<p>\u201cUma vez, naqueles dias, numa \u00fanica tarde perdi 35 milh\u00f5es de d\u00f3lares\u201d.<\/p>\n<p>Mas em seguida mudou de assunto, passando a recordar Estensoro, El Centauro, El Supremo, Estupenda, e outros cavalos\u00a0magn\u00edficos que, nos bons tempos, criou nos campos do Haras do Arado. Tamb\u00e9m o Haras se foi, na voragem das d\u00edvidas.<\/p>\n<p>A todos esses golpes resistiu sem amargura, recolhendo-se \u00e0s tardes silen\u00adciosas de sua bela biblioteca com cente\u00adnas de volumes encadernados em couro, onde se deliciava lendo Dickens, Proust, Goethe e Chateaubriand \u2015 sempre no original: ele falava, lia e escrevia com flu\u00eancia em ingl\u00eas, franc\u00eas e alem\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 n\u00e3o teve for\u00e7as para enfrentar um \u00faltimo golpe, poucos anos antes de sua pr\u00f3pria morte: a morte do filho, Francisco Ant\u00f4nio, de pouco mais de 50 anos, que por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas o acompanhou, tamb\u00e9m trabalhando no Correio, na ger\u00eancia comercial. A luta silenciosa do filho durante mais de um ano contra o c\u00e2ncer, sem uma queixa sequer, deixou Breno Caldas espantado:<\/p>\n<p>\u201cO meu filho tinha fibras que eu desconhecia\u201d, me disse.<\/p>\n<p>N\u00e3o se recu\u00adperou desse golpe, por\u00e9m. E poucos meses depois, com problemas renais e respirat\u00f3rios, mergulhou numa agonia dolorosa e irrevers\u00edvel. Enfrentou-a com a serenidade que suportou o naufr\u00e1gio do seu jornal, revelando as mesmas fibras insuspeitadas do seu filho diante da morte.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_26676\" style=\"width: 394px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Capa_meio_seculo2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-26676\" class=\"size-full wp-image-26676\" alt=\"O livro que contou a hist\u00f3ria de Breno Caldas e seu jornal\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Capa_meio_seculo2.jpg\" width=\"384\" height=\"580\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Capa_meio_seculo2.jpg 384w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Capa_meio_seculo2-198x300.jpg 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-26676\" class=\"wp-caption-text\">O livro que contou a hist\u00f3ria de Breno Caldas e seu jornal<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia primeiro de outubro, o Correio do Povo completou 120 anos de atividades ininterruptas. 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