﻿{"id":25003,"date":"2014-09-08T18:02:01","date_gmt":"2014-09-08T21:02:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=25003"},"modified":"2014-09-08T18:09:56","modified_gmt":"2014-09-08T21:09:56","slug":"slim-gaillard-mais-do-que-um-personagem-de-kerouac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=25003","title":{"rendered":"Slim Gaillard, mais do que um personagem de Kerouac"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/claudiowiller.wordpress.com\/2014\/08\/12\/slim-gaillard-personagem-de-kerouac-e-suas-apresentacoes\/\" target=\"_blank\">Em seu blog<\/a>, Claudio Willer escreveu um post onde centrava suas aten\u00e7\u00f5es sobre Slim Gaillard, m\u00fasico que ocupa algumas p\u00e1ginas de <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?FiltroStr=on+the+road&amp;FiltroCampo=ALL&amp;I1.x=0&amp;I1.y=0&amp;Template=..%2Flivros%2Flayout_buscaprodutos.asp\" target=\"_blank\"><em>On the Road<\/em><\/a><em>, <\/em>de Jack Kerouac (219 a 221 na edi\u00e7\u00e3o da L&amp;PM). No recentemente lan\u00e7ado <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=717472&amp;ID=606084\" target=\"_blank\"><em>Os rebeldes: Gera\u00e7\u00e3o Beat e anarquismo m\u00edstico<\/em><\/a>, de sua autoria, Willer tamb\u00e9m dedica alguns par\u00e1grafos para o jazzista. E conta que, quando preparou o livro, n\u00e3o achou quase nada sobre Gaillard no meio digital. \u201cMas, nesse manancial infinito, aparecem agora bons registros; inclusive um <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hbdGTqoOg8w\" target=\"_blank\">document\u00e1rio extenso da BBC<\/a>, descoberto pelo m\u00fasico Pita Araujo, que colaborou em dois dos meus cursos sobre Gera\u00e7\u00e3o Beat.\u201d escreve ele.\u00a0 A seguir, dois v\u00eddeos com Gaillard.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/ZKdrnTTDTqo?list=RDerFhj0YJnqQ\" height=\"254\" width=\"450\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/erFhj0YJnqQ\" height=\"338\" width=\"450\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p>Um trecho dos coment\u00e1rios de <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=717472&amp;ID=606084\" target=\"_blank\"><em>Os rebeldes<\/em><\/a>, incluindo cita\u00e7\u00e3o de Kerouac.<\/p>\n<blockquote><p><b><i>Um dos trechos exaltados da louva\u00e7\u00e3o a jazzistas em On the Road \u00e9 sobre um dos mais originais dentre aqueles m\u00fasicos. \u00c9 quando Kerouac e Cassady se encontram com Slim Gaillard, o exc\u00eantrico guitarrista negro que, ao falar, se expressa atrav\u00e9s de glossolalias, fonemas n\u00e3o-semantizados. Cassady o proclama \u201cDeus\u201d; Kerouac o retrata como iluminado, xam\u00e3: \u201cSlim Gaillard \u00e9 um negro alto e magro com grandes olhos melanc\u00f3licos que t\u00e1 sempre dizendo \u201cLegal-oruni\u201d e \u201cque tal um bourbon-oruni?\u201d [&#8230;] E ent\u00e3o [depois de interpretar seu jazz] ele se levanta lentamente, pega o microfone e diz, com muita calma: \u201cGrande-oruni\u2026. belo-ovauti\u2026 ol\u00e1-oruni\u2026. bourbon-oruni\u2026 tudo-oruni\u2026. como est\u00e3o os garotos da primeira fila, fazendo a cabe\u00e7a com suas garotas-oruni\u2026. oruni\u2026. vauti\u2026. orunirumi\u2026.\u201d (Kerouac 2004, pgs. 219-221)<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>Ele ainda \u201cgrita coisas malucas em espanhol, em \u00e1rabe, em dialetos peruanos e eg\u00edpcios, e em cada l\u00edngua que conhece, e ele conhece in\u00fameras l\u00ednguas\u201d. Sim, \u201cin\u00fameras l\u00ednguas\u201d \u2013 mais a l\u00edngua pessoal, equivalente ao \u201cfalar em l\u00ednguas\u201d pentecostal: \u00e0s glossolalias, os fonemas n\u00e3o-semantizados dos rituais em doutrinas inici\u00e1ticas. Conforme a antrop\u00f3loga Felicitas Goodman, h\u00e1 padr\u00f5es em comum nessas manifesta\u00e7\u00f5es em contextos t\u00e3o distintos: cultos pentecostais, tribais e outras pr\u00e1ticas religiosas nas quais ocorrem transes ou possess\u00f5es (Goodman, em Eliade 1985, vol. VI, pgs. 563-566). Correspondem \u00e0 \u201coutra l\u00edngua\u201d aprendida pelos xam\u00e3s em seu trajeto inici\u00e1tico, segundo Eliade.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>Octavio Paz mostrou que a mesma manifesta\u00e7\u00e3o reaparecia em poetas modernos: Huidobro, Khl\u00e9bnikov, Artaud, Schwitters. Interpretou-a como tentativa de recuperar a linguagem ad\u00e2mica ou divina; aquela do tempo que precedeu a Queda (Paz 1991, no ensaio \u201cLeitura e contempla\u00e7\u00e3o\u201d). A fala sagrada, m\u00e1gica, \u00e9 n\u00e3o-significativa, puramente sonora, como tamb\u00e9m exp\u00f5e Gershom Scholem:\u201dO fato de que a atua\u00e7\u00e3o da palavra vai muito al\u00e9m de todo \u201centendimento\u201d \u00e9 algo que n\u00e3o precisa apoiar-se na especula\u00e7\u00e3o religiosa, pois tal \u00e9 a experi\u00eancia do poeta, do m\u00edstico e de todo falante que se delicia com o elemento sens\u00edvel da palavra.\u201d (Scholem 1999, p. 15)<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>Slim Gaillard foi, sem d\u00favida, um personagem sob medida para corresponder \u00e0 prefer\u00eancia de Kerouac por exc\u00eantricos e marginais. Mesti\u00e7o, teria nascido em Cuba, filho de uma afro-cubana e de um grego. Segundo outra vers\u00e3o, era norte-americano, de Detroit; levou uma vida errante, morou na \u00c1frica e de fato sabia oito l\u00ednguas, al\u00e9m de haver criado um dicion\u00e1rio para seu vocabul\u00e1rio particular. Como m\u00fasico, foi ao mesmo tempo um int\u00e9rprete t\u00edpico de blues, da mesma estirpe do exuberante Cab Calloway, e um precursor e improvisador. Seu \u201cTutti Frutti\u201d, dos anos de 1930, antecipou, de modo evidente, o rock que se imporia duas d\u00e9cadas mais tarde. E seu ecletismo o aproxima das modernas correntes \u2018fusion\u2019. Por haver misturado repert\u00f3rios e ter sido provocador e perform\u00e1tico (chegou a apresentar-se tocando piano com as palmas para cima e guitarra com a m\u00e3o esquerda, um comportamento ofensivo para profissionais), foi um marginal at\u00e9 no mundo jazz\u00edstico, embora se houvesse apresentado com Parker, Gillespie e outros expoentes.<br \/>\nO trecho sobre Gaillard, em especial, e os relatos de encontros com vagabundos, em geral, permitem uma interpreta\u00e7\u00e3o da devo\u00e7\u00e3o de Kerouac por tais personagens, tanto \u00e0 luz do misticismo, quanto liter\u00e1ria: eles falam. S\u00e3o oraculares, sibilinos: a frase cifrada, enigm\u00e1tica, \u00e9, assim como na Antiguidade, uma profecia. Representam a l\u00edngua falada em sua express\u00e3o mais genu\u00edna. A inten\u00e7\u00e3o de Kerouac \u2013 realizada especialmente em <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=152905&amp;ID=639450\" target=\"_blank\">Vis\u00f5es de Cody<\/a>, com suas p\u00e1ginas de transcri\u00e7\u00e3o de fita gravada \u2013 era trazer tais sons para a escrita.<\/i><\/b><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu blog, Claudio Willer escreveu um post onde centrava suas aten\u00e7\u00f5es sobre Slim Gaillard, m\u00fasico que ocupa algumas p\u00e1ginas de On the Road, de Jack Kerouac (219 a 221 na edi\u00e7\u00e3o da L&amp;PM). No recentemente lan\u00e7ado Os rebeldes: Gera\u00e7\u00e3o Beat e anarquismo m\u00edstico, de sua autoria, Willer tamb\u00e9m dedica alguns par\u00e1grafos para o jazzista. 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