﻿{"id":24603,"date":"2014-07-15T15:33:55","date_gmt":"2014-07-15T18:33:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=24603"},"modified":"2014-07-15T15:33:55","modified_gmt":"2014-07-15T18:33:55","slug":"millor-fernandes-e-a-arte-de-traduzir-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=24603","title":{"rendered":"Mill\u00f4r Fernandes e a arte de traduzir"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>Sobre tradu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=948848&amp;SubsecaoID=0&amp;Template=..\/livros\/layout_autor.asp&amp;AutorID=700032\" target=\"_blank\"><em>Por Mill\u00f4r Fernandes<\/em><\/a><\/p>\n<p>Passei boa parte de minha vida traduzindo furiosamente, sobretudo do ingl\u00eas. Para ser mais preciso, at\u00e9 os vinte anos, quando traduzi um livro de Pearl Buck para a Jos\u00e9 Olympio. O livro se chamava Dragon Seed, foi publicado com o nome de &#8220;A estirpe do drag\u00e3o&#8221; e, como eu n\u00e3o tinha contato com o editor, foi assinado pelo intermedi\u00e1rio, o escritor Ant\u00f4nio Pinto Nogueira de Accioly Netto, diretor da revista <em>O Cruzeiro<\/em>, mediante 60% dos direitos.<\/p>\n<p>Depois disso abandonei a profiss\u00e3o para nunca mais, por ser trabalho exaustivo, an\u00f4nimo, mal remunerado. S\u00f3 voltei \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o em 1960, com a pe\u00e7a &#8220;Good People&#8221; (<em>A f\u00e1bula de Brooklyn<\/em>), de Irwin Shaw, para o Teatro da Pra\u00e7a. Depois disso traduzi mais tr\u00eas ou quatro pe\u00e7as \u2013 entre elas &#8220;The Playboy of The Western World&#8221;, uma obra-prima, de tradu\u00e7\u00e3o quase imposs\u00edvel devido \u00e0 sua linguagem extremamente peculiar.<\/p>\n<p>Com a experi\u00eancia que tenho, hoje, em v\u00e1rios ramos de atividade cultural, considero a tradu\u00e7\u00e3o a mais dif\u00edcil das empreitadas intelectuais. \u00c9 mais dif\u00edcil mesmo do que criar originais, embora, claro, n\u00e3o t\u00e3o importante. E tanto isso \u00e9 verdade que, no que me diz respeito, continuo a achar aceit\u00e1veis alguns contos e outros trabalhos meus de vinte anos atr\u00e1s; mas n\u00e3o teria coragem de assinar nenhuma de minhas tradu\u00e7\u00f5es da mesma \u00e9poca. S\u00f3 hoje sou, do ponto de vista cultural e profissional, suficientemente amadurecido para traduzir. As tradu\u00e7\u00f5es, quase sem exce\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o falo s\u00f3 do Brasil), t\u00eam tanto a ver com o original quanto uma filha tem a ver com o pai ou um filho a ver com a m\u00e3e. Lembram, no todo, de onde sa\u00edram, mas, pra come\u00e7o de conversa, adquirem como que um outro sexo. No Brasil, especialmente (o problema econ\u00f4mico \u00e9 b\u00e1sico), entre o ir e o vir da tradu\u00e7\u00e3o perde-se o humor, a gra\u00e7a, o talento, a poesia, o pensamento, e, mais que tudo, o estilo do autor.<\/p>\n<p>Fica dito \u2013 n\u00e3o se pode traduzir sem ter uma filosofia a respeito do assunto. N\u00e3o se pode traduzir sem ter o mais absoluto respeito pelo original e, paradoxalmente, sem o atrevimento ocasional de desrespeitar a letra do original exatamente para lhe captar melhor o esp\u00edrito. N\u00e3o se pode traduzir sem o mais amplo conhecimento da l\u00edngua traduzida mas, acima de tudo, sem o f\u00e1cil dom\u00ednio da l\u00edngua para a qual se traduz. N\u00e3o se pode traduzir sem cultura e, tamb\u00e9m, contraditoriamente, n\u00e3o se pode traduzir quando se \u00e9 um erudito, profissional util\u00edssimo pelas informa\u00e7\u00f5es que nos presta \u2013 que seria de n\u00f3s sem os eruditos em Shakespeare? \u2013, mas cuja tend\u00eancia fatal \u00e9 empalhar a borboleta. N\u00e3o se pode traduzir sem intui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode traduzir sem ser escritor, com estilo pr\u00f3prio, originalidade sua, senso profissional. N\u00e3o se pode traduzir sem dignidade.<\/p><\/blockquote>\n<p>O texto acima foi retirado de uma entrevista para a revista <em>Senhor\u00a0<\/em>em 1962 e est\u00e1 no rec\u00e9m lan\u00e7ado <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=619066&amp;ID=845084\" target=\"_blank\"><em>Shakespeare traduzido por Mill\u00f4r<\/em><\/a> que traz as pe\u00e7as &#8220;Hamlet&#8221;, &#8220;A megera domada&#8221;, &#8220;O rei Lear&#8221; e &#8220;As alegres matronas de Windsor&#8221; no mesmo volume.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Shakespeare_traduzido_por_MF.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-24604\" alt=\"Shakespeare_traduzido_por_MF\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Shakespeare_traduzido_por_MF-682x1024.jpg\" width=\"450\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Shakespeare_traduzido_por_MF-682x1024.jpg 682w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Shakespeare_traduzido_por_MF-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Shakespeare_traduzido_por_MF.jpg 1654w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre tradu\u00e7\u00e3o Por Mill\u00f4r Fernandes Passei boa parte de minha vida traduzindo furiosamente, sobretudo do ingl\u00eas. 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