﻿{"id":23477,"date":"2014-02-12T10:06:56","date_gmt":"2014-02-12T12:06:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=23477"},"modified":"2014-02-12T10:06:56","modified_gmt":"2014-02-12T12:06:56","slug":"diarios-de-andy-warhol-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=23477","title":{"rendered":"Di\u00e1rios de Andy Warhol, parte II"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Antonio Bivar*<\/em><\/p>\n<p>No n\u00famero passado da J.P [<em><a href=\"http:\/\/joycepascowitch.uol.com.br\/\" target=\"_blank\">revista Joyce Pascowitch<\/a>]<\/em> esta coluna deu, com o t\u00edtulo \u201c<a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=23144\" target=\"_blank\">Brasileiros nos Di\u00e1rios de Andy Warhol<\/a>\u201d, os dias em que Andy comentava seus encontros com brasileiros nas festas nova-iorquinas na d\u00e9cada de 1970 e primeiros anos dos 80s. Pel\u00e9 era o mais citado, mas bem citados tamb\u00e9m eram Elizinha Gon\u00e7alves, Florinda Bolkan, <i>Santos<\/i> [Dumont] (o rel\u00f3gio de pulso da Cartier) e outros. S\u00e3o p\u00e9rolas como de resto todo o <i>au jour le jour<\/i> warholiano. Segundo o jornal ingl\u00eas <i>The Guardian<\/i>, \u201cos Di\u00e1rios s\u00e3o sua \u00faltima grande obra de arte\u201d. E s\u00e3o mesmo. Todas as manh\u00e3s, religiosamente Andy Warhol por telefone ditava \u00e0 Pat Hackett o que rolara na v\u00e9spera. Hackett gravava e depois editava. Warhol morreu em 1987 e com sua morte o di\u00e1rio parou. Dois anos depois, em 1989, os <a href=\"http:\/\/lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=607461&amp;ID=919274\" target=\"_blank\"><i>Di\u00e1rios de Andy Warhol<\/i><\/a> sa\u00edram num \u00fanico volume de mais de mil p\u00e1ginas. No Brasil foi publicado no mesmo ano, pela L&amp;PM, traduzido por Celso Loureiro Chaves. Em 2012, 23 anos depois, a editora lan\u00e7ou os <a href=\"http:\/\/lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=607461&amp;ID=919274\" target=\"_blank\"><i>Di\u00e1rios<\/i><\/a> em dois volumes populares L&amp;PM Pocket. M\u00eas passado aqui na revista compilei preciosidades do primeiro volume e agora passo aos do <a href=\"http:\/\/lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=607461&amp;ID=839463\" target=\"_blank\">Volume II<\/a>, que pegam os dias de 1982 a 1987. N\u00e3o preciso dizer mais sobre os dias agora compilados porque o <i>au jour le jour<\/i> de Andy Warhol vai direto ao ponto. G\u00eanio. T\u00eam todo o charme de \u201cantigamente a vida era assim\u201d. Vintage.<\/p>\n<blockquote><p><b>Quarta-feira, 17 de mar\u00e7o, 1982<\/b>. Jon veio me buscar \u00e0s 8 da noite e fomos para a casa de Diane von Furstenberg, que estava dando uma festa sem motivo espec\u00edfico, mas acho que talvez fosse para algu\u00e9m rico da Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p><b>Domingo, 4 de abril, 1982<\/b>. Havia um coquetel que Henry estava dando na casa de Anna Wintour, onde ela mora com aquele Michael Stone. Estou come\u00e7ando a achar que talvez Henry n\u00e3o saiba o que seja uma festa elegante, que talvez n\u00e3o tenha ido a muitas. Porque esta festa \u2013 quer dizer, nem serviram comida. Era das 6h30 \u00e0s 8h30 e s\u00f3 serviram bolachinhas. Havia tr\u00eas empregadas, mas e da\u00ed? N\u00e3o tinha comida!<\/p>\n<p><b>S\u00e1bado, 11 de setembro, 1982<\/b>. Decidi fazer um livro fotogr\u00e1fico de verdade de apartamentos de verdade. N\u00e3o casas fotogr\u00e1ficas como a <i>Architectural Digest<\/i> faz, mas s\u00f3 mostrando como as pessoas realmente moram. N\u00e3o \u00e9 uma boa ideia? Bianca acaba de conseguir um apartamento de dez quartos no El Dorado. Parece um lugar tipo Barbra Streisand.<\/p>\n<p><b>Segunda-feira, 20 de setembro, 1982<\/b>. Sa\u00ed mais cedo para chegar a tempo de ver Lana Turner na Bloomingdale\u2019s. Comprei um de seus livros. E ela disse, \u201cN\u00e3o sei se quero falar com voc\u00ea, tirei voc\u00ea das minhas ora\u00e7\u00f5es, voc\u00ea disse que eu era melhor quando n\u00e3o tinha encontrado Deus\u201d. Fiquei num estado de nervos terr\u00edvel, disse \u201cAh, n\u00e3o, Lana, voc\u00ea <i>tem <\/i>que rezar por mim, por favor me coloque de volta nas suas ora\u00e7\u00f5es!\u201d Finalmente ela autografou o livro e escreveu \u201cPara um amigo?\u201d, com um ponto de interroga\u00e7\u00e3o. Lana, seu cabelereiro bicha e eu est\u00e1vamos todos com o mesmo penteado.<\/p>\n<p><b>Quarta-feira, 27 de setembro, 1983<\/b>. Bianca ligou e me convidou para o almo\u00e7o para o ministro de cultura sandinista da Nicar\u00e1gua. Era uma mulher. Quer dizer, e a\u00ed ela ficou dizendo que a revolu\u00e7\u00e3o verdadeira est\u00e1 vencendo, que &#8220;est\u00e1 chegando a hora do povo\u201d. E, sei l\u00e1, \u00e9 tudo t\u00e3o abstrato, mas a\u00ed aquela noite na festa dos Heinz com todos aqueles rica\u00e7os republicanos tamb\u00e9m fiquei com uma sensa\u00e7\u00e3o de medo. \u00c9 como qualquer pessoa que tem poder, n\u00e3o vai querer que ningu\u00e9m mais tenha.<\/p>\n<p><b>Domingo, 4 de dezembro, 1983<\/b>. Depois fomos para o Four Seasons. Apertei a m\u00e3o de Jackie O., ela nunca mais me convidou para sua festa de natal, \u00e9 uma cretina. E agora eu nem iria se me convidasse. Eu a mandaria cuidar de seu nariz. Quer dizer, temos a mesma idade, portanto posso dizer-lhe algumas verdades. Embora eu ache que ela seja mais velha do que eu. Mas, a\u00ed, acho que todo mundo \u00e9 mais velho que eu.<\/p>\n<p><b>Quarta-feira, 2 de maio, 1984<\/b>. Estou com nojo da maneira como tenho vivido, de todo esse lixo, de levar sempre mais coisas para casa. Tudo o que quero s\u00e3o s\u00f3 paredes brancas e um ch\u00e3o limpo. N\u00e3o ter nada \u00e9 a \u00fanica coisa chique. Quer dizer, por que \u00e9 que as pessoas <i>possuem<\/i> coisas? \u00c9 realmente idiota.<\/p>\n<p><b>Segunda-feira, 4 de junho, 1984<\/b>. Tinha que embarcar a \u201cMarilyn\u201d, foi um pouco deprimente. Para aquele tal Saatchi na Inglaterra. Vai ajudar no nosso pagamento da hipoteca e coisas assim, mas n\u00e3o sei se foi uma boa ideia vender.<\/p>\n<p><b>Domingo, 24 de junho, 1984<\/b>. Comprei maquiagem na Patricia Field (maquiagem $28,70, t\u00e1xi $7.50). Comprei vermelho japon\u00eas. Mas gosto daquelas coisas da Fiorucci que s\u00e3o apenas uma mancha que d\u00e1 aos l\u00e1bios da gente um marrom natural. Porque meus l\u00e1bios eram t\u00e3o carnudos e agora n\u00e3o s\u00e3o, desapareceram. Para onde ter\u00e3o ido?<\/p>\n<p><b>Domingo, 5 de agosto, 1984<\/b>. Enfim, Jean Michel [Basquiat] queria que eu fosse ver suas pinturas na Great Jones Street, ent\u00e3o fomos l\u00e1 e \u00e9 um chiqueiro. O amigo dele, Shenge, o negro, mora com ele e deveria estar tomando conta daquilo, mas \u00e9 um chiqueiro. E tudo cheira a maconha. Me deu algumas pinturas para eu trabalhar. Fui embora (t\u00e1xi $8).<\/p>\n<p><b>Ter\u00e7a-feira, 9 de outubro, 1984<\/b>. Anivers\u00e1rio de Sean Lennon. E fomos para o Dakota. Vig\u00edlia na frente do pr\u00e9dio porque o dia 9 \u00e9 anivers\u00e1rio de Sean e de John. Yoko correu para chamar Sean. Fomos para o quarto de Sean \u2013 havia um garoto l\u00e1 instalando o computador Apple que Sean ganhou de presente, o modelo MacIntosh. Eu disse que uma vez algu\u00e9m tinha me ligado querendo me dar um, mas eu nunca liguei de volta, e a\u00ed o garoto me olhou e disse, \u201cClaro, era eu, sou Steve Jobs\u201d. E tem um ar t\u00e3o jovem, como um universit\u00e1rio. Ele disse que ainda quer me dar um computador. E que vai me ensinar a desenhar com ele. Ainda vem apenas em preto e branco, mas logo v\u00e3o fazer a cores.<\/p>\n<p><b>S\u00e1bado, 23 de mar\u00e7o, 1985<\/b>. E fiquei seguindo [Greta] Garbo pelas ruas. Tirei fotos dela. Tenho certeza de que era ela. Estava de \u00f3culos escuros, um casaco enorme, cal\u00e7as compridas e aquela boca, e ela entrou na loja Trade Horn para conversar com uma mulher sobre TVs. Exatamente o tipo de coisa que ela faria. A\u00ed tirei fotos dela at\u00e9 achar que ela ficaria furiosa e ent\u00e3o fui a p\u00e9 para downtown. Eu tamb\u00e9m estava sozinho (risos). <b>S\u00e1bado, 13 de julho, 1985<\/b>. Vi aquela coisa, Live Aid, na TV. Jack Nicholson apresentou Bob Dylan e o chamou de \u201ctranscendental\u201d. S\u00f3 que para mim Dylan nunca foi realmente de verdade \u2013 sempre copiou pessoas de verdade e as anfetaminas fizeram com que parecesse m\u00e1gico. Com as anfetaminas ele conseguia copiar todas as palavras certas e faz\u00ea-las parecer verdadeiras. Mas aquele garoto nunca sentiu absolutamente nada \u2013 (risos) a mim ele nunca enganou.<\/p>\n<p><b>Segunda-feira, 22 de julho, 1985<\/b>. Fui \u00e0 pr\u00e9-estreia de <i>Beijo da<\/i> <i>Mulher Aranha<\/i> (t\u00e1xi $5). \u00c9 o filme que Jane Holzer produziu com David Weisman, aquele cara do <i>Ciao Manhattan<\/i>. N\u00e3o o suporto, portanto odeio ter que dizer que gostei do filme. Acho que agora as pessoas est\u00e3o querendo mais filmes de arte, ou algo assim, \u00e9 a hora certa.<\/p>\n<p><b>Sexta-feira, 16 de agosto, 1985<\/b> <b>\u2013 Los Angeles<\/b>. Foi mesmo o fim de semana mais excitante da minha vida. Fomos de limusine at\u00e9 Malibu e quando vimos os helic\u00f3pteros l\u00e1 longe desconfiamos que era por causa do casamento. Uns dez helic\u00f3pteros estavam ali por cima, era igual <i>Apocalypse Now<\/i>. Olhei para Madonna bem de perto e ela \u00e9 linda. E a \u00fanica celebridade chata mesmo era Diane Keaton. Sean veio nos cumprimentar e a fam\u00edlia bonita de Madonna estava l\u00e1, todos os irm\u00e3os. E d\u00e1 para perceber que Madonna e Sean se amam muito, foi a coisa mais excitante do mundo. Ah, e quando est\u00e1vamos indo embora n\u00e3o consegui acreditar: Tom Cruise pulou para o nosso carro para fugir dos fot\u00f3grafos. Tirei uma foto dele. Fred e eu achamos que o casamento de Marisa [Berenson] foi mais glamuroso, mas este foi espetacular por causa dos helic\u00f3pteros.<\/p>\n<p><b>S\u00e1bado, 17 de agosto, 1985<\/b> <b>\u2013 Los Angeles<\/b>. E Cher foi divertida. E nos contou que durante o casamento Madonna pediu a ela que lhe ensinasse a cortar o bolo. Cher disse, \u201cComo se eu soubesse\u201d. E a\u00ed Madonna ficou passando as fatias com a m\u00e3o. Sabe, estava sendo \u201cbem terra\u201d.<\/p>\n<p><b>Quarta-feira, 9 de outubro, 1985<\/b>. E eu matei uma barata e foi um trauma. Um trauma enorme mesmo. Fiquei me sentindo horr\u00edvel.<\/p>\n<p><b>S\u00e1bado, 19 de outubro, 1985<\/b>. Encontrei Bill Katz, que se rasgou em elogios sobre minha exposi\u00e7\u00e3o conjunta com Jean Michel [Basquiat] na galeria de Tony Shafrazi. Encerra esta semana. Jean Michel est\u00e1 ganhando todos os elogios, n\u00e3o eu. E Tony n\u00e3o est\u00e1 muito contente, parece que n\u00e3o vendeu muita coisa.<\/p>\n<p><b>Domingo, 3 de novembro, 1985<\/b>. Ah, e como \u00e9 que a gente se livra de ficar velho? Minha m\u00e3e tinha a idade que tenho agora quando veio para Nova York. Naquela \u00e9poca eu achava que ela era realmente velha. Mas a\u00ed ela chegou aos oitenta. Tinha muita energia.<\/p>\n<p><b>Domingo, 9 de mar\u00e7o, 1986<\/b>. Dizem no <i>Times<\/i> que Imelda Marcos deixou 3 mil pares de sapatos nas Filipinas. Talvez ela <i>fosse<\/i> trash. E encontraram material porn\u00f4 no quarto de Marcos. [E em <b>16 de<\/b> <b>mar\u00e7o<\/b>:] E os Marcos ainda est\u00e3o no notici\u00e1rio. Agora encontraram 3 mil calcinhas pretas. E a conta deles no Bulgari chegava a $1 milh\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Sexta-feira, 25 de abril, 1986<\/b>. Li nos jornais que Grace Jones vai me levar ao casamento Schwarzenegger-Shriver no <i>seu<\/i> avi\u00e3o, a\u00ed acho que Grace ligou para o seu assessor de imprensa e pediu para divulgar. Portanto acho que estamos mesmo indo. Trabalhei nos desenhos de Maria Shriver que vou dar de presente de casamento.<\/p>\n<p><b>S\u00e1bado, 26 de abril, 1986 \u2013 Nova York-Hyannis, Massachusetts-Nova York<\/b>. E apreciando aquele casamento de conto de fadas n\u00e3o dava para deixar de pensar em como vai ser quando chegar a hora do div\u00f3rcio. Jackie comungou e por isso caminhou por toda a igreja com John-John s\u00f3 para se mostrar. Estava linda. A missa durou uma hora e o casamento levou quinze minutos. Uma mulher cantou \u201cAve Maria\u201d.<\/p>\n<p><b>Ter\u00e7a-feira, 14 de outubro, 1986<\/b>. Briguei com Fred [Hughes]. Ele est\u00e1 ficando cada dia mais parecido com Diana Vreeland. Eu digo que <i>Interview<\/i> \u00e9 uma revista pequena e ele diz n\u00e3o n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. E n\u00e3o me deixa dar opini\u00f5es sobre o assunto. Eu digo, \u201cFred, <i>Time<\/i> \u00e9 uma \u2018revista grande\u2019. Eles cobram $75 mil por p\u00e1gina. N\u00f3s cobramos 3 mil.\u201d E ele diz, \u201cN\u00e3o, n\u00e3o, n\u00f3s cobramos $3.1 mil\u201d. Quer dizer, &#8230;<\/p>\n<p><b>Domingo, 25 de janeiro, 1987<\/b>. Kenny Scharf ligou tentando me convencer a comprar terras no Brasil e eu estava pronto para lhe enviar um cheque, mas da\u00ed Fred gritou comigo por causa desse assunto quando est\u00e1vamos na Fran\u00e7a, insistindo que s\u00e3o apenas vendas de mercado negro, sem contrato algum e nenhuma prova de que a gente \u00e9 realmente o dono. Mas \u00e9 muito barato. E a Paige queria entrar nisso comigo e at\u00e9 iria l\u00e1 durante uma semana para verificar as coisas. A gente ganha (risos) um coqueiro s\u00f3 pra gente. Mas dizem que h\u00e1 muitas mortes por l\u00e1 e que podem tirar a terra da gente a qualquer momento. Mas, ei, \u00e9 muito <i>barato<\/i>.<\/p><\/blockquote>\n<p><em>* Texto escrito para a edi\u00e7\u00e3o de fevereiro de 2014 da\u00a0<a href=\"http:\/\/joycepascowitch.uol.com.br\/\" target=\"_blank\">revista Joyce Pascowitch<\/a><\/em>, em breve nas bancas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Antonio Bivar* No n\u00famero passado da J.P [revista Joyce Pascowitch] esta coluna deu, com o t\u00edtulo \u201cBrasileiros nos Di\u00e1rios de Andy Warhol\u201d, os dias em que Andy comentava seus encontros com brasileiros nas festas nova-iorquinas na d\u00e9cada de 1970 e primeiros anos dos 80s. 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