﻿{"id":23277,"date":"2014-01-21T10:48:53","date_gmt":"2014-01-21T12:48:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=23277"},"modified":"2014-01-21T10:58:46","modified_gmt":"2014-01-21T12:58:46","slug":"no-prefacio-de-o-idiota-da-familia-sartre-explica-por-que-escolheu-flaubert","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=23277","title":{"rendered":"No pref\u00e1cio de &#8220;O idiota da fam\u00edlia&#8221;, Sartre explica por que escolheu Flaubert"},"content":{"rendered":"<p><i>O idiota da fam\u00edlia <\/i>\u00e9 a continua\u00e7\u00e3o de <i>Quest\u00f5es de m\u00e9todo<\/i>. Seu tema: o que se pode saber de um homem, hoje em dia? Pareceu-me que s\u00f3 poder\u00edamos responder a esta pergunta atrav\u00e9s do estudo de um caso concreto: o que sabemos \u2013 por exemplo \u2013 de Gustave Flaubert? Para isso, precisaremos totalizar as informa\u00e7\u00f5es de que dispomos a seu respeito. Nada prova, a princ\u00edpio, que essa totaliza\u00e7\u00e3o seja poss\u00edvel e que a verdade de uma pessoa n\u00e3o seja plural; os dados s\u00e3o muito<\/p>\n<p>diferentes por natureza: ele nasceu em dezembro de 1821, em Rouen \u2013 eis um tipo; ele escreveu \u00e0 amante, muito tempo depois: \u201cA Arte me espanta\u201d \u2013 eis outro. O primeiro \u00e9 um fato objetivo e social, confirmado por documentos oficiais; o segundo, tamb\u00e9m objetivo quando n\u00f3s nos atemos \u00e0 coisa dita, remete, por seu significado, a um sentimento vivido, e nada decidiremos sobre o sentido e o alcance desse sentimento se antes n\u00e3o tivermos estabelecido se Gustave \u00e9 sincero, em geral e, em especial, nesta circunst\u00e2ncia. N\u00e3o correremos o risco de chegar a camadas de significados heterog\u00eaneos e irredut\u00edveis? Este livro tenta provar que a irredutibilidade \u00e9 apenas aparente e que cada informa\u00e7\u00e3o, colocada em seu devido lugar, torna-se a parte de um todo que est\u00e1 constantemente sendo feito e, ao mesmo tempo, revela sua profunda homogeneidade com todas as outras partes.<\/p>\n<p>Afinal, um homem nunca \u00e9 um indiv\u00edduo; seria melhor cham\u00e1-lo de universal singular: totalizado e, por isso mesmo, universalizado por sua \u00e9poca, ele a retotaliza ao reproduzir-se nela como singularidade. Universal pela universalidade singular da hist\u00f3ria humana, singular pela singularidade universalizante de seus projetos, ele exige ser estudado a um s\u00f3 tempo pelas duas pontas. Precisaremos encontrar um m\u00e9todo apropriado. Apresentei os princ\u00edpios de um em 1958 e n\u00e3o repetirei o que disse ent\u00e3o: prefiro mostrar, sempre que necess\u00e1rio, como ele se faz no pr\u00f3prio trabalho para obedecer \u00e0s exig\u00eancias de seu objeto.<\/p>\n<p>Uma \u00faltima palavra: por que Flaubert? Por tr\u00eas motivos. O primeiro, bastante pessoal, h\u00e1 muito tempo deixou de valer, apesar de estar na origem dessa escolha: em 1943, ao reler sua <i>Correspond\u00eancia<\/i> na m\u00e1 edi\u00e7\u00e3o Charpentier, tive a sensa\u00e7\u00e3o de ter contas a ajustar com ele e de que devia, para isso, conhec\u00ea-lo melhor. Desde ent\u00e3o, minha antipatia inicial transformou-se em <i>empatia<\/i>, \u00fanica atitude exigida para compreender. Por outro lado, ele se objetivou em seus livros. Qualquer um pode dizer: \u201cGustave Flaubert \u00e9 o autor de <i>Madame Bovary<\/i>\u201d. Mas qual a rela\u00e7\u00e3o do homem com a obra? Eu nunca falei sobre isso at\u00e9 ent\u00e3o. Nem ningu\u00e9m, que eu saiba. Veremos que \u00e9 dupla: <i>Madame<\/i> <i>Bovary <\/i>\u00e9 derrota e vit\u00f3ria; o homem que se mostra na derrota n\u00e3o \u00e9 o mesmo exigido para sua vit\u00f3ria; ser\u00e1 preciso entender o que isso significa. Por fim, suas primeiras obras e sua correspond\u00eancia (treze volumes publicados) manifestam-se, veremos, como a mais estranha confid\u00eancia, a mais facilmente decifr\u00e1vel: como se ouv\u00edssemos um neur\u00f3tico falando \u201cao acaso\u201d no div\u00e3 do psicanalista. Acreditei que me seria permitido, para esta dif\u00edcil prova\u00e7\u00e3o, escolher um tema f\u00e1cil, que se revelasse com facilidade e sem o saber. Acrescento que Flaubert, criador do romance \u201cmoderno\u201d, est\u00e1 na interse\u00e7\u00e3o de todos os nossos problemas liter\u00e1rios de hoje.<\/p>\n<p>Agora, \u00e9 preciso come\u00e7ar. Como? Pelo qu\u00ea? Pouco importa: podemos entrar em um morto da maneira que quisermos. O essencial \u00e9 partir de um problema. Daquele que escolhi, em geral pouco se fala. Leiamos, no entanto, um trecho de uma carta \u00e0 srta. Leroyer de Chantepie: \u201c\u00c9 de tanto trabalhar que consigo calar minha melancolia natural. Mas o velho fundo muitas vezes reaparece, o velho fundo que ningu\u00e9m conhece, a chaga profunda sempre escondida\u201d.* O que isso quer dizer? Uma chaga pode ser natural? De todo modo, Flaubert nos remete \u00e0 sua proto-hist\u00f3ria. O que se precisa tentar conhecer \u00e9 a origem dessa chaga \u201csempre escondida\u201d e que, <i>de todo modo<\/i>, tem origem em sua primeira inf\u00e2ncia. Este n\u00e3o ser\u00e1, acredito, um mau come\u00e7o. (Jean-Paul Sartre, Pref\u00e1cio de <em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=526091&amp;ID=264505\" target=\"_blank\">O idiota da fam\u00edlia<\/a>)<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_23294\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/caricatura_sartre_flaubert.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-23294\" class=\"size-full wp-image-23294\" alt=\"Em 7 de maior de 1971, o &quot;Figaro litt\u00e9raire&quot; publicou uma caricatura feito por J. Redon em que Sartre vai se transformando em Flaubert\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/caricatura_sartre_flaubert.jpg\" width=\"450\" height=\"206\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/caricatura_sartre_flaubert.jpg 600w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/caricatura_sartre_flaubert-300x137.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-23294\" class=\"wp-caption-text\">Em 7 de maior de 1971, o &#8220;Figaro litt\u00e9raire&#8221; publicou uma caricatura feito por J. Redon em que Sartre vai se transformando em Flaubert<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O idiota da fam\u00edlia \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o de Quest\u00f5es de m\u00e9todo. Seu tema: o que se pode saber de um homem, hoje em dia? 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