﻿{"id":23001,"date":"2013-12-06T11:40:54","date_gmt":"2013-12-06T13:40:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=23001"},"modified":"2013-12-06T11:40:54","modified_gmt":"2013-12-06T13:40:54","slug":"depois-do-almoco-dostoievski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=23001","title":{"rendered":"Depois do almo\u00e7o, Dostoi\u00e9vski"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>Por Jos\u00e9 Antonio Pinheiro Machado*<\/em><\/p>\n<p>Conheci Dostoi\u00e9vski em Xangril\u00e1, depois do almo\u00e7o. \u00c9 uma das tantas d\u00edvidas que o Ivan e eu temos com nosso pai: na base do centralismo democr\u00e1tico stalinista, ligeiramente tropicalizado, o pai nos imp\u00f4s um programa obrigat\u00f3rio de leituras. Longe da cidade que \u00e9 hoje, a Xangril\u00e1 da nossa adolesc\u00eancia era um descampado, o Nordest\u00e3o desenhando c\u00f4moros no areal entre as poucas casas. N\u00e3o havia muito o que fazer: depois do banho de mar, o almo\u00e7o demorado e, a partir daquele dia, a tarde come\u00e7ava com duas horas de Dostoi\u00e9vski.<\/p>\n<p>O livro escolhido para minha inicia\u00e7\u00e3o, nos dias de hoje, talvez provocasse a interven\u00e7\u00e3o do Conselho Tutelar ou do Juizado da Inf\u00e2ncia e da Juventude: <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=636453&amp;ID=537283\" target=\"_blank\"><em>Crime e Castigo<\/em><\/a>! Abri contrafeito o pesado volume encadernado em couro e, logo depois de ler os primeiros par\u00e1grafos, ainda me recordo do impacto inesperado. Anos se passaram, e Jorge Luis Borges, na escurid\u00e3o de sua cegueira, iluminaria, em duas frases, aquela minha perplexidade juvenil: \u201cComo a descoberta do amor, como a descoberta do mar, a descoberta de Dostoi\u00e9vski marca uma data memor\u00e1vel de nossa vida. Em geral, corresponde \u00e0 adolesc\u00eancia; a maturidade busca e descobre escritores serenos\u201d.<\/p>\n<p>Naquele dia, por momentos o Nordest\u00e3o deixou de assobiar, o c\u00e9u azul do azul lavado pela chuva, do verso de Paulo Mendes Campos, perdeu sua atra\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel, e o dia l\u00edmpido e ensolarado lentamente foi substitu\u00eddo pela urg\u00eancia da emo\u00e7\u00e3o nova e avassaladora daquela primeira leitura. Borges deve ter vivido algo parecido na juventude em Genebra: \u201cLer um livro de Dostoi\u00e9vski \u00e9 penetrar em uma grande cidade, que desconhecemos, ou nas sombras de uma batalha\u201d. A hist\u00f3ria do jovem Raskolnikov \u00e9 soberba, contada de forma magn\u00edfica. Estudante pobre, cheio de sonhos, divide os indiv\u00edduos entre ordin\u00e1rios e extraordin\u00e1rios e se imp\u00f5e a miss\u00e3o de fazer algo realmente importante, ainda que seja uma viola\u00e7\u00e3o \u00e0s leis. Escolhe matar com viol\u00eancia uma velha agiota e, ao fugir, tamb\u00e9m assassina a irm\u00e3 da v\u00edtima, que apareceu de surpresa e testemunhou o crime. Rouba algumas joias, que acaba por descartar, atormentado pela culpa. O romance brilha no relato do remorso sem rem\u00e9dio que persegue o personagem como uma dana\u00e7\u00e3o. Quando um inocente \u00e9 preso, Raskolnikov assume o crime e \u00e9 condenado. Diversas hist\u00f3rias paralelas refor\u00e7am o eixo principal da narrativa, entre elas, a rela\u00e7\u00e3o do protagonista com Sonia, que o encoraja a confessar o crime. Toda a mis\u00e9ria e toda a grandeza da condi\u00e7\u00e3o humana transbordavam daquelas p\u00e1ginas. Mas nem todos se emocionaram tanto assim. No pref\u00e1cio de uma antologia da literatura russa, Nabokov escreveu que n\u00e3o encontrou uma \u00fanica p\u00e1gina de Dostoi\u00e9vski digna de ser inclu\u00edda. Borges recusou essa afronta com uma verdade salpicada de ironia: \u201cIsso quer dizer que Dostoi\u00e9vski n\u00e3o deve ser julgado por p\u00e1ginas soltas, e sim pela soma de p\u00e1ginas que comp\u00f5e o livro\u201d.<\/p>\n<p><em>* Cr\u00f4nica publicada originalmente na Coluna do Anonymus Gourmet, publicada\u00a0no\u00a0caderno Gastr\u00f4 do Jornal Zero Hora em 6 de dezembro de 2013.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/crime_castigo_praia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-23002\" alt=\"crime_castigo_praia\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/crime_castigo_praia-1024x841.jpg\" width=\"450\" height=\"369\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/crime_castigo_praia-1024x841.jpg 1024w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/crime_castigo_praia-300x246.jpg 300w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/crime_castigo_praia.jpg 1460w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Antonio Pinheiro Machado* Conheci Dostoi\u00e9vski em Xangril\u00e1, depois do almo\u00e7o. \u00c9 uma das tantas d\u00edvidas que o Ivan e eu temos com nosso pai: na base do centralismo democr\u00e1tico stalinista, ligeiramente tropicalizado, o pai nos imp\u00f4s um programa obrigat\u00f3rio de leituras. 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