﻿{"id":22694,"date":"2013-11-06T16:12:54","date_gmt":"2013-11-06T18:12:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=22694"},"modified":"2013-11-06T16:12:54","modified_gmt":"2013-11-06T18:12:54","slug":"lou-reed-por-patti-smith","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=22694","title":{"rendered":"Lou Reed por Patti Smith"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>No domingo de manh\u00e3, me levantei cedo. Tinha decidido na noite anterior ir\u00a0para o mar, ent\u00e3o coloquei um livro e uma garrafa de \u00e1gua dentro de um saco\u00a0e peguei a estrada para Rockaway Beach. Parecia uma data significativa, mas\u00a0n\u00e3o consegui conjurar nada espec\u00edfico. A praia estava vazia e, com a\u00a0proximidade do anivers\u00e1rio do furac\u00e3o Sandy, o mar calmo parecia encarnar a\u00a0verdade contradit\u00f3ria da natureza. Fiquei l\u00e1 por um tempo, acompanhando o\u00a0caminho de um avi\u00e3o que voava baixo, quando ent\u00e3o recebi uma mensagem de texto\u00a0de minha filha, Jesse. Lou Reed estava morto. Vacilei e respirei fundo. Eu\u00a0o tinha visto recentemente com sua esposa, Laurie, e senti que ele estava\u00a0doente. Um cansa\u00e7o sombreava seu brilho habitual. Quando Lou se despediu, seus\u00a0olhos escuros pareciam conter uma tristeza infinita e benevolente.<\/em><\/p>\n<p><em>Conheci Lou no Max\u2019s Kansas City em 1970. O &#8220;The Velvet Underground&#8221; fazia duas\u00a0apresenta\u00e7\u00f5es por noite ali, ao longo de v\u00e1rias semanas naquele ver\u00e3o. O cr\u00edtico e\u00a0estudioso Donald Lyons estava impressionado com o fato de eu nunca t\u00ea-los visto, e ele\u00a0me levou l\u00e1 em cima para a segunda apresenta\u00e7\u00e3o da primeira noite. Adoro dan\u00e7ar, e voc\u00ea podia dan\u00e7ar por horas com a m\u00fasica do &#8220;The Velvet\u00a0Underground&#8221;. Uma onda dissonante de &#8220;doo-wop&#8221; que permite que voc\u00ea se mexa\u00a0muito r\u00e1pido ou muito lentamente. Foi a minha introdu\u00e7\u00e3o tardia e reveladora a\u00a0&#8220;Sister Ray&#8221;.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_22697\" style=\"width: 396px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Patti_lou_jovens.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-22697\" class=\" wp-image-22697  \" alt=\"Patti_lou_jovens\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Patti_lou_jovens.jpg\" width=\"386\" height=\"386\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Patti_lou_jovens.jpg 669w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Patti_lou_jovens-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/Patti_lou_jovens-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 386px) 100vw, 386px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-22697\" class=\"wp-caption-text\">Patti Smith e Lou Reed no in\u00edcio dos anos 70<\/p><\/div>\n<p><em>Alguns anos depois, na mesma pe\u00e7a no andar de cima do Max&#8217;s, Lenny Kaye,\u00a0Richard Sohl e eu apresentamos nossa pr\u00f3pria &#8220;land of a thousand dances&#8221;. Lou\u00a0costumava parar para ver o que est\u00e1vamos fazendo. Um homem complicado, ele\u00a0encorajava nossos esfor\u00e7os, mas depois mudava e me provocava como um garotinho\u00a0maquiav\u00e9lico. Eu tentava desviar dele, mas, felino, ele reaparecia de repente\u00a0e me desarmava com alguma cita\u00e7\u00e3o de Delmore Schwartz sobre amor ou coragem.\u00a0Eu n\u00e3o entendia seu comportamento err\u00e1tico ou a intensidade dos seus humores,\u00a0que variavam, assim como seus padr\u00f5es de fala, de r\u00e1pidos a lac\u00f4nicos. Mas eu\u00a0entendia sua devo\u00e7\u00e3o \u00e0 poesia e a qualidade arrebatadora de suas performances.<\/em><\/p>\n<p><em>Ele tinha olhos pretos, camiseta preta, pele branca. Ele era curioso, \u00e0s vezes\u00a0suspeito, um leitor voraz, e um explorador sonoro. Um obscuro pedal de\u00a0guitarra era, para ele, um outro tipo de poema. Ele era a nossa liga\u00e7\u00e3o com o\u00a0ar infame da Factory. Ele tinha feito Edie Sedgwick dan\u00e7ar. Andy Warhol\u00a0sussurrou em seu ouvido. Lou trouxe a sensibilidade da arte e da literatura\u00a0para sua m\u00fasica. Ele era o poeta novaiorquino da nossa gera\u00e7\u00e3o, defendendo os\u00a0desajustados como Whitman tinha defendido seus trabalhadores e Lorca seus\u00a0perseguidos.<\/em><\/p>\n<p><em>Como minha banda trabalhou suas can\u00e7\u00f5es, Lou nos concedeu suas b\u00ean\u00e7\u00e3os. Perto\u00a0do final da d\u00e9cada de setenta, eu estava me preparando para deixar Nova York rumo a Detroit, quando cruzei com ele no elevador no antigo Gramercy Park Hotel. Eu\u00a0estava carregando um livro de poemas de Rupert Brooke. Ele pegou o livro da\u00a0minha m\u00e3o e n\u00f3s olhamos juntos para a fotografia do poeta. T\u00e3o lindo, disse\u00a0ele, t\u00e3o triste. Foi um momento de completa paz.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_22698\" style=\"width: 346px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/patti_lou_maisvelhos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-22698\" class=\"size-full wp-image-22698 \" alt=\"Patti Smith e Lou Reed nos anos 2000\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/patti_lou_maisvelhos.jpg\" width=\"336\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/patti_lou_maisvelhos.jpg 336w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/patti_lou_maisvelhos-300x289.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-22698\" class=\"wp-caption-text\">Patti Smith e Lou Reed nos anos 2000<\/p><\/div>\n<p><em>Enquanto a not\u00edcia da morte de Lou se espalhava, uma sensa\u00e7\u00e3o ondulante se\u00a0instalava, ent\u00e3o explodiu, enchendo a atmosfera com uma energia vibrante.\u00a0Dezenas de mensagens chegaram at\u00e9 mim. Uma chamada de Sam Shepard, que dirigia\u00a0um caminh\u00e3o por Kentucky. Um fot\u00f3grafo japon\u00eas desconhecido me mandou uma\u00a0mensagem direto de Tokyo: &#8220;Eu estou chorando&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>Como meu luto estava no mar, duas imagens me vieram \u00e0 mente, marcas d&#8217;\u00e1gua num\u00a0papel \u2013 c\u00e9u colorido. O primeiro era o rosto de sua esposa, Laurie. Ela era\u00a0o seu espelho; em seus olhos, voc\u00ea pode ver a sua bondade, a sinceridade e a\u00a0empatia. O segundo foi o \u201cgreat big clipper ship\u201d, que ele desejava embarcar,\u00a0da letra de sua obra-prima, &#8220;Heroin&#8221;. Eu imaginava que isso estava \u00e0 sua espera sob a constela\u00e7\u00e3o formada pelas almas dos poetas, da qual ele tanto desejava\u00a0participar. Antes de dormir, eu procurei o significado da data &#8211; 27 de outubro\u00a0&#8211; e descobri que era o anivers\u00e1rio de Dylan Thomas e Sylvia Plath. Lou tinha\u00a0escolhido &#8220;the perfect day&#8221; para zarpar &#8211; o dia dos poetas, &#8220;Sunday morning,\u00a0the world behind him&#8221;.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O texto acima, escrito por Patti Smith, foi <a href=\"http:\/\/www.newyorker.com\/talk\/2013\/11\/11\/131111ta_talk_smith\" target=\"_blank\">originalmente publicado na<em> New Yorker<\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Patti Smith e Lou Reed s\u00e3o personagens do livro <em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=928094&amp;ID=644516\" target=\"_blank\">Mate-me por favor &#8211; a hist\u00f3ria sem censura do punk<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No domingo de manh\u00e3, me levantei cedo. Tinha decidido na noite anterior ir\u00a0para o mar, ent\u00e3o coloquei um livro e uma garrafa de \u00e1gua dentro de um saco\u00a0e peguei a estrada para Rockaway Beach. 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