﻿{"id":22534,"date":"2018-10-22T15:47:39","date_gmt":"2018-10-22T17:47:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=22534"},"modified":"2018-10-22T16:47:50","modified_gmt":"2018-10-22T18:47:50","slug":"nenhum-escritor-pode-ser-transformado-em-instituicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=22534","title":{"rendered":"&#8220;Nenhum escritor pode ser transformado em institui\u00e7\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Com essa premissa, <a href=\"https:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?FiltroStr=jean-paul+sartre&amp;FiltroCampo=ALL&amp;I1.x=0&amp;I1.y=0&amp;Template=..%2Flivros%2Flayout_buscaprodutos.asp\">Jean-Paul Sartre <\/a>recusou o pr\u00eamio Nobel de Literatura em 22 de outubro de 1964. No dia seguinte \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o, Sartre publicou um longo texto no jornal franc\u00eas &#8220;Le Figaro&#8221;,\u00a0explicando seus motivos. Leia abaixo a carta:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cLamento vivamente que este assunto tenha tomado a apar\u00eancia de um esc\u00e2ndalo; um pr\u00eamio foi concedido e algu\u00e9m o recusa. Isto se deve ao fato de que n\u00e3o fui informado devidamente a tempo do que se preparava. Li no \u201cLe Figaro Litteraire\u201d, de 15 do corrente m\u00eas, sob a assinatura do correspondente sueco deste jornal, que a maioria na Academia Sueca era a meu favor, mas n\u00e3o havia sido ainda definitivamente fixada, pelo que bastava escrever uma carta \u00e0 academia, o que fiz no dia seguinte, para p\u00f4r um ponto final ao assunto e n\u00e3o mais se falasse dele. Eu ignorava, ent\u00e3o, que o Pr\u00eamio Nobel \u00e9 outorgado sem que se pe\u00e7a a opini\u00e3o ao interessado e pensei que ainda era tempo de imped\u00ed-lo. Mas compreendo muito bem que quando a Academia Sueca faz sua escolha, j\u00e1 n\u00e3o pode voltar atr\u00e1s. As raz\u00f5es pelas quais renuncio ao pr\u00eamio n\u00e3o se referem nem \u00e0 Academia Sueca, nem ao Pr\u00eamio Nobel em si, como j\u00e1 expliquei em minha carta \u00e0 Academia. Nela invoquei duas esp\u00e9cies de raz\u00f5es; raz\u00f5es pessoais e raz\u00f5es objetivas. As raz\u00f5es pessoais s\u00e3o as seguintes: minha negativa n\u00e3o \u00e9 um ato improvisado. Sempre recusei as distin\u00e7\u00f5es oficiais. Quando, depois da guerra, em 1945, me propuseram a Legi\u00e3o de Honra, recusei-a, apesar de possuir amigos no Governo. Igualmente nunca aceitei ingressar no Col\u00e9gio de Fran\u00e7a como sugeriram alguns de meus amigos. Esta atitude \u00e9 baseada em minha concep\u00e7\u00e3o do trabalho do escritor. Um escritor que assume posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais ou liter\u00e1rias somente deve agir com meios que lhes s\u00e3o pr\u00f3prios, isto \u00e9, com a palavra escrita. Todas as distin\u00e7\u00f5es que possa receber exp\u00f5em seus leitores a uma press\u00e3o que n\u00e3o considero desej\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa se eu assino Jean-Paul Sartre que se eu assino Jean-Paul Sartre, Pr\u00eamio Nobel. O escritor que aceita uma distin\u00e7\u00e3o deste g\u00eanero compromete, tamb\u00e9m, a associa\u00e7\u00e3o ou institui\u00e7\u00e3o que a outorga: minhas simpatias pelos guerrilheiros venezuelanos somente a mim comprometem, mas se o Pr\u00eamio Nobel Jean-Paul Sartre toma partido pela resist\u00eancia na Venezuela, arrasta consigo todo o Pr\u00eamio Nobel como institui\u00e7\u00e3o. Nenhum escritor deve deixar-se transformar em Institui\u00e7\u00e3o, mesmo que isto se verifique pela mais honrosa forma, como no caso presente. Esta atitude \u00e9 inteiramente pessoal e, evidentemente, n\u00e3o representa nenhuma cr\u00edtica contra aqueles que j\u00e1 foram premiados. Tenho muita estima e admira\u00e7\u00e3o por muitos dos laureados que conheci pessoalmente. Mas minhas raz\u00f5es objetivas s\u00e3o as seguintes: \u2013 O \u00fanico combate atualmente poss\u00edvel no campo da cultura \u00e9 o da exist\u00eancia pac\u00edfica das duas culturas, a do Leste e a do Oeste. N\u00e3o quero dizer com isso que seja necess\u00e1rio que se d\u00eaem abra\u00e7os. Sei perfeitamente que o confronto entre estas duas culturas deve, por necessidade, adotar a forma de um conflito, conflito que deve ter lugar entre homens e entre culturas, mas sem interven\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es. Sinto pessoal e profundamente as contradi\u00e7\u00f5es entre as duas culturas: sou feito dessas contradi\u00e7\u00f5es. Minhas simpatias v\u00e3o inegavelmente, para o socialismo e para o que se chama o Bloco do Leste, mas vivi e me eduquei numa fam\u00edlia burguesa e numa cultura burguesa. Isto me permite colaborar com todos aqueles que querem aproximar ambas as culturas. Espero, naturalmente que a melhor ganhe, isto \u00e9, o socialismo. Por isso \u00e9 que n\u00e3o posso aceitar nenhuma distin\u00e7\u00e3o concedida pelas altas inst\u00e2ncias culturais, tanto de Leste como do Oeste, mesmo que admita sua exist\u00eancia. Embora todas as minhas simpatias v\u00e3o para o campo socialista, seria imposs\u00edvel para mim aceitar, por exemplo, o Pr\u00eamio L\u00eanin, se algu\u00e9m quisesse me conceder, o que n\u00e3o se d\u00e1. Sei muito bem que o Pr\u00eamio Nobel, por si mesmo, n\u00e3o \u00e9 um pr\u00eamio liter\u00e1rio do campo ocidental, mas se transforma no que se faz dele e podem suceder coisas que os membros da Academia Sueca n\u00e3o podem prever. Por isto que, na situa\u00e7\u00e3o atual, o Pr\u00eamio Nobel se apresenta objetivamente como uma distin\u00e7\u00e3o reservada aos escritores do Oeste ou aos rebeldes do Leste. N\u00e3o se premiou Neruda, que \u00e9 um dos maiores escritores americanos. Nunca se pensou seriamente em Aragon, que bem o merece. \u00c9 lament\u00e1vel que se tenha concedido o pr\u00eamio a Pasternak e n\u00e3o a Cholokhov e que a \u00fanica obra sovi\u00e9tica coroada seja uma editada no estrangeiro, proibida em seu pa\u00eds. Poder-se-ia ter estabelecido um equil\u00edbrio mediante um gesto an\u00e1logo no outro sentido. Durante a guerra da Arg\u00e9lia, quando assinamos o Manifesto dos 111 eu teria aceito o pr\u00eamio com reconhecimento, porque ele n\u00e3o teria honrado somente a mim, mas \u00e0 liberdade pela qual lut\u00e1vamos. Mas isso n\u00e3o aconteceu e \u00e9 somente no fim dos combates que se entregam os pr\u00eamios. Na motiva\u00e7\u00e3o da Academia Sueca se fala de liberdade: \u00e9 uma palavra que se presta a numerosas interpreta\u00e7\u00f5es. No ocidente, se fala de liberdade num sentido geral. Entendo a liberdade de uma forma mais concreta, que consiste no direito de ter mais de um par de sapatos e de comer p\u00e3o menos duro. Parece-me menos perigoso declinar do pr\u00eamio do que aceit\u00e1-lo. Se o aceitasse, me prestaria ao que se pode chamar de uma \u2018recupera\u00e7\u00e3o objetiva\u2019. Afirma o artigo do \u2018Le Figaro Litteraire\u2019 que \u2018n\u00e3o se teria em conta meu passado pol\u00edtico discutido\u2019. Sei que este artigo n\u00e3o exprime a opini\u00e3o da Academia Sueca, mas ele mostra claramente em que sentido seria interpretada minha aceita\u00e7\u00e3o em certos meios de direita. Considero este \u2018passado pol\u00edtico discutido\u2019 como ainda v\u00e1lido, mesmo se disposto a reconhecer certos erros passados perante meus camaradas. N\u00e3o quero dizer que o Pr\u00eamio Nobel seja um pr\u00eamio \u2018burgu\u00eas\u2019, mas esta seria a interpreta\u00e7\u00e3o burguesa que dariam inevitavelmente os meios que conhecemos. Finalmente, resta a quest\u00e3o do dinheiro. \u00c9 verdadeiramente grave que a Academia coloque sobre os ombros do laureado, al\u00e9m da homenagem, uma soma enorme. Este problema me atormentou. Ou bem se aceita o pr\u00eamio e com a soma recebida se ap\u00f3iam movimentos ou organiza\u00e7\u00f5es que se consideram importantes \u2013 de minha parte seria o Comit\u00e9 Apartheit de Londres \u2013 ou bem se recusa o pr\u00eamio em vista de virtude de princ\u00edpios gerais, e se priva este movimento ao apoio que necessita. Renuncio, evidentemente, \u00e0s 250.000 coroas porque n\u00e3o quero ser institucionalizado nem ao Leste nem ao Oeste. N\u00e3o se pode pedir que se renuncie, por 250.000 coroas, aos princ\u00edpios que n\u00e3o s\u00e3o unicamente nossos, mas compartilhados por todos os nossos camaradas. Foi isto que tornou t\u00e3o penoso para mim tanto a atribui\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio como a recusa que manifestei. Quero terminar esta declara\u00e7\u00e3o com uma mensagem de simpatia ao povo sueco.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/jeanpaul.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-22538\" alt=\"jeanpaul\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/jeanpaul.png\" width=\"432\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/jeanpaul.png 600w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/jeanpaul-300x185.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com essa premissa, Jean-Paul Sartre recusou o pr\u00eamio Nobel de Literatura em 22 de outubro de 1964. 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