﻿{"id":22125,"date":"2013-09-09T09:22:06","date_gmt":"2013-09-09T12:22:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=22125"},"modified":"2013-09-09T09:22:06","modified_gmt":"2013-09-09T12:22:06","slug":"ivone-c-benedetti-comenta-sua-traducao-de-decameron","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=22125","title":{"rendered":"Ivone C. Benedetti comenta sua tradu\u00e7\u00e3o de &#8220;Decameron&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ivonecbenedetti.wordpress.com\/2013\/08\/19\/traducao-do-decameron-tonus-e-publico-texto-da-palestra-feita-na-unicamp-durante-o-coloquio-700-anos-de-boccaccio\/\" target=\"_blank\"><em>Este texto foi escrito e lido por Ivone C. Benedetti para\u00a0um evento em comemora\u00e7\u00e3o aos 700 anos de nascimento de Boccaccio<\/em><em><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #810081;\">, ocorrido em agosto de 2013, <\/span><\/span><\/em><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Decameron_Boccaccio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-22126\" alt=\"Capa_Decameron_Boccaccio.indd\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Decameron_Boccaccio-711x1024.jpg\" width=\"230\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Decameron_Boccaccio-711x1024.jpg 711w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Decameron_Boccaccio-208x300.jpg 208w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Decameron_Boccaccio.jpg 1884w\" sizes=\"auto, (max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/><\/a>Quando a L&amp;PM, atrav\u00e9s de sua editora Caroline Chang, me sugeriu a tradu\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=836453&amp;ID=745284\" target=\"_blank\"><i>Decameron<\/i><\/a>, aceitei com entusiasmo, por perceber a pertin\u00eancia da iniciativa. Ao contr\u00e1rio do que acontece com muitas obras que j\u00e1 ca\u00edram em dom\u00ednio p\u00fablico \u2014 verdadeiros best-sellers sem direitos autorais \u2014, das quais \u00e9 poss\u00edvel encontrar v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es concomitantes e inexplic\u00e1veis no mercado, o <i>Decameron<\/i> completo n\u00e3o contava com nenhuma recente tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas do Brasil. Convido quem quiser conhecer um levantamento das diversas edi\u00e7\u00f5es da obra durante o s\u00e9culo XX no Brasil a visitar o site \u201c<a href=\"http:\/\/naogostodeplagio.blogspot.com.br\/2012\/04\/boccaccio-il-decamerone-i.html\" target=\"_blank\">n\u00e3o gosto de pl\u00e1gio<\/a>\u201d, de Denise Bottmann. Farei aqui um breve resumo do levantamento que l\u00e1 est\u00e1 para dar uma ideia da import\u00e2ncia da iniciativa. A primeira tradu\u00e7\u00e3o brasileira completa de que se t\u00eam rastros \u00e9 assinada por Raul de Polillo e data de meados do s\u00e9culo passado. A segunda edi\u00e7\u00e3o integral data de 1970 e \u00e9 assinada por Torrieri Guimar\u00e3es. No entanto, conforme p\u00f4de ser constatado, em artigo da revista <i>L\u00edngua Portuguesa<\/i>,<i> <\/i>pelo Prof. Gabriel Periss\u00e9 e confirmado por Denise e por mim, trata-se da mesma tradu\u00e7\u00e3o de Polillo, maquiada por algum copidesque. Portanto, salvo engano, tudo indica que no Brasil apenas um tradutor se dedicou \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o integral dessa obra, antes da iniciativa da L&amp;PM, e esse tradutor se chama Raul de Polillo. Antes e depois desse trabalho e at\u00e9 os dias de hoje, foram lan\u00e7adas v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es de novelas avulsas, em colet\u00e2neas ou n\u00e3o, por v\u00e1rias editoras, algumas assinadas por nomes ilustres. Por que essa car\u00eancia da tradu\u00e7\u00e3o completa? A primeira resposta que me vem \u00e0 mente \u00e9 o extremo esfor\u00e7o necess\u00e1rio \u00e0 empreitada, tanto por parte da editora quanto do tradutor. Trata-se de uma obra extensa, que demanda muito tempo de trabalho, portanto grande empenho individual de quem traduz e gastos consider\u00e1veis com os quais s\u00f3 uma grande editora pode arcar. Em segundo lugar, \u00e9 uma obra escrita num estado do italiano pouco dominado pela maioria dos tradutores em atividade no mercado brasileiro. Em terceiro lugar, no Brasil, com as cont\u00ednuas republica\u00e7\u00f5es da pseudotradu\u00e7\u00e3o de Torrieri Guimar\u00e3es, o mercado tinha a impress\u00e3o de estar suficientemente \u201cabastecido\u201d de <i>Decameron<\/i>. Eu mesma na juventude o li numa edi\u00e7\u00e3o de 1971 da Abril Cultural. Em quarto lugar, a \u201csele\u00e7\u00e3o\u201d das novelas mais agrad\u00e1veis, diger\u00edveis ou atraentes, segundo crit\u00e9rios de mercado, parecia satisfazer a curiosidade dos leitores e os interesses das editoras. Com isso nos acomodamos.<\/p>\n<p>No entanto, ao nos satisfazermos com essa pr\u00e1tica fragment\u00e1ria, esquecemos que o <i>Decameron<\/i> \u00e9 uma obra unit\u00e1ria, sustentada por uma moldura, que em si j\u00e1 merece considera\u00e7\u00e3o, conforme bem mostra Vittore Branca em sua obra fundamental, <i>Boccaccio medievale<\/i>. Essa segmenta\u00e7\u00e3o inevitavelmente contribui para a cria\u00e7\u00e3o de um conceito parcial, portanto em grande parte falso, sobre o autor e sua obra, conceito que foi capaz de alimentar o p\u00fablico leitor por d\u00e9cadas a fio.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o entusiasmo provocado pela proposta da editora, nasceu em mim a preocupa\u00e7\u00e3o com o tipo de p\u00fablico a que minha tradu\u00e7\u00e3o se dirigiria. No meu trabalho com algumas editoras (entre as quais n\u00e3o se inclui a L&amp;PM), tenho observado de maneira mais ou menos generalizada a exist\u00eancia de um preconceito que atribui certas peculiaridades ao p\u00fablico brasileiro. Na verdade, parece ser um tipo de atitude que vigora em todas as m\u00eddias, talvez ensinada nas escolas de jornalismo \u2013 e aqui estou fazendo ila\u00e7\u00f5es \u2013, que seria representada mais ou menos pela seguinte frase: o p\u00fablico brasileiro \u00e9 inculto, \u00e9 preciso evitar afugent\u00e1-lo com palavras ou constru\u00e7\u00f5es \u201cdif\u00edceis. Esse mito (que realimenta dialeticamente uma eventual incultura) j\u00e1 criou diversos embara\u00e7os para mim: em algumas ocasi\u00f5es precisei enfrentar preparadores de textos que sistematicamente substitu\u00edam palavras menos usuais, embora de tradu\u00e7\u00e3o correta e precisa, por coisas vagamente assemelhadas, pertencentes muitas vezes a um arrevesado espectro de sinon\u00edmia, esquecidos tais preparadores de que quem se d\u00e1 o trabalho de comprar um livro j\u00e1 pertence a um estrato predisposto a enfrentar o desconhecido e por alguma raz\u00e3o \u00e9 estimulado a aprender coisas novas. Felizmente n\u00e3o \u00e9 esse o perfil da L&amp;PM. Digo felizmente porque o enfrentamento de uma obra desse tipo exige do tradutor, segundo o meu conceito de tradu\u00e7\u00e3o, a coragem de oferecer certo estranhamento ao leitor. Um estranhamento com o qual, paradoxalmente, o leitor seja capaz de se familiarizar, ou seja: mesmo criando algo deglut\u00edvel em obedi\u00eancia \u00e0s injun\u00e7\u00f5es do mercado, traduzir de modo que, obedecendo a crit\u00e9rios estritos de teoria da tradu\u00e7\u00e3o, se ofere\u00e7a \u00e0 particularidade brasileira do s\u00e9culo XXI um n\u00facleo irredut\u00edvel daquele Boccaccio que atravessou s\u00e9culos e nos chegou atrav\u00e9s de seus in\u00fameros avatares. Em outras palavras, seria preciso extrair de Boccaccio seus tra\u00e7os pertinentes e oferecer ao leitor um texto que fosse irredutivelmente Boccaccio, j\u00e1 n\u00e3o o sendo em sua forma origin\u00e1ria.<\/p>\n<p>E a pergunta nesses casos \u00e9 a de sempre: que entrelugar criar, para que o universo trecentista italiano n\u00e3o deixe de ser ele mesmo, ainda que transposto para o universo brasileiro de nossos dias?<\/p>\n<p>Como trocar esse paradoxo em mi\u00fados? Todos sabemos que o <i>Decameron<\/i> foi extensamente divulgado e lido na It\u00e1lia desde sua publica\u00e7\u00e3o. Conscientemente ou n\u00e3o, Boccaccio escreveu para um p\u00fablico que n\u00e3o o desmentiu. Porque ele n\u00e3o o renegou: como esclarece Vittore Branca, ele era lido pela burguesia endinheirada que fazia a gl\u00f3ria financeira de Floren\u00e7a e das outras cidades italianas por toda a Europa, era lido pela casta dos <i>mercatanti<\/i>, dos mercadores. Boccaccio soube valer-se da l\u00edngua que j\u00e1 alcan\u00e7ara maturidade suficiente e criou com ela um sistema narrativo que constitui uma verdadeira arquitetura de falares. A perenidade dessa obra \u00e9 resultado disso, da comunh\u00e3o perfeita entre um escritor e um p\u00fablico. Coisa nada pac\u00edfica em nossos dias, ali\u00e1s desde o fim do s\u00e9culo XIX, quando o artista renegou sua classe de origem, a burguesia, e se exilou na torre de marfim, deixando campo livre para os mercen\u00e1rios. E, diante de um artista que comungou com um p\u00fablico e foi por ele acolhido, abstraindo agora as quest\u00f5es atuais de mercado, n\u00e3o parece coerente fazer uma tradu\u00e7\u00e3o que se negue ao p\u00fablico leitor em virtude de, por exemplo, sua ilegibilidade. O ideal seria fazer uma tradu\u00e7\u00e3o que esse p\u00fabico degustasse com a mesma satisfa\u00e7\u00e3o com que o p\u00fablico original de Boccaccio o degustava. Quest\u00e3o de coer\u00eancia, a meu ver. E, se ele fez rir o p\u00fablico florentino do s\u00e9culo XIV, seria muito interessante tamb\u00e9m fazer rir o p\u00fablico brasileiro do s\u00e9culo XXI. Se fez chorar, idem. Etc. E aqui, divagando um pouco, ocorre-me a l\u00facida tese de Auerbach, defendida em <i>Linguagem liter\u00e1ria e seu p\u00fablico no fim da antiguidade latina e na Idade M\u00e9dia<\/i>, que consiste no seguinte: uma produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria em l\u00edngua vulgar, de cunho semelhante ao que vicejara na Antiguidade, s\u00f3 foi poss\u00edvel quando surgiram classes instru\u00eddas capazes de foment\u00e1-la. Boccaccio parece ter encontrado esse ambiente preparado. Sua obra, portanto, foi comunicada. Estabeleceu-se assim o di\u00e1logo, a dualidade que constitui a condi\u00e7\u00e3o de frui\u00e7\u00e3o da obra liter\u00e1ria. Assim, pondo de lado o falso dilema que estabelece uma oposi\u00e7\u00e3o entre a ida do leitor ao autor e a vinda do autor ao leitor, sempre foi l\u00edquido e certo, para mim, que \u00e9 preciso estabelecer, entre a vis\u00e3o do presente e a do passado, aquilo que em hermen\u00eautica se chama de fus\u00e3o de horizontes, encontrando-se o horizonte mais adequado de indaga\u00e7\u00e3o para as quest\u00f5es suscitadas pelo encontro com a tradi\u00e7\u00e3o, ou seja, encontro do presente do leitor com o passado do escritor. Dentro da pr\u00e1xis e de seus ditames \u00e9 sempre preciso encontrar alguma forma de estabelecer o encontro entre esses dois polos, pois sem leitor todo autor \u00e9 in\u00f3cuo, por\u00e9m o leitor sempre precisa estar disposto ou ser guiado a dar alguns passos em dire\u00e7\u00e3o ao autor. Mas quem ser\u00e1 esse leitor? Claro est\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 resposta \u00f3bvia. O tradutor, assim como o escritor, em sua atividade sempre tem em mente um leitor m\u00e9dio ideal, que pode ou n\u00e3o corresponder \u00e0 m\u00e9dia da assimila\u00e7\u00e3o dos leitores reais. Para o editor, por sua vez, que desembolsa o pre\u00e7o de uma tradu\u00e7\u00e3o-edi\u00e7\u00e3o-impress\u00e3o-distribui\u00e7\u00e3o, o melhor \u00e9 que o n\u00famero de leitores capazes de degustar e deglutir a obra seja o maior poss\u00edvel. Esse imperativo ditado pela pr\u00e1xis evidentemente colide com o outro, de trazer ao leitor o Boccaccio mais Boccaccio poss\u00edvel, e \u00e9 no n\u00facleo dessa tens\u00e3o que se encontra o tradutor. Mas, assim como dessa tens\u00e3o nascem os problemas, dela surgem as solu\u00e7\u00f5es. H\u00e1, pois, uma injun\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis que deve ser observada por todo tradutor que atue no mercado, ou melhor, o tradutor pr\u00e1tico, aquele que \u00e9 obrigado a operar diariamente o devido ajuste entre seu fazer e o saber te\u00f3rico angariado, atuando o tempo todo dentro de um equil\u00edbrio inst\u00e1vel que, terminada a tradu\u00e7\u00e3o, s\u00f3 se revela aos olhares mais percucientes. Essa injun\u00e7\u00e3o \u00e9: instaurar uma rela\u00e7\u00e3o dual obra-leitor, para que a exist\u00eancia da obra se justifique pela satisfa\u00e7\u00e3o intelectual ou art\u00edstica do leitor. Se Boccaccio teve seu p\u00fablico, e teve, de que modo pode ser justificado qualquer trabalho de tradu\u00e7\u00e3o que alije um p\u00fablico em nome de conceitos mal digeridos de fidelidade ao autor? Por outro lado, embora seja necess\u00e1rio oferecer a possibilidade de ler Boccaccio, como honestamente oferecer ao leitor algo que n\u00e3o seja Boccaccio?<\/p>\n<p>\u00c9 sempre assim que se configura a perplexidade de um tradutor que tenha em m\u00e3os um texto constru\u00eddo segundo elementos radicalmente estranhos \u00e0 cultura que se convenciona chamar \u201cde chegada\u201d.<\/p>\n<p>A meu ver, para equacionar esse problema \u00e9 preciso levantar alguns dados de historicidade e conhecer os tra\u00e7os pertinentes da obra, ou seja, aqueles que n\u00e3o podem ser escamoteados sem que o autor se descaracterize como tal. Esse levantamento corresponde a uma an\u00e1lise liter\u00e1ria e abrange no m\u00ednimo os aspectos cultural, lexical, sint\u00e1tico e ret\u00f3rico.<\/p>\n<p>Os dados culturais presentes em qualquer obra ficcional, que se manifestam atrav\u00e9s de sua trama, por meio da express\u00e3o de usos, costumes, ju\u00edzos e valores, constituem a contribui\u00e7\u00e3o mais rica que a tradu\u00e7\u00e3o pode dar aos leitores para o conhecimento de outros horizontes. Foi sempre a tradu\u00e7\u00e3o uma fonte riqu\u00edssima desse tipo de saber. N\u00e3o tratarei aqui desse aspecto, essencial, cujas solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o me parecem problem\u00e1ticas, salvo casos esparsos.<\/p>\n<p>O segundo aspecto mencionado, lexical ou terminol\u00f3gico, em Boccaccio \u2014 como de resto em qualquer autor que tenha escrito num estado de l\u00edngua muito diferente do atual \u2013, constitui um problema de grande relev\u00e2ncia, porque muitas das palavras usadas, embora formalmente reconhec\u00edveis como ainda existentes no l\u00e9xico italiano, nem sempre portam em si os significados que t\u00eam agora. Lidar com textos desse tipo requer razo\u00e1veis conhecimentos de etimologia e gram\u00e1tica hist\u00f3rica. A desaten\u00e7\u00e3o a esse dado pode ser fonte de grandes equ\u00edvocos, pois o contexto, que em geral alerta para a inadequa\u00e7\u00e3o de algum sentido, pode deixar de ser percebido ou ser suficientemente amb\u00edguo para induzir em erro. Mesmo assim, nesse n\u00edvel n\u00e3o se encontram a meu ver as maiores dificuldades para o equacionamento da transfer\u00eancia de tra\u00e7os pertinentes, desde que o tradutor seja competente. Nesse caso, tem-se a\u00ed apenas uma quest\u00e3o de foco sem\u00e2ntico. O maior problema, em minha opini\u00e3o, reside nos dois \u00faltimos aspectos.<\/p>\n<p>Com efeito, um texto problem\u00e1tico do ponto de vista da diacronia sem\u00e2ntica, depois de devidamente traduzido, poder\u00e1 deixar poucos ind\u00edcios de tra\u00e7os identificadores de uma \u00e9poca ou de um autor, desde que os h\u00e1bitos sint\u00e1ticos do estado da l\u00edngua em que ele escreve sejam semelhantes aos atuais. Tomo como exemplo Voltaire. Uma parte dos voc\u00e1bulos usados no s\u00e9culo XVIII por Voltaire, embora ainda pertencentes \u00e0 l\u00edngua francesa em seu estado atual, mudaram de significado, mas a sintaxe voltairiana, mesmo que n\u00e3o id\u00eantica \u00e0 atual sintaxe francesa, \u00e9 fundamentalmente semelhante. Isso significa que ela n\u00e3o causar\u00e1 perplexidade. O tradutor n\u00e3o precisar\u00e1 definir uma t\u00e1tica especial para lidar com ela. Em Boccaccio a quest\u00e3o \u00e9 bem diferente. A estrutura sint\u00e1tica observada por ele, estrutura cl\u00e1ssica, latinizante, se mantida num texto escrito em portugu\u00eas atual, produzir\u00e1 uma leitura imposs\u00edvel. Pois bem, ent\u00e3o \u00e9 preciso modific\u00e1-la. At\u00e9 que ponto faz\u00ea-lo, sem desfigurar a fisionomia de uma cultura, sem abolir a p\u00e1tina do tempo, segundo a feliz express\u00e3o de Paulo R\u00f3nai? A\u00ed est\u00e1 o n\u00facleo do dilema do tradutor. Sua escrita caracteriza-se pelo chamado per\u00edodo tenso (sobretudo nas partes argumentativas), que \u00e9 essencialmente prot\u00e1tico, ou seja, a enuncia\u00e7\u00e3o da primeira parte, chamada de pr\u00f3tase, vai preparando lentamente a enuncia\u00e7\u00e3o da parte final, chamada ap\u00f3dose. A pr\u00f3tase, formada por uma sucess\u00e3o de ora\u00e7\u00f5es subordinadas, cria um suspense, sabendo o leitor que s\u00f3 chegando ao final do per\u00edodo conhecer\u00e1 o n\u00facleo de seu significado. Costumo fazer uma analogia entre essa constru\u00e7\u00e3o e a s\u00e9rie de acordes de uma cad\u00eancia tonal, a preparar a t\u00f4nica que dever\u00e1 instaurar o repouso final. Essa analogia n\u00e3o me parece descabida, mas seria presun\u00e7oso e temer\u00e1rio tentar desenvolv\u00ea-la agora. A destrui\u00e7\u00e3o de um encadeamento tenso desse tipo costuma produzir como resultado um texto de t\u00f4nus bem diferente: se o n\u00facleo de significado aparecer antes de tudo, fala-se em per\u00edodo frouxo. Nossa civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 acostumada a tais \u201ccad\u00eancias prot\u00e1ticas longas\u201d. Somos a civiliza\u00e7\u00e3o da asser\u00e7\u00e3o direta, da exposi\u00e7\u00e3o imediata do significado principal, ou, quando n\u00e3o, em havendo necessidade de alguma prepara\u00e7\u00e3o, espera-se que esta seja curta e inevit\u00e1vel. No entanto, se \u00e9 poss\u00edvel adivinhar prefer\u00eancias e inten\u00e7\u00f5es at\u00e9 mesmo em frases simples enunciadas de modo diferente, como \u201cse voc\u00ea vier jantaremos\u201d ou \u201cjantaremos se voc\u00ea vier\u201d, que dizer de sequ\u00eancias complexas, feitas sob medida para o enunciado de alus\u00f5es e pressupostos? Portanto, como preservar essas nuances sem destruir uma marca registrada, sem transformar a cl\u00e1ssica prosa de Boccaccio num enunciado pragm\u00e1tico, de fei\u00e7\u00e3o a transmitir informa\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas, nos moldes da nossa civiliza\u00e7\u00e3o apressada, que tem por secund\u00e1rio e acess\u00f3rio aquilo a que antes se dava preemin\u00eancia? Observe-se a organicidade de um per\u00edodo, como por exemplo este, do pro\u00eamio:<\/p>\n<blockquote><p><em>Mas, como quis Aquele que, sendo infinito, ditou a lei imut\u00e1vel de que todas as coisas do mundo devem ter fim, meu amor, que era mais fervoroso que qualquer outro e n\u00e3o pudera ser destru\u00eddo nem vergado por nenhuma for\u00e7a de vontade, sensatez, vergonha evidente ou perigo que dele pudesse decorrer, com o passar do tempo diminuiu sozinho, a tal ponto que em minha mente deixou de si apenas o prazer que de h\u00e1bito ele concede a quem n\u00e3o tenha navegado por seus mais tenebrosos p\u00e9lagos.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>De que outro modo percorrer os meandros representados por pressupostos, conclus\u00f5es e consequ\u00eancias, sem destruir todo um arcabou\u00e7o hierarquizado de <i>topoi<\/i>, que se encontra por tr\u00e1s desse enunciado?<\/p>\n<p>Pois bem, o Boccaccio que escrevia para a casta dos <i>mercatanti <\/i>do fim da Idade M\u00e9dia era um conhecedor das normas da escrita cl\u00e1ssica. Escrevia em vulgar com sintaxe cl\u00e1ssica. Perfeita rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, como, ali\u00e1s, ocorre com a sintaxe de toda a boa prosa toscana ao longo daqueles s\u00e9culos gloriosos. Ferir esse tipo de encadeamento, a meu ver, \u00e9 destruir seu t\u00f4nus, enfraquec\u00ea-lo. No entanto \u2014 cabe complementar, retomando ideia a que j\u00e1 aludi acima \u2014, a estrita e cega observ\u00e2ncia da sequ\u00eancia de causais, finais, consecutivas, condicionais e comparativas, em suas formas desenvolvidas ou reduzidas, a caminharem pachorrentamente para a solu\u00e7\u00e3o final, pode produzir um labirinto conceitual no qual o leitor moderno se perderia com facilidade, gerando um t\u00e9dio mortal. Isso sem falar dos frequentes anacolutos. \u00c9 preciso ter liberdade de escolher os caminhos, mas uma liberdade guiada. Hoje, nossa prosa, brasileira, costuma ser acusada de anomia, de falta de crit\u00e9rios coesos para constru\u00e7\u00f5es e usos. Pode ser verdade. No entanto, o que h\u00e1 de positivo nisso \u00e9 a maleabilidade que facilita traduzir os tra\u00e7os idissioncr\u00e1sicos de culturas long\u00ednquas no tempo ou no espa\u00e7o, sem a coer\u00e7\u00e3o de observar normas r\u00edgidas ditadas por crit\u00e9rios mais ou menos subjetivos, como por exemplo a eleg\u00e2ncia. Essa caracter\u00edstica, que marca a forma de escrever hoje, tamb\u00e9m marca a de traduzir, numa evolu\u00e7\u00e3o ocorrida desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, com resultados que tamb\u00e9m oferecem ensejo para s\u00e9rias cr\u00edticas, mas esse \u00e9 um assunto que demandaria demoradas reflex\u00f5es e an\u00e1lises, que n\u00e3o cabem aqui.<\/p>\n<p>Depois de abordar o t\u00f4nus sint\u00e1tico e fazer um paralelo com a forma de constru\u00e7\u00e3o da harmonia tonal, devo finalmente falar em ritmo e pros\u00f3dia. \u00c9 a\u00ed que se fazem sentir os paralelos mais evidentes entre prosa e m\u00fasica, inclusive em termos de nomenclatura. Ali\u00e1s, na Idade M\u00e9dia, essa uni\u00e3o era inerente \u00e0 escrita art\u00edstica. M\u00fasica e poesia sempre andaram juntas e durante muito tempo pareciam insepar\u00e1veis porque em geral juntadas por uma s\u00f3 e mesma pessoa. Apenas com o aumento da complexidade das t\u00e9cnicas musicais, justamente do fim da Idade M\u00e9dia para o Renascimento, os praticantes de cada uma dessas artes passaram a atuar separadamente. A verdade \u00e9 que a prosa boccacciana, como bem demonstra Vittore Branca, pauta-se por conceitos como o de <i>cursus<\/i> (<i>cursus planus, tardus <\/i>e<i> velox<\/i>) e cl\u00e1usula, presente em quase todo o texto do <i>Decameron<\/i>. O homem formado pelas artes liberais da Idade M\u00e9dia aliava as ci\u00eancias ret\u00f3ricas \u00e0s ci\u00eancias dos n\u00fameros. A m\u00fasica, como ci\u00eancia da aplica\u00e7\u00e3o da teoria dos n\u00fameros, permeava tudo. O canto est\u00e1 na raiz do sistema de versifica\u00e7\u00e3o em l\u00ednguas vulgares. No s\u00e9culo XIII poesia e m\u00fasica pertenciam ambas \u00e0 mesma ci\u00eancia do ritmo. As leis dos n\u00fameros garantiam-lhes at\u00e9 uma esp\u00e9cie de transcend\u00eancia metaf\u00edsica. A filosofia de Plat\u00e3o, que inspirava o <i>De Musica<\/i> de Bo\u00e9cio, ainda constitu\u00eda a base de teorias como a <i>Ars Rithmica<\/i> de Jo\u00e3o de Garl\u00e2ndia, para quem o ritmo \u00e9 um princ\u00edpio do universo. N\u00e3o caberia aqui me prolongar nessa interessant\u00edssima intersec\u00e7\u00e3o existente entre arte liter\u00e1ria e arte musical na Idade M\u00e9dia. Apenas gostaria de lembrar que n\u00e3o h\u00e1 sombra dela nos dias de hoje, o que torna in\u00f3cua para a quase totalidade dos leitores a presen\u00e7a de algum ritmo premeditado em meio \u00e0 prosa. A m\u00fasica deixou de ser considerada fundamental na forma\u00e7\u00e3o educacional de nossos jovens. Hoje os alunos t\u00eam dificuldade at\u00e9 para identificar s\u00edlabas t\u00f4nicas e n\u00e3o t\u00f4nicas. N\u00e3o dever\u00e1 passar de bizantinismo para os ouvidos pragm\u00e1ticos a no\u00e7\u00e3o de que toda prosa tem um ritmo, de que esse ritmo pode ser intencional e meticulosamente constru\u00eddo, de que a sua presen\u00e7a consegue produzir frui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Tentar arquitetar uma tradu\u00e7\u00e3o totalmente orientada pelo requinte de coadunar significados na constru\u00e7\u00e3o de um eixo significante v\u00e1lido na l\u00edngua de chegada, como se faz na tradu\u00e7\u00e3o de poesia, \u00e9 tarefa herc\u00falea a que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel dedicar-se. Mesmo assim, em alguns momentos tentei reproduzir certas cad\u00eancias, fazendo quest\u00e3o de preservar o que havia de penetrante e resoluto, sem tentar substitu\u00ed-lo pelo caricioso e hesitante, de jamais ferir a concis\u00e3o em nome de pretensas prefer\u00eancias est\u00e9ticas, de conservar a sensa\u00e7\u00e3o de f\u00f4lego sempre renovado, sem a pausa longa do ponto, respeitando a abund\u00e2ncia de pontos-e-v\u00edrgulas, conservando a retomada insistente das ideias em frases iniciadas pelo aditivo \u201ce\u201d, como se nada nunca se acabasse, e tudo fosse o cont\u00ednuo que leva da primeira \u00e0 cent\u00e9sima novela, de modo que uma coisa se soma sempre \u00e0 outra, estando tudo suspenso dos l\u00e1bios de um narrador que n\u00e3o tem pressa, que emite sua narrativa como um cantor a entoar um melisma.<\/p>\n<p>Se fui bem-sucedida s\u00f3 o leitor poder\u00e1 dizer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto foi escrito e lido por Ivone C. Benedetti para\u00a0um evento em comemora\u00e7\u00e3o aos 700 anos de nascimento de Boccaccio, ocorrido em agosto de 2013, Quando a L&amp;PM, atrav\u00e9s de sua editora Caroline Chang, me sugeriu a tradu\u00e7\u00e3o do Decameron, aceitei com entusiasmo, por perceber a pertin\u00eancia da iniciativa. 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