﻿{"id":21987,"date":"2013-08-29T10:38:24","date_gmt":"2013-08-29T13:38:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=21987"},"modified":"2013-10-23T14:41:02","modified_gmt":"2013-10-23T16:41:02","slug":"novos-territorios-em-mangas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=21987","title":{"rendered":"Novos territ\u00f3rios em mang\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Alexandre Boide*<\/em><\/p>\n<blockquote><p>Em novembro de 2008, come\u00e7ou a circular na imprensa internacional a not\u00edcia de que uma adapta\u00e7\u00e3o em mang\u00e1 de <i>O capital<\/i>, de Karl Marx, seria lan\u00e7ada por uma editora japonesa, a East Press, e com a expectativa de que se tornasse um best-seller. A justificativa: o Jap\u00e3o estava mergulhado em uma recess\u00e3o profunda, o Partido Comunista local vivia um ressurgimento e a literatura anticapitalista vinha em alta no pa\u00eds. Uma indica\u00e7\u00e3o clara nesse sentido era a de que o campe\u00e3o de vendas da cole\u00e7\u00e3o em que <i>Das Kapital<\/i> seria publicado era <i>Kanik\u014dsen<\/i>, que narra o sofrimento da tripula\u00e7\u00e3o de um barco de pesca de caranguejos sob a explora\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel da ind\u00fastria capitalista. Faltou dizer, por\u00e9m, que a cole\u00e7\u00e3o inclu\u00eda tamb\u00e9m adapta\u00e7\u00f5es de obras muito anteriores \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia do capitalismo (como <i>Rei Lear<\/i> e <i>A divina com\u00e9dia<\/i>) e escritos de cunho pol\u00edtico que de forma nenhuma se identificavam com a literatura de esquerda (como o manual de conduta marcial <i>Bushid\u014d: A alma do Jap\u00e3o<\/i> e <i>Mein Kampf<\/i>, o manifesto nazista de Adolf Hitler). Portanto, era de se esperar que houvesse outras raz\u00f5es por tr\u00e1s do esperado sucesso do lan\u00e7amento que viria (sucesso, ali\u00e1s, que acabou se confirmando e gerando uma pequena corrida pelo licenciamento dos t\u00edtulos em diversos pa\u00edses e idiomas).<\/p>\n<p>De fato, a cole\u00e7\u00e3o <i>Manga de Dokuha<\/i> (em uma adapta\u00e7\u00e3o livre, algo com o sentido de \u201cAprendendo em mang\u00e1\u201d) tem caracter\u00edsticas bastante peculiares. A primeira delas \u00e9 ser uma empreitada coletiva, centrada na figura de seu editor, Kasuke Maruo. \u00c9 ele quem supervisiona um a um os roteiros (que j\u00e1 ultrapassaram a marca das cem HQs lan\u00e7adas), que mais tarde s\u00e3o encaminhados para um est\u00fadio terceirizado (Variety Artworks), que faz todo o trabalho de arte. \u00c9 por isso que os t\u00edtulos n\u00e3o trazem cr\u00e9ditos de roteirista e desenhista respons\u00e1veis pela adapta\u00e7\u00e3o, apenas o nome do autor do original \u2014 a propriedade intelectual de todos os mang\u00e1s \u00e9 da East Press. Por outro lado, isso n\u00e3o significa de maneira nenhuma menos liberdade art\u00edstica. Como toda adapta\u00e7\u00e3o que se preze, os mang\u00e1s da cole\u00e7\u00e3o s\u00e3o obras com identidade pr\u00f3pria \u2014 ainda que derivadas \u2014, e portanto devem ser lidas e compreendidas de acordo com seus pr\u00f3prios termos, e n\u00e3o como simples espelhos do original. Assim, o milenar manual de estrat\u00e9gia militar <i>A arte da guerra<\/i> se torna a hist\u00f3ria de uma grande guerra entre os Sete Reinos da China medieval, em que o general Sun Tzu vai elaborando suas t\u00e1ticas geniais \u00e0 medida que a a\u00e7\u00e3o acontece. O <i>Manifesto do Partido Comunista<\/i>, por sua vez, se transforma na saga de um grupo de trabalhadores que tenta se livrar da explora\u00e7\u00e3o patronal, o que serve como pano de fundo para expor a teoria e os fatos por tr\u00e1s da proposta ideol\u00f3gica de Marx e Engels. Em <i>Assim falou Zaratustra<\/i>, de Friedrich Nietzsche, o protagonista vive no s\u00e9culo XIX, e \u00e9 criado dentro dos preceitos crist\u00e3os antes de sair propagando a ideia de que Deus est\u00e1 morto. E nem mesmo as obras de fic\u00e7\u00e3o precisam se limitar aos elementos contidos no original: em <i>A metamorfose<\/i>, por exemplo, passagens da biografia do autor, Franz Kafka, s\u00e3o incorporadas \u00e0 hist\u00f3ria do personagem Gregor Samsa.<\/p>\n<p>Se de fato cada contato com uma grande obra abre novos territ\u00f3rios e horizontes mentais para os leitores, os mang\u00e1s desta cole\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma prova do quanto essas incurs\u00f5es podem ser variadas. Alguns deles s\u00e3o como um voo panor\u00e2mico, que delineia os contornos gerais e as paisagens do local que est\u00e1 sendo visitado. Outros s\u00e3o como expedi\u00e7\u00f5es noturnas lideradas por um guia, em que o facho de luz se concentra com mais \u00eanfase em determinados aspectos, e a impress\u00e3o que se tem do todo \u00e9 inevitavelmente filtrada pelos olhos de quem segura a lanterna. Outros, ainda, s\u00e3o como picadas abertas a golpes de faca ao r\u00e9s-do-ch\u00e3o \u2014 s\u00f3 depois de muito explorar \u00e9 poss\u00edvel ter uma vis\u00e3o aproximada do todo. Seja como for, mesmo com toda sua pluralidade de abordagens, os mang\u00e1s da East Press nunca deixam de se guiar por um preceito fundamental a qualquer cole\u00e7\u00e3o que se pretenda verdadeiramente universal: a livre explora\u00e7\u00e3o de pensamentos e ideias.<\/p><\/blockquote>\n<p><em>* Alexandre Boide \u00e9 tradutor e respons\u00e1vel pela prepara\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos dos Cl\u00e1ssicos em Mang\u00e1s (da East Press) que est\u00e3o sendo publicados na Cole\u00e7\u00e3o L&amp;PM Pocket.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=645528&amp;ID=806618\" target=\"_blank\"><em>A arte da guerra,<\/em><\/a> <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=645528&amp;ID=090990\" target=\"_blank\"><em>Hamlet<\/em>, <em>O grande Gatsby e Assim falou Zaratustra <\/em><\/a>em mang\u00e1 j\u00e1 chegaram. Os pr\u00f3ximos t\u00edtulos a serem lan\u00e7ados s\u00e3o <em>O contrato social<\/em>, <em>A metamorfose<\/em>, <em>Manifesto do partido comunista<\/em>, <em>Em busca do tempo perdido<\/em> e <em>Ulisses.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_22549\" style=\"width: 446px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/mangas_classicos_quatro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-22549\" class=\" wp-image-22549 \" alt=\"mangas_classicos_quatro\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/mangas_classicos_quatro.jpg\" width=\"436\" height=\"206\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/mangas_classicos_quatro.jpg 960w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/mangas_classicos_quatro-300x141.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 436px) 100vw, 436px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-22549\" class=\"wp-caption-text\">Os cl\u00e1ssicos em mang\u00e1s que j\u00e1 est\u00e3o dispon\u00edveis<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alexandre Boide* Em novembro de 2008, come\u00e7ou a circular na imprensa internacional a not\u00edcia de que uma adapta\u00e7\u00e3o em mang\u00e1 de O capital, de Karl Marx, seria lan\u00e7ada por uma editora japonesa, a East Press, e com a expectativa de que se tornasse um best-seller. 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