﻿{"id":21466,"date":"2013-07-03T14:54:36","date_gmt":"2013-07-03T17:54:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=21466"},"modified":"2013-07-03T14:55:06","modified_gmt":"2013-07-03T17:55:06","slug":"gatsby-o-retorno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=21466","title":{"rendered":"Gatsby, o retorno"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<em>MARCELO COELHO &#8211; 03\/07\/13 &#8211; Publicado na Folha de S. Paulo<\/em><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o se pode reconstruir o passado, diz Nick Carraway, o narrador de \u201c<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?FiltroStr=gatsby&amp;FiltroCampo=ALL&amp;Template=..%2Flivros%2Flayout_buscaprodutos.asp\" target=\"_blank\">O Grande Gatsby<\/a>\u201d, ao misterioso personagem cujo nome d\u00e1 t\u00edtulo ao romance de Scott Fitzgerald. \u201cComo assim? Claro que se pode!\u201d, responde Gatsby. Do alto de uma imensa fortuna, adquirida n\u00e3o se sabe direito como, ele quer reconquistar o amor de sua juventude. Conhecera Daisy, uma mo\u00e7a aristocr\u00e1tica, quando ainda n\u00e3o tinha um tost\u00e3o.<\/p>\n<p>Daisy acabou se casando com um rica\u00e7o de fam\u00edlia tradicional, que logo se revela ad\u00faltero, preconceituoso e violento. O casamento vai mal quando Gatsby reaparece, montado numa mans\u00e3o espetacular, palco de uma sequ\u00eancia nauseante de festas \u2014\u00e0s quais Daisy n\u00e3o comparece. Exposto assim, o tema principal de \u201cO Grande Gatsby\u201d poderia ser adaptado para uma telenovela de terceira. A arte de Scott Fitzgerald est\u00e1 em deixar todos os personagens, e suas motiva\u00e7\u00f5es, envoltos numa atmosfera \u00famida, desentendida e reticente.<\/p>\n<p>A publicidade antecipada em torno de \u201cO Grande Gatsby\u201d, filme de Baz Luhrmann com Leonardo Di Caprio, sem d\u00favida intensificou a m\u00e1 vontade de muita gente. Ainda mais porque estava na mem\u00f3ria a vers\u00e3o anterior do livro, dirigida por Jack Clayton em 1974, com Robert Redford e Mia Farrow. As cores esmaecidas e o charme l\u00e2nguido do filme mais antigo terminaram produzindo a impress\u00e3o de que se tratava de uma obra mais art\u00edstica do que era realmente. Como Jack Clayton nos empapava de estilo e figurino, e como tendemos a ser maus int\u00e9rpretes dos c\u00f3digos sociais do passado, aquele \u201cGrande Gatsby\u201d diminu\u00eda o contraste entre a aristocracia de Daisy e a ambi\u00e7\u00e3o emergente de Gatsby.<\/p>\n<p>No livro, este \u00e9 desprezado, por exemplo, quando usa um terno cor-de-rosa: sinal de breguice irremedi\u00e1vel para os outros personagens. S\u00f3 que Robert Redford, com o terno da cor que quisermos, ser\u00e1 sempre um bacan\u00e3o na mais alta pel\u00edcula da nata social americana. A hist\u00f3ria real de seu fracasso amoroso ficava um bocado incompreens\u00edvel, atr\u00e1s de muitos v\u00e9us de tule, no filme de Clayton.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se pode reconstruir o passado.\u201d \u201cClaro que se pode!\u201d A resposta de Gatsby poderia ser adotada pelo pr\u00f3prio Baz Luhrmann, que fez tudo para reconstruir, de um ponto de vista completamente subversivo \u2014quase terrorista de t\u00e3o subversivo\u2014 o filme de 40 anos atr\u00e1s. Quando uma pessoa tem dificuldade em entender alguma explica\u00e7\u00e3o mais trabalhosa, h\u00e1 quem goste de humilh\u00e1-la, perguntando: \u201cQuer que eu desenhe?\u201d. O novo \u201cGatsby\u201d faz isso com o romance de Fitzgerald, explicitando a trama com recursos de professor de cursinho.<\/p>\n<p>O estilo de Luhrmann flerta, ali\u00e1s, com o desenho animado. Tudo come\u00e7a quando reconhecemos, no papel de Nick Carraway, ningu\u00e9m menos do que Tobey Maguire. \u201cOnde \u00e9 que eu vi mesmo esse carinha?\u201d Resposta: nos filmes do Homem-Aranha. Os recursos de 3D, fazendo mergulhos rid\u00edculos na selva de edif\u00edcios de Manhattan, confirmam a pretens\u00e3o de transformar aquele evasivo cl\u00e1ssico liter\u00e1rio num \u201cblockbuster\u201d demencial.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o caricatural, extremada, de Baz Luhrmann, surge assim como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 finura da vers\u00e3o mais antiga. As duas, talvez, se complementem. Com suas festas quase fellinianas, com a vulgaridade expl\u00edcita da filmagem, com a inexcepcionalidade feminina de Carey Mulligan (no papel de Daisy), o filme de Baz Luhrmann adota, na verdade, o ponto de vista novo-rico, meio bandid\u00e3o, do pr\u00f3prio Gatsby.<\/p>\n<p>Com a v\u00edtrea Mia Farrow e um Robert Redford impec\u00e1vel, o filme de 1974 aristocratizava tudo. Diminu\u00eda os conflitos, eufemizava as diferen\u00e7as sociais, musicalizava suavemente a trag\u00e9dia. Nenhuma das duas vers\u00f5es d\u00e1 conta, a meu ver, do que mal e mal se sugere no livro. Para impressionar Nick Carraway, e convenc\u00ea-lo de suas credenciais para a classe A, Gatsby o leva para almo\u00e7ar num restaurante, apresentando-o a uma figura estranh\u00edssima.<\/p>\n<p>Meyer Wolfsheim logo se revela, no livro, uma esp\u00e9cie de g\u00e2ngster. \u00c9 dif\u00edcil entender por que raz\u00e3o Gatsby levaria Carraway para conhecer um tipo t\u00e3o suspeito. Seria ing\u00eanuo, pensando que Carraway n\u00e3o perceberia a estirpe do interlocutor? Ou, ao contr\u00e1rio, estava tentando comprar a consci\u00eancia de Carraway, abrindo-lhe as portas para adquirir uma fortuna il\u00edcita tamb\u00e9m? Seria dif\u00edcil filmar de um modo que fizesse justi\u00e7a \u00e0s duas hip\u00f3teses ao mesmo tempo. Mas, se o livro exige mais de uma leitura, n\u00e3o \u00e9 nada mau que o espectador possa agora contar com um filme t\u00e3o diferente daquele, discreto e perfumado, que guardava nas suas mem\u00f3rias de 1974.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_21467\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/redford_caprio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-21467\" class=\"size-full wp-image-21467 \" alt=\"Robert Redford ou Leonardo di Caprio. Quem \u00e9 mais Gatsby?\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/redford_caprio.jpg\" width=\"450\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/redford_caprio.jpg 450w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/redford_caprio-300x233.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-21467\" class=\"wp-caption-text\">Robert Redford ou Leonardo Di Caprio. Quem \u00e9 mais Gatsby?<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0MARCELO COELHO &#8211; 03\/07\/13 &#8211; Publicado na Folha de S. Paulo N\u00e3o se pode reconstruir o passado, diz Nick Carraway, o narrador de \u201cO Grande Gatsby\u201d, ao misterioso personagem cujo nome d\u00e1 t\u00edtulo ao romance de Scott Fitzgerald. \u201cComo assim? Claro que se pode!\u201d, responde Gatsby. 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