﻿{"id":2109,"date":"2010-08-10T12:52:25","date_gmt":"2010-08-10T12:52:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=2109"},"modified":"2010-08-10T14:35:40","modified_gmt":"2010-08-10T14:35:40","slug":"subindo-o-rio-amazonas-pensando-no-o-coracao-das-trevas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=2109","title":{"rendered":"Subindo o rio Amazonas e pensando em <i>O cora\u00e7\u00e3o das trevas<\/i>"},"content":{"rendered":"<p><em>Ivan Pinheiro Machado<\/em><\/p>\n<p>Quando anoitece na Amaz\u00f4nia, o sol despenca sobre a copa das \u00e1rvores e assume uma cor alaranjada, estranha e selvagem. Durante uma meia hora o c\u00e9u imenso fica tingido de tons lilases, como se fossem caprichosamente pintados por uma m\u00e3o imensa. E quando a escurid\u00e3o toma conta de tudo, a gente olha para o c\u00e9u e nota que na linha do Equador \u2013 conforme ensinava a professora de geografia \u00ad\u2013 h\u00e1 menos estrelas que no sul que n\u00f3s conhecemos. O barco avan\u00e7a rio acima envolvido pelo negror da noite.<br \/>\nNa proa, sob um calor de 32 graus, eu olhava perplexo as\u00a0silhuetas da imensid\u00e3o\u00a0 \u00a0do rio e fazia considera\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas ao p\u00e9 de uma cerveja estupidamente gelada (confortos da tecnologia). \u00c9ramos um nada em meio aquele mundo de dist\u00e2ncias impressionantes, tamanhos impressionantes, volumes de \u00e1gua impressionantes. Lembrei do \u201cO Cora\u00e7\u00e3o das trevas\u201d de Joseph Conrad, um dos mais fant\u00e1sticos livros jamais escritos. Quando passou da meia-noite, a magia amazonense se completou. De repente, no sentido inverso em que o sol mergulhou, espirrou\u00a0da floresta uma lua\u00a0 avermelhada que rapidamente se projetou c\u00e9u adentro salpicando o grande rio com reflexos prateados.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/amazonaspost.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2112\" title=\"amazonaspost\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/amazonaspost.jpg\" alt=\"\" width=\"445\" height=\"487\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/amazonaspost.jpg 445w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/amazonaspost-274x300.jpg 274w\" sizes=\"auto, (max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/a><br \/>\nVindos de Alter do Ch\u00e3o, a prestigiada praia paraense \u00e0 beira do Tapaj\u00f3s com seu rio de \u00e1guas\u00a0quentes quase azuladas, subimos o rio Amazonas at\u00e9 Manaus. Foram tr\u00eas dias navegando dia e noite ininterruptamente para cobrir os quase 700 quil\u00f4metros que s\u00e3o vencidos lentamente contra a correnteza. \u00c9ramos cinco amigos em um barco grande e potente capaz de fazer esta travessia enorme em seguran\u00e7a.<br \/>\nForam muitas as aventuras vividas nesta jornada pela selva. Mas o que interessa \u00e9 que aqueles que n\u00e3o conheciam a regi\u00e3o voltaram inoculados pelo v\u00edrus da Amaz\u00f4nia. Um maravilhamento meio inexplic\u00e1vel. Eu, que naquela noite, no \u201ccora\u00e7\u00e3o das trevas\u201d, me senti um nada, compensei esta depress\u00e3o filos\u00f3fica com um orgulho amaz\u00f4nico de ser brasileiro. E entendi um pouco a imensa e mortal inveja que os gringos t\u00eam dessa mata extraordin\u00e1ria e poderosa e destes rios absurdamente caudalosos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/amazonaspost2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2114\" title=\"amazonaspost2\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/amazonaspost2.jpg\" alt=\"\" width=\"445\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/amazonaspost2.jpg 445w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/amazonaspost2-300x213.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/a><br \/>\nAbaixo, uma degusta\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=948848&amp;SubsecaoID=0&amp;Template=..\/livros\/layout_autor.asp&amp;AutorID=906250\" target=\"_blank\">Joseph Conrad<\/a> e sua obra prima <a href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=816351&amp;ID=190833\" target=\"_blank\"><em>O Cora\u00e7\u00e3o das trevas<\/em><\/a> cujo narrador descreve suas sensa\u00e7\u00f5es enquanto seu barco avan\u00e7ava no meio da selva\u00a0desconhecida e perigosa.\u00a0Mas ao contr\u00e1rio do inseguro e temeroso narrador de Conrad, n\u00f3s possu\u00edamos GPS,\u00a0sonar, ar-condicionado\u00a0e um freezer lotado de cervejas&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201c\u00c1rvores, \u00e1rvo\u00adres, milh\u00f5es de \u00e1rvores, imponentes, imensas, erguendo-se \u00e0 grande altura.(&#8230;) Fazia voc\u00ea se sentir muito peque\u00adno, muito perdido; contudo, no conjunto, n\u00e3o era um sentimento depressivo. Extens\u00f5es de \u00e1gua abriam-se a nossa frente e fechavam-se atr\u00e1s, como se a floresta houves\u00adse avan\u00e7ado displicentemente sobre o rio, barrando o caminho de nosso retorno. Penetr\u00e1vamos cada vez mais fundo no cora\u00e7\u00e3o das trevas. Fazia um sil\u00eancio enorme ali. (&#8230;)N\u00e3o pod\u00edamos compreender porque est\u00e1vamos longe demais, e n\u00e3o lembr\u00e1vamos por que est\u00e1vamos viajando na noite das primeiras eras, de \u00e9pocas que ha\u00adviam desaparecido, mal deixando um sinal \u2013 e nenhuma lembran\u00e7a.\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ivan Pinheiro Machado Quando anoitece na Amaz\u00f4nia, o sol despenca sobre a copa das \u00e1rvores e assume uma cor alaranjada, estranha e selvagem. Durante uma meia hora o c\u00e9u imenso fica tingido de tons lilases, como se fossem caprichosamente pintados por uma m\u00e3o imensa. E quando a escurid\u00e3o toma conta de tudo, a gente olha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[561,560,562],"class_list":["post-2109","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-joseph-conrad","tag-o-coracao-das-trevas","tag-rio-amazonas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2109","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2109"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2109\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2118,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2109\/revisions\/2118"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2109"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2109"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2109"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}