﻿{"id":19301,"date":"2013-01-14T09:53:06","date_gmt":"2013-01-14T11:53:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=19301"},"modified":"2013-01-14T09:53:06","modified_gmt":"2013-01-14T11:53:06","slug":"por-que-nao-publiquei-glauber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=19301","title":{"rendered":"Por que n\u00e3o publiquei Glauber"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Ivan Pinheiro Machado*<\/em><\/p>\n<blockquote><p>No inverno de 1977, bem no come\u00e7o da editora L&amp;PM, recebemos uma correspond\u00eancia que n\u00e3o trazia o nome do remetente. Eu tinha 24 anos e, editor principiante, havia mandado cartas pedindo livros para mais ou menos 20 intelectuais brasileiros &#8220;de peso&#8221;. Passados dois meses, ningu\u00e9m havia respondido. O carteiro s\u00f3 trazia contas a pagar. Mas recebemos uma, aparentemente o primeiro retorno. Muito curioso, abri o envelope e fui direto \u00e0 assinatura. Ileg\u00edvel. Li o texto datilografado em duas p\u00e1ginas de papel A4 e, nas primeiras linhas, identifiquei um dos destinat\u00e1rios da nossa busca por livros novos.<\/p>\n<p>A assinatura era de Glauber Rocha. Ele queria publicar a sua obra e mencionava &#8220;v\u00e1rios livros&#8221; e especialmente uma hist\u00f3ria do cinema.<\/p>\n<p>Na carta de junho de 1977, Glauber escrevia: &#8220;minha &#8216;Hist\u00f3ria do Cinema&#8217; tem mil p\u00e1ginas [&#8220;\u00a6], \u00e9 um livro original porque eu revelo entrevistas in\u00e9ditas com cineastas do mundo todo e conto a Hist\u00f3ria do ponto de vista de um cineasta que viveu por dentro da cozinha. [&#8230;] Conto a verdadeira hist\u00f3ria do Cinema Novo, 15 anos de pol\u00edtica e cultura. N\u00e3o existe bibliografia de cinema que preste no Brasil&#8221;. E encerrava assim: &#8220;N\u00e3o quero enviar originais pelo Correio. Mandem algu\u00e9m ou venham aqui&#8221;. Atrav\u00e9s de amigos no Rio consegui o telefone dele. Liguei, ele mesmo atendeu e combinamos uma reuni\u00e3o dois dias depois no Rio.<\/p>\n<p>Sa\u00ed de Porto Alegre com chuva e frio e cheguei ao Rio sob um sol fe\u00e9rico que brilhava num c\u00e9u sem nuvens. Deixei minha pequena bagagem no hotel e fui direto ao edif\u00edcio na Lagoa. Ao sair do elevador, senti um cheiro forte de maconha. Segui o rastro que estava no ar e cheguei ao ap\u00ea 201, emprestado por um amigo psiquiatra a Glauber Rocha e a sua namorada, uma deslumbrante loura colombiana.<\/p>\n<p>Ao entrar no apartamento com vista para a lagoa Rodrigo de Freitas, Glauber ofereceu-me uma poltrona, uma cerveja e come\u00e7ou um longo, brilhante e exaltado mon\u00f3logo sobre sua obra como escritor e sobre o potencial cinematogr\u00e1fico que a hist\u00f3ria do Rio Grande do Sul possu\u00eda. Ele sugeria uma filmagem da Guerra dos Farrapos com Marlon Brando no papel do l\u00edder da revolu\u00e7\u00e3o, Bento Gon\u00e7alves. &#8220;Eu ligo pra ele e fa\u00e7o o convite. Ele me conhece. Vou propor uma participa\u00e7\u00e3o na bilheteria.&#8221; E sugeria ainda que S\u00f4nia Braga fosse Anita Garibaldi. &#8220;Ela nasceu para ser a Anita&#8221;, disse. Por fim, mostrou-me dois calhama\u00e7os datilografados com cerca de 500 p\u00e1ginas cada um.<\/p>\n<p>O primeiro era uma colet\u00e2nea de &#8220;ensaios e observa\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas&#8221;, e o segundo era um &#8220;romance \u00e9pico&#8221; que se chamaria &#8220;Django&#8221;, baseado na vida de Jo\u00e3o Goulart, o Jango. &#8220;Depois eu mostro a Hist\u00f3ria do Cinema.&#8221; Eu observava perplexo aquela explos\u00e3o verborr\u00e1gica. Ele tinha uma flu\u00eancia impressionante. Falava sobre o momento de abrandamento da ditadura, da genialidade de Golbery do Couto e Silva, o chefe do Gabinete Civil, que seria o &#8220;grande art\u00edfice do desmonte do regime&#8221;, era &#8220;o g\u00eanio da ra\u00e7a&#8221;, express\u00e3o que ele repetia sempre quando se referia ao Golbery e que acabou ficando c\u00e9lebre.<\/p>\n<p>Depois de quatro horas ouvindo discursos, fui embora. Combinamos que eu retornaria no outro dia. Foi o que fiz. L\u00e1 chegando, tudo aconteceu como no dia anterior; mais uma sess\u00e3o de discursos brilhantes. Ele falava, falava e, de tempos em tempos, fazia uma longa pausa arfando, exausto. Descansava um pouco e voltava a falar, falar.<\/p>\n<p>A conversa (mon\u00f3logo) acabou no come\u00e7o da noite porque sua mulher lembrou que os dois tinham uma exibi\u00e7\u00e3o especial de &#8220;Dona Flor e seus Dois Maridos&#8221;, o filme de Bruno Barreto. Combinei de voltar no dia seguinte para acertar os detalhes do contrato e pegar os originais dos livros. Foi o que fiz.<\/p>\n<p>Cheguei \u00e0s 15h e toquei a campainha. A loura atendeu a porta e, sem me convidar para entrar, disse constrangida: &#8220;o Glauber n\u00e3o pode atender, mas manda dizer que desistiu de publicar os seus livros&#8221;. E encerrou o assunto, fechando a porta na minha cara.<\/p>\n<p>Fiquei ali parado por uns dois minutos tentando absorver aquele desfecho surreal. \u00c0 noite voltei para Porto Alegre. Sem livro nenhum, mas pelo menos com esta curiosa hist\u00f3ria para contar.<\/p><\/blockquote>\n<div class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<div id=\"attachment_19303\" style=\"width: 430px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/fotografia.folha.uol.com.br\/galerias\/12782-glauber-rocha-e-l-pm#foto-228941\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-19303\" class=\"size-full wp-image-19303 \" title=\"glauber_carta\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/glauber_carta.jpg\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/glauber_carta.jpg 600w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/glauber_carta-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/glauber_carta-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 420px) 100vw, 420px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-19303\" class=\"wp-caption-text\">Para ler toda a carta clique aqui<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>* Ivan Pinheiro Machado \u00e9 editor da L&amp;PM. Este texto foi publicado originalmente na coluna &#8220;Arquivo Aberto&#8221; do\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/1213491-por-que-nao-publiquei-glauber.shtml\" target=\"_blank\">Caderno Ilustr\u00edssima da <em>Folha de S. Paulo<\/em> <\/a>em 13 de janeiro de 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ivan Pinheiro Machado* No inverno de 1977, bem no come\u00e7o da editora L&amp;PM, recebemos uma correspond\u00eancia que n\u00e3o trazia o nome do remetente. Eu tinha 24 anos e, editor principiante, havia mandado cartas pedindo livros para mais ou menos 20 intelectuais brasileiros &#8220;de peso&#8221;. Passados dois meses, ningu\u00e9m havia respondido. 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