﻿{"id":19267,"date":"2013-01-10T16:31:20","date_gmt":"2013-01-10T18:31:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=19267"},"modified":"2013-01-10T16:49:34","modified_gmt":"2013-01-10T18:49:34","slug":"dashiell-hammett-por-lillian-hellman-sua-companheira-por-30-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=19267","title":{"rendered":"A mulher que amava Dashiell Hammett"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=948848&amp;SubsecaoID=0&amp;Template=..\/livros\/layout_autor.asp&amp;AutorID=945393\" target=\"_blank\">Dashiell Hammet <\/a>foi uma lenda liter\u00e1ria. Autor de <em>O falc\u00e3o malt\u00eas<\/em>, editor da legend\u00e1ria revista <em>Black Mask<\/em>, detetive da Ag\u00eancia Pinkerton, o homem que foi destru\u00eddo fisicamente pela persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no per\u00edodo do macarthismo, foi um dos maiores escritores americanos de todos os tempos e, junto com Raymond Chandler, fundou o g\u00eanero <em>noir<\/em>, elevando as hist\u00f3rias policiais \u00e0 categoria de grande literatura. Quando tinha 36 anos, Hammet conheceu a jovem Lillian Hellman, ent\u00e3o com 24 anos, em um restaurante de Hollywood.\u00a0Lillian se\u00a0tornaria tamb\u00e9m uma grande escritora e dramaturga e,\u00a0entre idas e vindas, os dois foram companheiros\u00a0por 30 anos. O livro de contos<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=527090&amp;ID=508182\" target=\"_blank\"> <em>O grande golpe<\/em><\/a>, de Hammett, publicado pela Cole\u00e7\u00e3o L&amp;PM Pocket, traz um pref\u00e1cio de Lillian. \u00c9 um emocionante relato escrito ap\u00f3s a morte de Hammett. Leia aqui alguns trechos:<\/p>\n<blockquote><p><em>A morte dele chegou h\u00e1 quase cinco anos, em 10 de janeiro de 1961. (&#8230;) Quando conheci Dash, ele havia escrito quatro de seus cinco romances e era o escritor mais quente em Hollywood e Nova York. N\u00e3o \u00e9 extraordin\u00e1rio ser o mais quente em nenhuma das duas cidades \u2013 o novato mais quente muda a cada esta\u00e7\u00e3o -, mas, no caso dele, era um interesse extra para os colecionadores de gente o fato de que o ex-detetive, que tinha cicatrizes nas pernas e uma reentr\u00e2ncia na cabe\u00e7a por brigar com bandidos, era um homem de boas maneiras, bem-educado, com visual elegante, descendente dos primeiros colonizadores, exc\u00eantrico, espirituoso e gastava tanto dinheiro com as mulheres que elas teriam gostado dele mesmo sem nenhuma dessas qualidades.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_19271\" style=\"width: 414px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/dashiell3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-19271\" class=\"size-full wp-image-19271   \" title=\"dashiell3\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/dashiell3.jpg\" alt=\"\" width=\"404\" height=\"300\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-19271\" class=\"wp-caption-text\">O sempre alinhado Dashiel Hammett<\/p><\/div>\n<blockquote><p><em>Na Primeira Guerra Mundial, no campo de batalha, a gripe o levou \u00e0 tuberculose, e Hammet teve de passar anos em hospitais militares. Saiu da Segunda Guerra Mundial com efisema, mas como foi que ele chegou a entrar na Segunda Guerra Mundial, aos 48 anos de idade, \u00e9 algo que ainda me desconcerta. Ele me ligou no dia em que o ex\u00e9rcito o aceitou para dizer que era o dia mais feliz de sua vida e, antes que eu pudesse dizer que n\u00e3o era o dia mais feliz da minha vida e perguntar sobre as velhas cicatrizes de seu pulm\u00e3o, ele riu e desligou. Sua morte foi causada por um c\u00e2ncer de pulm\u00e3o descoberto apenas dois meses antes de ele morrer. Como n\u00e3o era poss\u00edvel operar \u2013 duvido que ele tivesse concordado em fazer a cirurgia mesmo que fosse \u2013 resolvi n\u00e3o lhe contar sobre o c\u00e2ncer. O m\u00e9dico disse que quando come\u00e7asse a dor, seria no bra\u00e7o direito e no lado direito do peito, mas disse tamb\u00e9m que ela podia nem come\u00e7ar. O m\u00e9dico estava errado: bastaram algumas horas para que a dor come\u00e7asse. Hammett havia autodiagnosticado reumatismo no bra\u00e7o direito e sempre dizia que por causa dele havia desistido das ca\u00e7adas. No dia em que fiquei sabendo do c\u00e2ncer, ele disse que o seu ombro da arma estava doendo de novo e pediu que eu lhe fizesse uma massagem. Lembro de me sentar atr\u00e1s dele e massage\u00e1-lo torcendo para que ele sempre pensasse que era reumatismo e lembrasse das ca\u00e7adas de outono. Mas a dor nunca mais voltou ou, se voltou, ele nunca mais disse nada. Ou talvez a morte estivesse t\u00e3o pr\u00f3xima que a dor\u00a0 no ombro se fundiu com outras dores.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_19272\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/hellman_hammett.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-19272\" class=\"size-full wp-image-19272\" title=\"hellman_hammett\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/hellman_hammett.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/hellman_hammett.jpg 400w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/hellman_hammett-300x239.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-19272\" class=\"wp-caption-text\">Lillian Hellman e Dashiell Hammett em uma rara foto em que aparecem juntos, publicada na Revista LIFE em 1941<\/p><\/div>\n<blockquote><p><em>Ele n\u00e3o queria morrer, e gosto de pensar que ele n\u00e3o sabia que estava morrendo. Mas at\u00e9 hoje afasto de mim mesma o poss\u00edvel significado de uma noite, muito tarde, pouco antes de sua morte. Entrei no quarto dele e, pela \u00fanica vez em todos os anos em que convivemos, havia l\u00e1grimas em seus olhos, e o livro estava fechado. Sentei-me ao seu lado e esperei um bom tempo antes de conseguir dizer:<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea quer conversar?<br \/>\nEle respondeu quase com raiva:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. A minha \u00fanica chance \u00e9 n\u00e3o falar.<br \/>\nE ele nunca falou. Sua paci\u00eancia, sua coragem e sua dignidade naqueles meses de sofrimento foram muito grandes. Foi como se tudo o que faz a vida de um homem tivesse se reunido para passar no teste: sofrer era uma quest\u00e3o particular. Que n\u00e3o devia ser invadida. Era raro at\u00e9 mesmo que ele pedisse alguma coisa.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<div class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<div id=\"attachment_19273\" style=\"width: 388px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/cartaz_filme_dash_lilly.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-19273\" class=\"size-full wp-image-19273  \" title=\"cartaz_filme_dash_lilly\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/cartaz_filme_dash_lilly.jpg\" alt=\"\" width=\"378\" height=\"546\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/cartaz_filme_dash_lilly.jpg 675w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/cartaz_filme_dash_lilly-207x300.jpg 207w\" sizes=\"auto, (max-width: 378px) 100vw, 378px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-19273\" class=\"wp-caption-text\">Em 1999 foi feito um filme para a TV chamado &quot;Dash and Lilly&quot; que conta a rela\u00e7\u00e3o entre o casal de escritores e tem Sam Shepard no papel de Dashiell Hammett<\/p><\/div>\n<\/div>\n<blockquote><p><em>Na v\u00e9spera do ano-novo, em 1960, deixei Hammett aos cuidados de uma simp\u00e1tica enfermeira e fui passar algumas horas com amigos. Fui embora da casa deles \u00e0s onze e meia, sem saber que a enfermeira come\u00e7ou a me ligar alguns minutos depois. Quando entrei no quarto de Hammett, ele estava sentado \u00e0 escrivaninha, com o rosto t\u00e3o entusiasmado e excitado como nos tempos em que bebia. No colo, um pesado livro de gravuras japonesas que havia comprado muitos anos antes e de que gostava muito.<br \/>\n&#8211; Olhe para isso, querida. \u00c9 maravilhoso.<br \/>\nQuando me aproximei, a enfermeira se afastou, mas ele pegou a m\u00e3o dela e a beijou, com o mesmo jeito charmoso e sedutor dos bons tempos, erguendo o olhar para piscar para mim. O livro estava de cabe\u00e7a para baixo, de modo que a enfermeira nem precisou resmungar a palavra \u201cirracional\u201d. Dali em diante \u2013 n\u00f3s o levamos para o hospital no dia seguinte \u2013 nunca soube nem jamais saberei o que o irracional quer dizer. Hammet recusava qualquer medica\u00e7\u00e3o, qualquer ajuda de enfermeiras e m\u00e9dicos, numa esp\u00e9cie de determinada e misteriosa desconfian\u00e7a. Antes da noite do livro de cabe\u00e7a para baixo, nosso plano era nos mudarmos para Cambridge, porque eu havia sido contratada para lecionar em Harvard. Um livro de cabe\u00e7a para baixo deve ter me dito que o fim havia chegado, mas eu n\u00e3o queria pensar dessa maneira, de modo que fui para Cambridge, encontrei uma casa de sa\u00fade para Dash e voltei naquela noite para lhe contar a respeito. Ele perguntou:<br \/>\n&#8211; Mas como vamos para Boston?<br \/>\nRespondi que contratar\u00edamos uma ambul\u00e2ncia e acho que pela primeira vez na vida ele disse:<br \/>\n&#8211; Vai ser muito caro.<br \/>\nRespondi:<br \/>\n&#8211; Se for, iremos de carro\u00e7a coberta.<br \/>\nEle sorriu e disse:<br \/>\n&#8211; Talvez fosse assim que dev\u00eassemos ter viajado, afinal.<br \/>\nEnt\u00e3o me senti melhor naquela noite, segura de uma prorroga\u00e7\u00e3o. Eu estava errada. Antes das seis da manh\u00e3 do dia seguinte, ligaram do hospital. Hammett havia entrado em coma. Quando atravessei o quarto at\u00e9 a sua cama, houve um \u00faltimo sinal de vida: seus olhos se abriram, surpresos, e ele tentou levantar a cabe\u00e7a. Mas ele nunca mais recuperou a consci\u00eancia. Morreu dois dias depois.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>De Dashiell Hammett, a Cole\u00e7\u00e3o L&amp;PM Pocket publica, al\u00e9m de <em>O grande golpe, <\/em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=608155&amp;ID=626209\" target=\"_blank\"><em>Mulher no escuro<\/em><\/a>, <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=673729&amp;ID=519360\" target=\"_blank\"><em>Tiros na noite: a mulher do bandido<\/em><\/a><em> <\/em>e<em> <\/em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=673729&amp;ID=919280\" target=\"_blank\"><em>Tiros na noite: medo de tiro<\/em><\/a>. Leia o pref\u00e1cio de <em>O grande golpe<\/em> na \u00edntegra <a href=\"http:\/\/issuu.com\/nannirios\/docs\/o_grande_golpe_prefacio\" target=\"_blank\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dashiell Hammet foi uma lenda liter\u00e1ria. Autor de O falc\u00e3o malt\u00eas, editor da legend\u00e1ria revista Black Mask, detetive da Ag\u00eancia Pinkerton, o homem que foi destru\u00eddo fisicamente pela persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no per\u00edodo do macarthismo, foi um dos maiores escritores americanos de todos os tempos e, junto com Raymond Chandler, fundou o g\u00eanero noir, elevando as [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[3139,4263,4264,4265],"class_list":["post-19267","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","tag-dashiell-hammett","tag-lillian-hellman","tag-o-falcao-maltes","tag-o-grande-golpe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19267"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19267\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19282,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19267\/revisions\/19282"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}