﻿{"id":18927,"date":"2012-12-12T15:45:41","date_gmt":"2012-12-12T17:45:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=18927"},"modified":"2012-12-14T14:23:51","modified_gmt":"2012-12-14T16:23:51","slug":"um-grande-presente-no-aniversario-de-flaubert-o-prefacio-de-o-idiota-da-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=18927","title":{"rendered":"Um grande presente para os f\u00e3s de Flaubert: o pref\u00e1cio de &#8220;O idiota da fam\u00edlia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=948848&amp;SubsecaoID=0&amp;Template=..\/livros\/layout_autor.asp&amp;AutorID=605480\" target=\"_blank\">Gustave Flaubert<\/a> nasceu em 12 de dezembro de 1821. Um g\u00eanio que daria origem \u00e0 <em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=816351&amp;ID=928152\" target=\"_blank\">Madame Bovary<\/a><\/em>, mas que quando crian\u00e7a foi considerado literalmente um idiota. <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=948848&amp;SubsecaoID=0&amp;Template=..\/livros\/layout_autor.asp&amp;AutorID=725464\" target=\"_blank\">Jean-Paul Sartre<\/a> era obcecado por ele. Tanto que dedicou anos da sua vida a escrever a biografia definitiva de Flaubert. Em <em>O idiota da fam\u00edlia, <\/em>Sartre proporciona ao leitor um livro de cerca de 3.000 p\u00e1ginas, dividido em tr\u00eas\u00a0tomos,\u00a0que\u00a0\u00e9 lido como\u00a0uma grande aventura.\u00a0At\u00e9 hoje in\u00e9dito em l\u00edngua portuguesa, <em>O idiota da fam\u00edlia <\/em>finalmente poder\u00e1 chegar \u00e0s m\u00e3os dos brasileiros em\u00a0nossa l\u00edngua mater. A L&amp;PM Editores j\u00e1 recebeu da tradutora J\u00falia da Rosa Sim\u00f5es as primeiras mil p\u00e1ginas do volume 1 que ser\u00e1 lan\u00e7ado em meados de 2013. E como hoje \u00e9 anivers\u00e1rio de Flaubert, aqui vai um presente a todos aqueles que aguardam ansiosamente a chegada deste que \u00e9 considerado um projeto soberbo, o livro que encerra a obra sartriana. Com voc\u00eas, o pref\u00e1cio de <em>O idiota da fam\u00edlia <\/em>finalmente em portugu\u00eas:<\/p>\n<blockquote><p>PREF\u00c1CIO<\/p>\n<p><em>O idiota da fam\u00edlia<\/em> \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o de <em>Quest\u00f5es de m\u00e9todo<\/em>. Seu tema: o que podemos saber de um homem, hoje em dia? Pareceu-me que s\u00f3 poder\u00edamos responder a essa pergunta atrav\u00e9s do estudo de um caso concreto: o que sabemos \u2013 por exemplo \u2013 de Gustave Flaubert? Isso significa <em>totalizar<\/em> as informa\u00e7\u00f5es de que dispomos sobre ele. Nada prova, de in\u00edcio, que essa totaliza\u00e7\u00e3o seja <em>poss\u00edvel<\/em> e que a verdade de uma pessoa n\u00e3o seja plural; os dados s\u00e3o muito diferentes <em>por natureza<\/em>: ele nasceu em dezembro de 1821, em Rouen \u00ad\u2013 eis um; ele escreve \u00e0 amante, muito tempo depois: \u201cA Arte me espanta\u201d \u2013 eis outro. O primeiro \u00e9 um fato objetivo e social, confirmado por documentos oficiais; o segundo, tamb\u00e9m objetivo quando nos atemos \u00e0 coisa dita, por seu significado remete a um sentimento vivido, e nada decidiremos sobre o sentido e o alcance desse sentimento se antes n\u00e3o tivermos estabelecido se Gustave \u00e9 sincero, em geral e, particularmente, nesta circunst\u00e2ncia. N\u00e3o corremos o risco de chegar a camadas de significados heterog\u00eaneos e irredut\u00edveis? Este livro tenta provar que a irredutibilidade \u00e9 apenas aparente e que cada informa\u00e7\u00e3o colocada em seu devido lugar torna-se a parte de um todo que continua a fazer-se e, ao mesmo tempo, revela sua profunda homogeneidade com todas as outras.<\/p>\n<p>Porque um homem nunca \u00e9 um indiv\u00edduo; seria melhor cham\u00e1-lo de <em>universal singular<\/em>: totalizado e, por isso mesmo, universalizado por sua \u00e9poca, ele a retotaliza ao reproduzir-se nela como singularidade. Universal pela universalidade singular da hist\u00f3ria humana, singular pela singularidade universalizante de seus projetos, ele exige ser estudado simultaneamente pelas duas pontas. Precisaremos encontrar um m\u00e9todo apropriado. Apresentei os princ\u00edpios de um em 1958 e n\u00e3o repetirei o que disse ent\u00e3o: prefiro mostrar, cada vez que necess\u00e1rio, como ele <em>se faz<\/em> no pr\u00f3prio trabalho para obedecer \u00e0s exig\u00eancias de seu objeto.<\/p>\n<p>Uma \u00faltima palavra: por que Flaubert? Por tr\u00eas motivos. O primeiro, bastante pessoal, h\u00e1 muito tempo deixou de valer, apesar de estar na origem dessa escolha: em 1943, ao reler sua <em>Correspond\u00eancia<\/em> na m\u00e1 edi\u00e7\u00e3o Charpentier, tive a sensa\u00e7\u00e3o de ter contas a ajustar com ele e que devia, com vistas a isso, conhec\u00ea-lo melhor. Desde ent\u00e3o, minha antipatia inicial transformou-se em <em>empatia<\/em>, \u00fanica atitude exigida para compreender. Por outro lado, ele se objetivou em seus livros. Qualquer pessoa dir\u00e1: \u201cGustave Flaubert \u00e9 o autor de <em>Madame Bovary<\/em>\u201d. Qual, ent\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o do homem com a obra? Eu nunca o disse at\u00e9 agora. Nem ningu\u00e9m, que eu saiba. Veremos que \u00e9 dupla: <em>Madame Bovary<\/em> \u00e9 derrota e vit\u00f3ria; o homem que se manifesta na derrota n\u00e3o \u00e9 o mesmo exigido para sua vit\u00f3ria; ser\u00e1 preciso entender o que isso significa. Por fim, suas primeiras obras e sua correspond\u00eancia (treze volumes publicados) manifestam-se, veremos, como a confid\u00eancia mais estranha, a mais facilmente decifr\u00e1vel: como se ouv\u00edssemos um neur\u00f3tico falando \u201cao acaso\u201d no div\u00e3 do psicanalista. Acreditei que seria permitido, para esta dif\u00edcil demonstra\u00e7\u00e3o, escolher um tema f\u00e1cil, que se revela facilmente e sem o saber. Acrescento que Flaubert, criador do romance \u201cmoderno\u201d, est\u00e1 na interse\u00e7\u00e3o de todos os nossos problemas liter\u00e1rios de hoje.<\/p>\n<p>Agora, \u00e9 preciso come\u00e7ar. Como? Pelo qu\u00ea? Pouco importa: penetramos em um morto da maneira que quisermos. O essencial \u00e9 partir de um problema. Daquele que escolhi, geralmente pouco se fala. Leiamos, no entanto, essa passagem de uma carta \u00e0 srta. Leroyer de Chantepie: \u201c\u00c9 de tanto trabalhar que consigo calar minha melancolia natural. Mas o velho fundo muitas vezes reaparece, o velho fundo que ningu\u00e9m conhece, a chaga profunda sempre escondida\u201d<a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\">[1]<\/a>. O que isso quer dizer? Uma chaga pode ser natural? Seja como for, Flaubert nos remete \u00e0 sua proto-hist\u00f3ria. O que se precisa tentar conhecer \u00e9 a origem dessa chaga \u201csempre escondida\u201d e que, <em>em todo caso<\/em>, tem origem em sua primeira inf\u00e2ncia. Este n\u00e3o ser\u00e1, acredito, um mau come\u00e7o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\">[1]<\/a>Croisset, 6 de outubro de 1864.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_18930\" style=\"width: 415px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/idiota_da_familia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-18930\" class=\"size-large wp-image-18930 \" title=\"idiota_da_familia\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/idiota_da_familia-1000x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"405\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/idiota_da_familia-1000x1024.jpg 1000w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/idiota_da_familia-293x300.jpg 293w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/idiota_da_familia.jpg 1301w\" sizes=\"auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-18930\" class=\"wp-caption-text\">Lan\u00e7amento de peso: os tr\u00eas volumes de &quot;O idiota da fam\u00edlia&quot; na edi\u00e7\u00e3o francesa. O primeiro volume chega em meados de 2013 pela L&amp;PM<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustave Flaubert nasceu em 12 de dezembro de 1821. Um g\u00eanio que daria origem \u00e0 Madame Bovary, mas que quando crian\u00e7a foi considerado literalmente um idiota. Jean-Paul Sartre era obcecado por ele. Tanto que dedicou anos da sua vida a escrever a biografia definitiva de Flaubert. 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