﻿{"id":1854,"date":"2010-07-16T19:52:53","date_gmt":"2010-07-16T19:52:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=1854"},"modified":"2010-07-16T19:52:53","modified_gmt":"2010-07-16T19:52:53","slug":"leia-texto-inedito-de-galeano-sobre-a-copa-de-2010","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=1854","title":{"rendered":"Leia texto in\u00e9dito de Galeano sobre a Copa de 2010"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><em>A primeira edi\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=527090&amp;ID=618253\" target=\"_blank\">Futebol ao sol e \u00e0 sombra<\/a> (sobre o qual fizemos uma <a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?s=futebol+ao+sol+e+%C3%A0+sombra\" target=\"_blank\">s\u00e9rie<\/a> no blog), de <a href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=948848&amp;SubsecaoID=0&amp;Template=..\/livros\/layout_autor.asp&amp;AutorID=39\" target=\"_blank\">Eduardo Galeano<\/a>, foi lan\u00e7ada em 1995. Desde ent\u00e3o, a cada nova Copa do Mundo, ele atualiza o livro e acrescenta novos textos. Foi assim em 1998, 2002 e 2006. Agora, menos de uma semana ap\u00f3s o final do mundial, disponibilizamos com exclusividade em nosso site, o anexo sobre a Copa de 2010, que ser\u00e1 inclu\u00eddo na pr\u00f3xima reedi\u00e7\u00e3o do livro.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>A Copa do Mundo de 2010<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/galeano20100.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1856\" title=\"galeano20100\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/galeano20100.jpg\" alt=\"\" width=\"445\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/galeano20100.jpg 445w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/galeano20100-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>Eduardo Galeano<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Uma campanha internacional transformava o Ir\u00e3 no mais grave perigo para a humanidade, porque dizem que dizem que o Ir\u00e3 teria ou poderia ter armas nucleares, como se tivessem sido iranianos os que lan\u00e7aram bombas at\u00f4micas sobre a popula\u00e7\u00e3o civil de Hiroshima e Nagasaki.<br \/>\nIsrael metralhava, em \u00e1guas internacionais, os navios que levavam \u00e0 Palestina alimentos, rem\u00e9dios e brinquedos, num dos habituais atos criminosos que castigam os palestinos como se eles, que s\u00e3o semitas, fossem culpados pelo antissemitismo e seus horrores.<br \/>\nO Fundo Monet\u00e1rio, o Banco Mundial e numerosos governos humilhavam a Gr\u00e9cia, obrigando-na a aceitar o inaceit\u00e1vel, como se tivessem sido os gregos, e n\u00e3o os banqueiros de Wall Street, os respons\u00e1veis pela pior crise internacional desde 1929.<br \/>\nO Pent\u00e1gono anunciava que os seus especialistas haviam descoberto no Afeganist\u00e3o uma jazida de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares em ouro, cobalto, cobre, ferro e, sobretudo, l\u00edtio, o cobi\u00e7ado mineral imprescind\u00edvel para os telefones celulares e os computadores port\u00e1teis, e o pa\u00eds invasor anunciava isso alegremente, como se ao fim de quase nove anos de guerra e milhares de mortos, tivesse encontrado o que procurava de fato no pa\u00eds invadido.<br \/>\nNa Col\u00f4mbia, aparecia uma vala comum com mais de dois mil mortos sem nome que o ex\u00e9rcito havia jogado ali como se fossem guerrilheiros abatidos em combate, ainda que os moradores do lugar soubessem que eram militantes sindicais, ativistas comunit\u00e1rios e camponeses que defendiam as suas terras.<br \/>\nUma das piores cat\u00e1strofes ecol\u00f3gicas de todos os tempos transformava o golfo do M\u00e9xico numa imensa po\u00e7a de petr\u00f3leo, e um m\u00eas e meio depois, o fundo do mar seguia sendo um vulc\u00e3o de petr\u00f3leo, enquanto a empresa British Petroleum assoviava e olhava para o outro lado, como se n\u00e3o tivesse nada a ver com isso.<br \/>\nEm v\u00e1rios pa\u00edses, uma enxurrada de den\u00fancias acusava a Igreja Cat\u00f3lica de abusos sexuais e viola\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as, e por todo lado se multiplicavam os testemunhos que o medo havia reprimido durante anos e que, por fim, vinham \u00e0 luz, enquanto algumas fontes eclesi\u00e1sticas se defendiam dizendo que essas atrocidades ocorriam tamb\u00e9m fora da Igreja, como se isso a desculpasse e que, em muitos casos, os sacerdotes tinham sido provocados, como se os culpados fossem as v\u00edtimas.<br \/>\nFontes bem informadas de Miami seguiam negando-se a acreditar que Fidel Castro seguisse vivinho da silva, como se ele n\u00e3o estivesse lhes dando novos desgostos a cada dia.<br \/>\nPerd\u00edamos dois escritores sem suplentes, Jos\u00e9 Saramago e Carlos Monsiv\u00e1is, e sent\u00edamos falta deles como se n\u00e3o soub\u00e9ssemos que seguir\u00e3o ressuscitando entre os mortos, por mais que pare\u00e7a imposs\u00edvel, pelo puro prazer de atormentar os donos do mundo.<br \/>\nE no porto de Hamburgo, uma multid\u00e3o comemorava o retorno \u00e0 primeira divis\u00e3o alem\u00e3 do clube de futebol Sankt Pauli, que conta com vinte milh\u00f5es de simpatizantes, por mais que pare\u00e7a imposs\u00edvel, congregados em torno das bandeiras do clube: n\u00e3o ao racismo, n\u00e3o ao sexismo, n\u00e3o \u00e0 homofobia, n\u00e3o ao nazismo.<br \/>\nEnquanto longe dali, na \u00c1frica do Sul, era inaugurado o d\u00e9cimo nono campeonato mundial de futebol, sob o amparo de uma dessas bandeiras: n\u00e3o ao racismo.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Durante um m\u00eas, o mundo deixou de girar e muitos dos seus habitantes deixamos de respirar.<br \/>\nNada at\u00edpico, porque isso ocorre a cada quatro anos, mas o at\u00edpico foi que esta foi a primeira Copa em terra africana.<br \/>\nA \u00c1frica negra, desprezada, condenada ao sil\u00eancio e ao esquecimento, p\u00f4de ocupar por um momento o centro da aten\u00e7\u00e3o universal, ao menos enquanto durou o campeonato.<br \/>\nTrinta e dois pa\u00edses disputaram a Copa em dez est\u00e1dios que custaram uma dinheirama. E n\u00e3o se sabe como a \u00c1frica do Sul far\u00e1 para manter em atividade esses gigantes de cimento, esbanjo multimilion\u00e1rio f\u00e1cil de explicar, mas dif\u00edcil de justificar num dos pa\u00edses mais injustos do mundo.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O est\u00e1dio mais belo, em forma de flor, abre as suas imensas p\u00e9talas sobre a ba\u00eda chamada Nelson Mandela.<br \/>\nMandela foi o her\u00f3i desta Copa. Uma homenagem mais do que merecida ao fundador da democracia naquele pa\u00eds. O seu sacrif\u00edcio rendeu frutos que, de alguma forma, podem ser vistos no planeta inteiro. No entanto, na \u00c1frica do Sul, os negros continuam sendo os mais pobres e os mais castigados pela pol\u00edcia e pelas pestes, e foram os negros, os mendigos, as prostitutas e os meninos de rua que, nas v\u00e9speras da Copa, foram escondidos para n\u00e3o dar m\u00e1 impress\u00e3o para as visitas.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ao longo do torneio, p\u00f4de-se ver que o futebol africano conservou a sua agilidade, mas perdeu desenvoltura e fantasia. Correu muito, mas dan\u00e7ou pouco. H\u00e1 quem acredite que os t\u00e9cnicos das sele\u00e7\u00f5es, quase todos europeus, tenham contribu\u00eddo para esse endurecimento. Se foi assim, pouco ajudaram um futebol que prometia tanta alegria.<br \/>\nA \u00c1frica sacrificou as suas virtudes em nome da efic\u00e1cia, e a efic\u00e1cia brilhou pela sua aus\u00eancia. Um s\u00f3 pa\u00eds africano, Gana, ficou entre os oito melhores; e pouco depois, tamb\u00e9m Gana voltou para casa. Nenhuma sele\u00e7\u00e3o africana sobreviveu, nem sequer a do pa\u00eds anfitri\u00e3o.<br \/>\nMuitos dos jogadores africanos, dignos da sua heran\u00e7a de bom futebol, vivem e jogam no continente que havia escravizado os seus av\u00f4s.<br \/>\nNuma das partidas da Copa, enfrentaram-se os irm\u00e3os Boateng, filhos de pai ganense: um vestia a camisa de Gana, e o outro, a camisa da Alemanha.<br \/>\nDos jogadores da sele\u00e7\u00e3o de Gana, nenhum jogava no campeonato local.<br \/>\nDos jogadores da sele\u00e7\u00e3o da Alemanha, todos jogavam no campeonato local da Alemanha.<br \/>\nComo a Am\u00e9rica Latina, a \u00c1frica exporta m\u00e3o-de-obra e p\u00e9-de-obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Jabulani foi o nome da bola do torneio, ensaboada, meio louca, que fugia das m\u00e3os e desobedecia aos p\u00e9s. Essa novidade da Adidas foi imposta no Mundial, mesmo que os jogadores n\u00e3o gostassem nem um pouquinho dela. Do seu castelo de Zurich, os senhores do futebol imp\u00f5em, n\u00e3o prop\u00f5em. Eles t\u00eam esse costume.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os erros e os horrores cometidos por alguns \u00e1rbitros colocaram mais uma vez em evid\u00eancia o que o senso comum exige h\u00e1 muitos anos.<br \/>\nAos gritos, o senso comum clama, sempre em v\u00e3o, que o \u00e1rbitro possa consultar os primeiros planos, registrados pelas c\u00e2meras, de jogadas decisivas que sejam duvidosas. A tecnologia permite, agora, que esse cotejo seja feito com a rapidez e a naturalidade com que se consulta outro instrumento tecnol\u00f3gico, chamado rel\u00f3gio, para medir o tempo de cada partida.<br \/>\nTodos os demais esportes, como o basquete, o t\u00eanis, o beisebol, a nata\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a esgrima e as corridas de autom\u00f3vel, utilizam normalmente as ajudas eletr\u00f4nicas. O futebol, n\u00e3o. E a explica\u00e7\u00e3o de seus amos seria c\u00f4mica, se n\u00e3o fosse simplesmente suspeita: o erro faz parte do jogo, dizem, e nos deixam boquiabertos descobrindo que errare humanum est.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A melhor defesa do torneio n\u00e3o foi obra de um goleiro, mas de um goleador: o atacante uruguaio Luis Su\u00e1rez deteve a escorregadia bola com as duas m\u00e3os, na linha do gol, no \u00faltimo minuto de uma partida decisiva. Esse gol teria deixado o seu pa\u00eds fora da Copa: gra\u00e7as ao seu ato de patri\u00f3tica loucura, Su\u00e1rez foi expulso, mas o Uruguai n\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O Uruguai, que havia entrado na Copa em \u00faltimo lugar, depois de uma penosa classifica\u00e7\u00e3o, jogou todo o campeonato sem se render nunca, e foi o \u00fanico pa\u00eds latino-americano que chegou \u00e0s semifinais. Alguns cardiologistas nos advertiram, pela imprensa, que o excesso de felicidade pode ser perigoso para a sa\u00fade. Muitos de n\u00f3s, uruguaios, que parec\u00edamos condenados a morrer de t\u00e9dio, comemoramos esse risco, e as ruas do pa\u00eds viraram uma festa. Ao fim e ao cabo, o direito de festejar os pr\u00f3prios m\u00e9ritos \u00e9 sempre prefer\u00edvel ao prazer que alguns sentem pela desgra\u00e7a alheia.<br \/>\nO Uruguai terminou em quarto lugar, o que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim para o \u00fanico pa\u00eds que p\u00f4de evitar que esta Copa n\u00e3o passasse de uma Eurocopa.<br \/>\nDiego Forl\u00e1n, nosso goleador, foi eleito o melhor jogador do torneio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ganhou a Espanha. Esse pa\u00eds, que nunca havia conquistado a ta\u00e7a mundial, ganhou com justi\u00e7a, por obra e gra\u00e7a do seu futebol solid\u00e1rio, um por todos, todos por um, e pela assombrosa habilidade desse pequeno mago chamado Andr\u00e9s Iniesta.<br \/>\nHolanda foi vice, depois de uma \u00faltima partida em que traiu, aos pontap\u00e9s, as suas melhores tradi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A campe\u00e3 e a vice-campe\u00e3 da Copa anterior voltaram para casa sem abrir as malas. Em 2006, It\u00e1lia e Fran\u00e7a tinham se encontrado na partida final. Agora se encontraram na porta de sa\u00edda do aeroporto. Na It\u00e1lia, se multiplicaram as vozes cr\u00edticas a um futebol jogado para impedir que o rival jogue. Na Fran\u00e7a, o desastre provocou uma crise pol\u00edtica e acendeu as f\u00farias racistas, porque haviam sido negros quase todos os jogadores que cantaram a Marselhesa nos est\u00e1dios sul-africanos.<br \/>\nOutros favoritos, como a Inglaterra, tampouco duraram muito.<br \/>\nBrasil e Argentina sofreram cru\u00e9is banhos de humildade. O Brasil estava irreconhec\u00edvel, salvo nos momentos de liberdade que arrombaram a jaula do esquema defensivo. De que sofria este futebol para precisar de um rem\u00e9dio t\u00e3o duvidoso?<br \/>\nA Argentina foi goleada na sua \u00faltima partida. Meio s\u00e9culo antes, outra sele\u00e7\u00e3o argentina havia recebido uma chuva de moedas quando retornou de uma Copa desastrosa, mas desta vez foi bem recebida por uma multid\u00e3o afetuosa. Ainda h\u00e1 pessoas que creem em coisas mais importantes do que o \u00eaxito ou o fracasso.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esta Copa confirmou que os jogadores se lesionam com reveladora frequ\u00eancia, triturados como est\u00e3o pelo extenuante ritmo de trabalho que o futebol profissional imp\u00f5e impunemente. Dir\u00e3o que alguns ficaram ricos, e at\u00e9 riqu\u00edssimos, mas isso s\u00f3 \u00e9 verdade para os mais cotados, que al\u00e9m de jogar dois ou mais jogos por semana, e al\u00e9m de treinar noite e dia, sacrificam \u00e0 sociedade de consumo os seus escassos minutos livres vendendo cuecas, carros, perfumes e barbeadores e posando para as capas das revistas de luxo. E, ao fim e ao cabo, isso s\u00f3 prova que este mundo \u00e9 t\u00e3o absurdo que tem at\u00e9 escravos milion\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Faltaram ao encontro duas das superestrelas mais anunciadas e esperadas. Lionel Messi quis comparecer, fez o que p\u00f4de, e algo foi visto. Dizem que Cristiano Ronaldo esteve l\u00e1, mas ningu\u00e9m o viu: talvez estivesse muito ocupado vendo-se a si mesmo.<br \/>\nMas uma nova estrela, inesperada, surgiu das profundidades dos mares e se elevou ao ponto mais alto do firmamento futebol\u00edstico. \u00c9 um polvo que vive num aqu\u00e1rio da Alemanha. Chama-se Paul, ainda que merecesse chamar-se Polvodamus.<br \/>\nAntes de cada jogo, formulava as suas profecias. Faziam-no escolher entre os mexilh\u00f5es que levavam as bandeiras dos dois rivais. Ele comia os mexilh\u00f5es do vencedor, e n\u00e3o errava.<br \/>\nO or\u00e1culo oct\u00f3pode, que influenciou decisivamente nas apostas, foi ouvido no mundo futebol\u00edstico com religiosa rever\u00eancia e foi amado e odiado e at\u00e9 caluniado por alguns ressentidos, como eu: quando anunciou que Uruguai perderia contra Alemanha, denunciei:<br \/>\n\u2212 Este polvo \u00e9 um corrupto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quando o Mundial come\u00e7ou, pendurei na porta da minha casa um cartaz que dizia: Fechado devido ao futebol.<br \/>\nQuando o retirei, um m\u00eas depois, eu j\u00e1 havia jogado sessenta e quatro jogos, de cerveja na m\u00e3o, sem me mover da minha poltrona preferida.<br \/>\nEssa proeza me deixou mo\u00eddo, com os m\u00fasculos doloridos e a garganta arrebentada; mas j\u00e1 estou sentindo saudades. J\u00e1 come\u00e7o a sentir falta da insuport\u00e1vel ladainha das vuvuzelas, da emo\u00e7\u00e3o dos gols n\u00e3o recomendados para card\u00edacos, da beleza das melhores jogadas repetidas em c\u00e2mera lenta. E tamb\u00e9m da festa e do luto, porque \u00e0s vezes o futebol \u00e9 uma alegria que d\u00f3i, e a m\u00fasica que comemora alguma vit\u00f3ria dessas que fazem os mortos dan\u00e7ar soa muito parecida ao clamoroso sil\u00eancio do est\u00e1dio vazio, onde algum vencido, sozinho, incapaz de se mover, espera sentado em meio \u00e0s imensas arquibancadas sem ningu\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o de Futebol ao sol e \u00e0 sombra (sobre o qual fizemos uma s\u00e9rie no blog), de Eduardo Galeano, foi lan\u00e7ada em 1995. Desde ent\u00e3o, a cada nova Copa do Mundo, ele atualiza o livro e acrescenta novos textos. Foi assim em 1998, 2002 e 2006. 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