﻿{"id":17675,"date":"2012-09-24T09:07:06","date_gmt":"2012-09-24T12:07:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=17675"},"modified":"2012-09-24T09:07:06","modified_gmt":"2012-09-24T12:07:06","slug":"baita-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=17675","title":{"rendered":"Baita livro"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Juremir Machado da Silva*<\/em><\/p>\n<p>Luiz Antonio de Assis Brasil sempre escreveu bem. J\u00e1 tem seu lugar garantido entre os melhores escritores ga\u00fachos de todos os tempos, que n\u00e3o s\u00e3o muitos, os tempos. Ter\u00e1, apesar disso, de suportar um clich\u00ea que vou cometer agora: est\u00e1 como o bom vinho. Cada vez melhor. Leio-o desde quando eu tinha 22 anos e sonhava em mudar o mundo. Infelizmente para pior. Fui, talvez, o primeiro a resenhar &#8220;<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=836453&amp;ID=618481\">Videiras de Cristal<\/a>&#8220;. Quando Assis publica um livro, corro para ler. Imaginava que ele andasse absorto na sua labuta de secret\u00e1rio estadual da Cultura e longe da carpintaria da literatura. Nada disso. Ele acaba de lan\u00e7ar &#8220;<a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=836453&amp;ID=829351\">Figura na Sombra<\/a>&#8221; (L&amp;PM). Em linguagem de cr\u00edtico liter\u00e1rio, um romance soberbo. Em bom portugu\u00eas, um baita livro. \u00c9 a hist\u00f3ria do franc\u00eas Aim\u00e9 Bonpland, naturalista e companheiro de viagem de Humboldt por este Novo Mundo.<\/p>\n<p>Bonpland teve uma exist\u00eancia errante. Escalou, com Humboldt, o vulc\u00e3o Chimborazo e navegou pelas \u00e1guas do Orenoco at\u00e9 o rio Negro, comprovando a exist\u00eancia dessa liga\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do Canal de Casiquiare. Mais tarde, depois de um retorno \u00e0 Europa, mudou-se para Buenos Aires. Apaixonou-se pela yerba, a erva-mate. Retomou suas aventuras. Foi prisioneiro de El Supremo, o d\u00e9spota esclarecido do Paraguai. Abandonou e foi abandonado por mulheres estranhas. Antes disso, cuidou e desenvolveu os jardins de Malmaison, o castelo da imperatriz Josefina, mulher de Napole\u00e3o, por quem teria se apaixonado. Foi chamado de v\u00e1rios nomes, especialmente de Gringo &#8220;loco&#8221;. Teve a vida que muita gente gostaria de ter, inclusive eu, por algum tempo. Assis Brasil mergulha esse personagem bizarro, s\u00e1bio, iluminado, teimoso numa atmosfera de profunda solid\u00e3o. Sofreria por amor \u00e0 sua eterna Josefina? Ou por amor plat\u00f4nico a Humboldt? &#8220;Figura na Sombra&#8221; deixa essa porta aberta. Se n\u00e3o rolou, foi por medo de Bonpland. Humboldt parecia bem chegado.<\/p>\n<p>Humboldt virou um mito. Bonpland, embora reconhecido e admirado, ficou em segundo plano. Sofria com isso? Teria voltado ao fim de mundo para aplacar o seu ressentimento? Humboldt quis provar a l\u00f3gica perfeita da natureza. Bonpland intu\u00eda que tudo \u00e9 caos. Ganhou a parada? Hip\u00f3teses, especula\u00e7\u00f5es, probabilidades&#8230; Assis Brasil faz o cora\u00e7\u00e3o do leitor se apertar. Que puta solid\u00e3o! Que tristeza! Quanta m\u00e1goa, quanta loucura, quanto sil\u00eancio, quanta dor! H\u00e1 mist\u00e9rio, ambiente, imagin\u00e1rio e fantasia em cada p\u00e1gina. O autor domina a palavra como um tirano iluminado e iluminista. Se em alguns livros sua narrativa parecia recuperar a est\u00e9tica do s\u00e9culo XIX, em &#8220;Figura na Sombra&#8221; se v\u00ea, de corpo inteiro, o narrador deste s\u00e9culo XXI, \u00e1gil, sint\u00e9tico, curto-circuitando a descri\u00e7\u00e3o, alternando ruptura e continuidade, abra\u00e7ando uma fic\u00e7\u00e3o c\u00f3smica qu\u00e2ntica, uma simula\u00e7\u00e3o engenhosa de linearidade feita de saltos e lirismo. Tem balan\u00e7o de emo\u00e7\u00f5es, sinuosidade, um ritmo.<\/p>\n<p>Assis Brasil \u00e9 escritor de fato: ningu\u00e9m se atrever\u00e1 a perguntar-lhe se o que conta \u00e9 verdadeiro. A pergunta n\u00e3o faz sentido. S\u00f3 um imbecil a faria. Afinal, como poderia a fic\u00e7\u00e3o convincente ser falsa? Imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><em>* Juremir Machado da Silva \u00e9 escritor, jornalista, tradutor e professor universit\u00e1rio. Esta cr\u00f4nica foi publicada originalmente em <a href=\"http:\/\/www.correiodopovo.com.br\/Impresso\/?Ano=117&amp;Numero=359&amp;Caderno=0&amp;Editoria=120&amp;Noticia=467079\">sua\u00a0coluna di\u00e1ria do Jornal Correio do Povo<\/a> no dia 23 de setembro de 2012.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Juremir Machado da Silva* Luiz Antonio de Assis Brasil sempre escreveu bem. J\u00e1 tem seu lugar garantido entre os melhores escritores ga\u00fachos de todos os tempos, que n\u00e3o s\u00e3o muitos, os tempos. Ter\u00e1, apesar disso, de suportar um clich\u00ea que vou cometer agora: est\u00e1 como o bom vinho. Cada vez melhor. 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