﻿{"id":17292,"date":"2012-08-27T10:42:56","date_gmt":"2012-08-27T13:42:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=17292"},"modified":"2012-08-27T10:42:56","modified_gmt":"2012-08-27T13:42:56","slug":"o-prazer-de-traduzir-maigret","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=17292","title":{"rendered":"O prazer de traduzir Maigret"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/paulo_nevespb.jpg\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/paulo_nevespb.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-17293\" title=\"paulo_nevespb\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/paulo_nevespb.jpg\" alt=\"\" width=\"163\" height=\"245\" \/><\/a>Desde 1986, Paulo Neves dedica-se \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o. Para a L&amp;PM, j\u00e1 traduziu, entre outros,\u00a0Sartre, Balzac, Stendhal, Rousseau e muitas hist\u00f3rias de Simenon\u00a0vividas pelo\u00a0famoso comiss\u00e1rio Jules Maigret. No momento que acaba de entregar mais um Simenon in\u00e9dito no Brasil, <em>Uma confid\u00eancia de Maigret<\/em>\u00a0(que ele considera um dos melhores que j\u00e1 traduziu), Paulo nos falou sobre Maigret, processo de tradu\u00e7\u00e3o e sua carreira como escritor e poeta. Vale a pena ler essa entrevista e descobrir o que pensa e sente o respons\u00e1vel por\u00a0fazer com que os\u00a0livros de Simenon &#8211; e de tantos outros autores &#8211; sejam lidos em portugu\u00eas. Ali\u00e1s, em bom portugu\u00eas.<\/p>\n<blockquote><p><strong>L&amp;PM:<\/strong><em> <\/em>Voc\u00ea acaba de traduzir o seu 16\u00ba Maigret. Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com as hist\u00f3rias do famoso comiss\u00e1rio criado por Georges Simenon?<\/p>\n<p><strong>Paulo Neves:<\/strong> <em>Desde que traduzi o primeiro em 2006, curiosamente<\/em> <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=617170&amp;ID=631994\" target=\"_blank\">Mem\u00f3rias de Maigret<\/a><em>, passei a ter uma rela\u00e7\u00e3o muito \u00edntima com esse personagem. N\u00e3o s\u00f3 porque gosto do g\u00eanero policial, das investiga\u00e7\u00f5es de um Dupin, de um Sherlock Holmes, de um Hercule Poirot. O caso de Maigret \u00e9 diferente: para ele importa menos decifrar do que compreender o crime, com todas as suas implica\u00e7\u00f5es sociais e psicol\u00f3gicas. Sua maneira de investigar, ao mesmo tempo met\u00f3dica e compassiva, suas d\u00favidas, a consci\u00eancia de suas limita\u00e7\u00f5es e a honestidade consigo mesmo, cont\u00eam algo de uma \u00e9tica estoica. Simenon n\u00e3o muda muito o quadro de suas hist\u00f3rias: os lugares e os crimes se repetem, ele insiste nos h\u00e1bitos, nos cachimbos de Maigret, mas isso de modo algum cansa o leitor, que aos poucos vai se impregnando do sentido mais profundo dessa rotina. Foi o que descobri tamb\u00e9m como tradutor, confrontado \u00e0 linguagem despojada e aos di\u00e1logos curtos que Simenon utiliza para que as coisas fiquem, mais do que entendidas, subentendidas. Isso requer muita precis\u00e3o narrativa.<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 outro aspecto que me atrai particularmente nas hist\u00f3rias de Maigret. S\u00e3o as paisagens apenas entrevistas de Paris, por ligeiras pinceladas impressionistas que mostram as ruas, as \u00e1rvores, o c\u00e9u, as mudan\u00e7as de esta\u00e7\u00e3o do ano, a vida mi\u00fada da cidade. Estive l\u00e1 uma \u00fanica vez, exatamente h\u00e1 quarenta anos, muito antes de sonhar que seria tradutor e que passaria a habit\u00e1-la em imagina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de v\u00e1rios autores franceses traduzidos, como Balzac, por exemplo. Mas Simenon tem sido meu guia favorito, talvez porque reencontro, nas suas descri\u00e7\u00f5es breves, aquela impress\u00e3o vaga da minha mem\u00f3ria distante, como o vest\u00edgio de um sonho. Para quem l\u00ea ou para quem traduz, a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante do que a presen\u00e7a real. Pode ser que algum dia eu retorne a Paris, mas nunca deixei de v\u00ea-la atrav\u00e9s dos olhos de Maigret.<\/em><\/p>\n<p><strong>L&amp;PM:<\/strong> Na sua opini\u00e3o, quais s\u00e3o os melhores <em>Maigret<\/em> de Simenon?<\/p>\n<p><strong>PN:<\/strong> <em>Dif\u00edcil responder, porque n\u00e3o lembro detalhes de todos que traduzi. Citei antes<\/em> <a href=\"Mem\u00f3rias de Maigret\" target=\"_blank\">Mem\u00f3rias de Maigret<\/a><em>, que \u00e9 interessante pela reconstitui\u00e7\u00e3o dos come\u00e7os de sua carreira. Outros, como <\/em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=372905&amp;ID=915491\" target=\"_blank\">A louca de Maigret<\/a><em>,<\/em> <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=617170&amp;ID=627280\" target=\"_blank\">Maigret e o ministro<\/a><em>,<\/em> <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=617170&amp;ID=619082\" target=\"_blank\">Maigret em Vichy<\/a><em>, me agradaram pela trama ou pelos personagens que contracenam. Mas vou destacar o \u00faltimo que traduzi,<\/em> Uma confid\u00eancia de Maigret<em>, porque condensa o drama desse personagem que, encarregado de investigar, gostaria \u00e0s vezes de suspender o julgamento (ou, como ele diz, de ter escolhido outra profiss\u00e3o). Um crime \u00e9 cometido e a imprensa, o p\u00fablico, os ju\u00edzes n\u00e3o t\u00eam d\u00favidas sobre o culpado que, no entanto, se declara inocente. Maigret n\u00e3o tem provas suficientes para incrimin\u00e1-lo e tenta em v\u00e3o aprofundar uma investiga\u00e7\u00e3o. O que ele relata \u00e9 sua impot\u00eancia diante da pressa com que a sociedade busca encontrar culpados ou explica\u00e7\u00f5es para tudo o que acontece, quando \u00e0s vezes \u00e9 preciso esperar longamente. \u00c9 uma hist\u00f3ria quase filos\u00f3fica pela amplitude de suas reflex\u00f5es. Mas esse \u00e9 um ponto de vista pessoal, da minha predile\u00e7\u00e3o.\u00a0 O leitor encontrar\u00e1 aspectos da mesma filosofia do cotidiano em todas as hist\u00f3rias de Maigret.<\/em><\/p>\n<p><strong>L&amp;PM: <\/strong>Al\u00e9m de Simenon, voc\u00ea j\u00e1 traduziu, para a L&amp;PM, cl\u00e1ssicos da literatura e t\u00edtulos das cole\u00e7\u00f5es Biografias e Encyclopaedia.\u00a0Existe alguma prefer\u00eancia, na tradu\u00e7\u00e3o, por\u00a0determinado g\u00eanero liter\u00e1rio?<\/p>\n<p><strong>PN: <\/strong><em>J\u00e1 traduzi para a L&amp;PM cl\u00e1ssicos da literatura como<\/em> <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=816351&amp;ID=739264\" target=\"_blank\">O vermelho e o negro<\/a><em> de Stendhal, cl\u00e1ssicos da filosofia como<\/em> <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=526091&amp;ID=608263\" target=\"_blank\">Discurso do m\u00e9todo<\/a> de Descartes<em>, biografias de artistas como <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=638453&amp;ID=183615\" target=\"_blank\">Van Gogh<\/a> ou estudos sobre o economista <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=736390&amp;ID=092918\" target=\"_blank\">Keynes<\/a>, por exemplo, para a Cole\u00e7\u00e3o Encyclopaedia, e quase sempre foi com gosto que traduzi. Posso dizer que n\u00e3o tenho uma prefer\u00eancia por g\u00eanero liter\u00e1rio, contanto que o livro seja bem escrito e que o assunto me interesse. Claro que existem diferen\u00e7as ao traduzir: um livro de fic\u00e7\u00e3o ou mesmo de filosofia d\u00e3o muito mais trabalho e requerem uma aten\u00e7\u00e3o redobrada na escrita. Mas sempre tive um interesse amplo e diversificado em minhas leituras. Gosto de quase tudo e gosto principalmente de variar minhas tradu\u00e7\u00f5es. Com exce\u00e7\u00e3o talvez do Maigret, que se tornou ao mesmo tempo um prazer e uma fatalidade, pois nele reconhe\u00e7o, de certo modo, uma imagem transposta da minha condi\u00e7\u00e3o de tradutor.<\/em><\/p>\n<p><strong>L&amp;PM: <\/strong>Qual \u00e9 a\u00a0sua trajet\u00f3ria profissional? Quando come\u00e7ou a traduzir? E quais seriam, a seu ver, as caracter\u00edsticas necess\u00e1rias a um bom tradutor?<\/p>\n<p><strong>PN: <\/strong><em>Comecei a trabalhar como jornalista em S\u00e3o Paulo, onde morei de 1967 a 1981. Foram diversas experi\u00eancias em ag\u00eancia de not\u00edcias, r\u00e1dio, jornal, TV, at\u00e9 mesmo no setor de jornalismo empresarial. Mas eu n\u00e3o tinha diploma, que naquela \u00e9poca n\u00e3o era exigido, e, quando voltei a viver em Porto Alegre, tive dificuldade de arranjar emprego. Foi essa circunst\u00e2ncia que me levou a procurar tradu\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que eu tinha um conhecimento razo\u00e1vel do franc\u00eas e do ingl\u00eas. E foi justamente a L&amp;PM que me ofereceu o primeiro trabalho,<\/em> <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=810619&amp;ID=925474\" target=\"_blank\">P\u00e9s nus sobre a terra sagrada<\/a><em>, um belo livro de um antrop\u00f3logo que recolhe a palavra dos \u00edndios norte-americanos.\u00a0 Da\u00ed por diante as encomendas foram se sucedendo e me tornei um tradutor de tempo integral, me especializando cada vez mais no franc\u00eas. Isso modificou meu modo de vida, porque o tradutor, como todos sabem, \u00e9 um trabalhador solit\u00e1rio, hoje terceirizado. Por outro lado, fui compelido a acompanhar o processo de mudan\u00e7a dos instrumentos de escrita, da m\u00e1quina de escrever dos anos 1980 at\u00e9 chegar na Internet, quando o que mais aprecio ainda \u00e9 escrever com papel e l\u00e1pis. Muitas vezes me perguntei como pude resistir tanto tempo nessa condi\u00e7\u00e3o de enclausuramento for\u00e7ado diante da tela. A \u00fanica explica\u00e7\u00e3o que encontro \u00e9 que eu possu\u00eda, sem saber, certas caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas indispens\u00e1veis para esse tipo de trabalho, como ser paciente, met\u00f3dico e inventivo quando necess\u00e1rio. Caracter\u00edsticas que talvez se possa generalizar a todo bom tradutor e que reconhe\u00e7o, mais uma vez, em Maigret.<\/em><\/p>\n<p><strong>L&amp;PM: <\/strong>Al\u00e9m de tradutor, voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 poeta. Continua escrevendo?<\/p>\n<p><strong>PN: <\/strong><em>Sempre gostei de escrever, mas nunca tive um projeto de ser escritor. Cheguei a redigir um texto, a partir de uma pesquisa da Funarte sobre \u201cArte e t\u00e9cnica\u201d, que acabou sendo publicado por uma pequena editora de S\u00e3o Paulo em 1985, intitulado <\/em>Mixagem<em>, o ouvido musical do Brasil. Mas foi s\u00f3 depois que comecei a traduzir que a escrita pessoal se tornou de fato, talvez por necessidade de um contrapeso interno, um exerc\u00edcio di\u00e1rio e sistem\u00e1tico, nas horas que me restavam \u00e0 noite ap\u00f3s o trabalho diurno. Em 2006 saiu pela Companhia das Letras um livro,<\/em> Viagem, espera<em>, no qual re\u00fano poemas e textos em prosa escritos ao longo de v\u00e1rios anos. Posteriormente, mantive durante um ano e meio um blog (<\/em><a href=\"http:\/\/www.nolimiar.wordpress.com\/\"><em>www.nolimiar.wordpress.com<\/em><\/a><em>) que tamb\u00e9m resultou num livro, <\/em>No limiar<em>, ainda virtual, n\u00e3o publicado em papel. Acho que a escrita independe do seu meio de difus\u00e3o, embora o livro seja o modo melhor de guard\u00e1-la. Mas para mim ela \u00e9 antes, ou passou a ser, uma necessidade vital, um exerc\u00edcio sem finalidade como a poesia. Continuo escrevendo, portanto, mas em tr\u00e2nsito, intransitivamente.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?FiltroStr=paulo+neves&amp;FiltroCampo=Tradutores&amp;Template=..%2Flivros%2Flayout_buscaprodutos.asp&amp;I1.x=23&amp;I1.y=17\" target=\"_blank\">Clique aqui<\/a> e conhe\u00e7a mais t\u00edtulos traduzidos por Paulo Neves\u00a0na\u00a0L&amp;PM Editores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 1986, Paulo Neves dedica-se \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o. Para a L&amp;PM, j\u00e1 traduziu, entre outros,\u00a0Sartre, Balzac, Stendhal, Rousseau e muitas hist\u00f3rias de Simenon\u00a0vividas pelo\u00a0famoso comiss\u00e1rio Jules Maigret. 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