﻿{"id":16859,"date":"2012-07-31T11:55:10","date_gmt":"2012-07-31T14:55:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=16859"},"modified":"2012-07-31T11:55:10","modified_gmt":"2012-07-31T14:55:10","slug":"o-que-vale-mais-o-escritor-ou-o-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=16859","title":{"rendered":"O que vale mais, o escritor ou o livro?"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>Por Jos\u00e9 Roberto Torero*<\/em>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 mais importante, o criador ou a criatura?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eu prefiro a criatura. N\u00e3o me importa muito se um autor tem 18, 68 ou 118 anos, se \u00e9 um office-boy, um acad\u00eamico ou uma striper, se nasceu na Mooca, em Londres ou em Pokhara, a cidade-lago do Nepal.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O que me importa \u00e9 o livro. Mas muitos preferem o escritor.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 claro que tem o seu sabor saber quem escreve uma obra. Eu mesmo, quando pego um livro na livraria, dou aquela olhada na orelha para ver a foto do autor e ler sua biografia. Mas isso deve ser apenas a cereja do bolo, n\u00e3o seu recheio; deve ser apenas uma nota de rodap\u00e9, n\u00e3o a cabe\u00e7a da reportagem.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O culto \u00e0 personalidade tem crescido tanto que em v\u00e1rias resenhas voc\u00ea fica sabendo onde nasceu o escritor, com quem ele \u00e9 casado e o esc\u00e2ndalo que deu em sua adolesc\u00eancia, mas quase nada sobre a obra.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A orelha est\u00e1 sendo mais valorizada do que as p\u00e1ginas do livro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O cartunista Laerte, por exemplo, \u00e9 brilhante desde os tempos da editora Obor\u00e9, quando fazia ilustra\u00e7\u00f5es para sindicatos, mas nunca ganhou tanto destaque quanto depois de praticar o <em>crossdressing<\/em>.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Ubaldo \u00e9 provavelmente nosso melhor romancista vivo, mas nos \u00faltimos anos lembro mais de reportagens sobre seu problema com \u00e1lcool do que cr\u00edticas a seus livros. Uma imensa injusti\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dalton Trevisan e Rubem Fonseca s\u00e3o escritores excelentes, dois dos nossos melhores contistas. Mas sempre s\u00e3o lembrados pelo fato de n\u00e3o darem entrevistas, de serem um tanto reclusos. Ou seja, n\u00e3o quererem ser not\u00edcia os transforma em not\u00edcia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 como se a cr\u00edtica estivesse mais para revista Caras do que para Jornal de Resenhas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Este culto \u00e0 personalidade do autor n\u00e3o \u00e9 exclusividade do Brasil. L\u00e1 fora acontece o mesmo. Talvez at\u00e9 mais. Um bom exemplo \u00e9 JT LeRoy. Ou Jeremiah \u201cTerminator\u201d LeRoy.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A hist\u00f3ria \u00e9 a seguinte: Laura Albert, uma ex-punk, j\u00e1 passada dos trinta anos, queria ser escritora. Mas percebeu que sua persona era pouco interessante. Ent\u00e3o inventou JT LeRoy para assinar seus livros. Ele seria um jovem de quinze anos, ex-viciado em hero\u00edna, que teria sofrido abuso sexual na inf\u00e2ncia e se prostitu\u00eddo para sobreviver.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os dois primeiros livros de JT fizeram bastante sucesso. No come\u00e7o, ele (ou melhor, Laura) s\u00f3 dava entrevistas por telefone. Mas logo ela arranjou uma modelo (sua cunhada Savannah Knoop) para se passar por JT. Assim a personagem passou a aparecer em p\u00fablico, a falar com celebridades e a ir em festas, muitas festas. At\u00e9 para a Flip JT foi convidado.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Dez anos depois, quando a farsa foi descoberta, um diretor de cinema que tinha comprado os direitos para filmar um de seus livros quis desfazer o neg\u00f3cio. Seu argumento foi de que, mais importante que a hist\u00f3ria, era a persona de seu autor que traria sucesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. E ele ganhou a causa.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Claro que se trata de um caso extremo. Mas os casos extremos servem para evidenciar o que \u00e9 um tanto sutil, um tanto subterr\u00e2neo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Creio que muito deste culto ao autor \u00e9 culpa dos autores rom\u00e2nticos, que buscavam o mito de escritor maldito, de serem bafejados pelos deuses (ou pelos dem\u00f4nios). Eles devem ter conquistado muitas senhoritas assim. Mas, de quebra, deram ao escritor uma aura que o deixa diferente dos outros mortais. Uma bobagem.<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00e3o se quer saber a biografia do m\u00e9dico que nos opera, do marceneiro que fez nossa mesa, nem do professor que ensina nossos filhos (o que seria bem mais importante). Mas do escritor, sim. E ela n\u00e3o tem a menor import\u00e2ncia. Pelo menos, n\u00e3o literariamente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>De qualquer forma, se voc\u00ea est\u00e1 escrevendo seu primeiro livro, aconselho a gastar menos tempo com o texto e mais com sua autobiografia. Invente algo bem criativo. Diga que tem dois sexos, que \u00e9 especialista em magia negra, que sua m\u00e3e assassinou seu pai e que foi amamentado por lobos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>E, se der uma entrevista, n\u00e3o esque\u00e7a de uivar no final.\u00a0\u00a0<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>*Jos\u00e9 Roberto Torero \u00e9 formado em Letras e Jornalismo pela USP, publicou 24 livros, entre eles <em>O Chala\u00e7a<\/em> (Pr\u00eamio Jabuti e Livro do ano em 1995), <em>Pequenos Amores<\/em> (Pr\u00eamio Jabuti 2004) e, mais recentemente, <em>O Evangelho de Barrab\u00e1s<\/em>. \u00c9 colunista de futebol na <em>Folha de S.Paulo<\/em> desde 1998. Escreveu tamb\u00e9m para o <em>Jornal da Tarde<\/em> e para a revista <em>Placar<\/em>. Dirigiu alguns curtas-metragens e o longa <em>Como fazer um filme de amor<\/em>. \u00c9 roteirista de cinema e tev\u00ea, onde por oito anos escreveu o <em>Retrato Falado<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>O texto acima foi publicado originalmente em <a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5688\" target=\"_blank\">sua coluna da ag\u00eancia Carta Maior em 17 de julho de 2012<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5688\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Roberto Torero*\u00a0 O que \u00e9 mais importante, o criador ou a criatura? Eu prefiro a criatura. N\u00e3o me importa muito se um autor tem 18, 68 ou 118 anos, se \u00e9 um office-boy, um acad\u00eamico ou uma striper, se nasceu na Mooca, em Londres ou em Pokhara, a cidade-lago do Nepal. 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