﻿{"id":16649,"date":"2012-07-19T15:07:38","date_gmt":"2012-07-19T18:07:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=16649"},"modified":"2012-07-24T16:10:36","modified_gmt":"2012-07-24T19:10:36","slug":"contardo-calligaris-assitiu-ao-filme-na-estrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=16649","title":{"rendered":"Contardo Calligaris assitiu ao filme &#8220;Na estrada&#8221;"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>&#8220;Na estrada&#8221;<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Contardo Calligaris*<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/contardo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16651\" title=\"contardo\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/contardo.jpg\" alt=\"\" width=\"405\" height=\"185\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/contardo.jpg 500w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/contardo-300x137.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Assisti a &#8220;Na Estrada&#8221;, de Walter Salles, na sexta passada, no Rio. E passei o fim de semana pensando na minha vida.<\/p>\n<p>Li &#8220;Na Estrada&#8221;, de Jack Kerouac, no fim dos anos 1960, provavelmente em Nova York -mas talvez em Houston. O texto que eu li era uma vers\u00e3o expurgada; isso, na \u00e9poca, eu n\u00e3o sabia. N\u00e3o voltei ao texto em 2007, quando a Viking publicou o manuscrito original (em portugu\u00eas pela L&amp;PM). Mas o texto voltou em mim com for\u00e7a, na sexta-feira, quando assisti ao filme.<\/p>\n<p>Nos anos 1960, eu era um hippie lendo um &#8220;beat&#8221;. Na mesma \u00e9poca, &#8220;Almo\u00e7o Nu&#8221;, de William Burroughs, me seduzia, mas me assustava -longe demais de minha experi\u00eancia (das drogas, do sexo e da vida). Tamb\u00e9m lia Allen Ginsberg e Gregory Corso, mas, aos dois, preferia Lawrence Ferlinghetti -outra escolha &#8220;bem comportada&#8221;, dir\u00e1 algu\u00e9m.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que &#8220;Na Estrada&#8221; foi a parte da heran\u00e7a &#8220;beat&#8221; da qual eu me apropriei imediatamente. Por qu\u00ea? As drogas, o \u00e1lcool ou o sexo &#8220;livre&#8221; me pareciam secund\u00e1rios -apenas um jeito de dizer: &#8220;N\u00e3o esperem que a gente viva como manda o figurino&#8221;.<\/p>\n<p>O essencial, para mim, era a jun\u00e7\u00e3o da fome de aventura com uma raivosa vontade de escrever. A vida se confundia com um projeto liter\u00e1rio que exigia os excessos: era preciso viver intensa e loucamente, de peito aberto, para que valesse a pena contar a hist\u00f3ria. Por isso, eu e outros pod\u00edamos, ao mesmo tempo, venerar Kerouac e Hemingway -os quais, \u00e1lcool \u00e0 parte, provavelmente, n\u00e3o se dariam.<\/p>\n<p>Pensando bem, eu fui mais um &#8220;beat&#8221; atrasado do que um hippie. A procura por ilumina\u00e7\u00f5es interiores e comunh\u00f5es c\u00f3smicas da idade de Aqu\u00e1rio, tudo isso me parecia pacotilha para &#8220;Hair&#8221;, coisa da Broadway. Fiz minha peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00cdndia e ao Nepal, mas considerava com desconfian\u00e7a o orientalismo que estava na moda: o budismo dos anos finais de Kerouac e Ginsberg n\u00e3o me parecia mais s\u00e9rio do que o hindu\u00edsmo dos Beatles.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que eu era um esp\u00e9cimen bastardo: &#8220;mezzo&#8221; hippie e &#8220;mezzo&#8221; maio-68 franc\u00eas, &#8220;mezzo&#8221; descendente dos &#8220;beats&#8221; e &#8220;mezzo&#8221; filho marxista do p\u00f3s-guerra europeu.<\/p>\n<p>Kerouac n\u00e3o tinha simpatia pelo marxismo. Ele preferia o individualismo dos que procuram uma fronteira para desbravar -pouco a ver com um projeto de reforma social ou de revolu\u00e7\u00e3o. Para os &#8220;beats&#8221;, ali\u00e1s, transformar a sociedade seria um problema. Certo, Neal Cassady e Gregory Corso passaram tempo na cadeia; e Burroughs, Kerouac e Ginsberg foram censurados. Mas, justamente, num mundo que n\u00e3o lhes resistisse, a vida dos &#8220;beats&#8221; perderia sua dimens\u00e3o \u00e9pica.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos 1970 e 1980, fazendo um balan\u00e7o, eu teria dito que, em mim, a heran\u00e7a marxista europeia prevalecera sobre a heran\u00e7a &#8220;beat&#8221;. Hoje, penso o contr\u00e1rio -n\u00e3o sei se por decep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou por maturidade. Mas n\u00e3o tenho muitas certezas: por exemplo, minha err\u00e2ncia pelo mundo foi uma experi\u00eancia da estrada ou uma vers\u00e3o &#8220;chique&#8221; do cosmopolitismo for\u00e7ado dos trabalhadores modernos?<\/p>\n<p>E ser\u00e1 que vivi como um fogo de artif\u00edcio? Ou ent\u00e3o durar e continuar vivo se tornou, para mim, mais importante do que me arriscar na intensidade das experi\u00eancias?<\/p>\n<p>O filme de Salles est\u00e1 sendo a ocasi\u00e3o imperd\u00edvel de um balan\u00e7o -ainda n\u00e3o decidi se festivo ou melanc\u00f3lico. Cuidado, o balan\u00e7o n\u00e3o interessa s\u00f3 minha gera\u00e7\u00e3o. Cada um de n\u00f3s pode se perguntar, um dia, como resolveu a eterna e imposs\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o entre seguran\u00e7a e aventura: quanta aventura ele sacrificou \u00e0 sua seguran\u00e7a?<\/p>\n<p>Essa conta deveria ser feita sem esquecer que 1) a seguran\u00e7a \u00e9 sempre ilus\u00f3ria (todos acabamos morrendo) e 2) qualquer aventura n\u00e3o passa de uma fic\u00e7\u00e3o, um sonho suspenso entre a expectativa e a lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Que voc\u00ea tenha lido ou n\u00e3o o livro de Kerouac, e seja qual for sua gera\u00e7\u00e3o, assista ao filme e se interrogue: se uma noite, inesperadamente, Neal Cassady tocar a campainha de sua casa, louco de aventuras para serem vividas e com o olhar fundo de quem dirige h\u00e1 horas e ainda quer se jogar na estrada, voc\u00ea saberia e poderia, sem fazer mala alguma, simplesmente ir embora com ele?<\/p><\/blockquote>\n<p>*Este texto foi publicado originalmente na coluna de Contardo Calligaris no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo no dia 19 de julho de 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Na estrada&#8221; Por Contardo Calligaris* Assisti a &#8220;Na Estrada&#8221;, de Walter Salles, na sexta passada, no Rio. E passei o fim de semana pensando na minha vida. Li &#8220;Na Estrada&#8221;, de Jack Kerouac, no fim dos anos 1960, provavelmente em Nova York -mas talvez em Houston. 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