﻿{"id":16154,"date":"2017-06-13T10:14:48","date_gmt":"2017-06-13T13:14:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=16154"},"modified":"2017-06-13T10:14:21","modified_gmt":"2017-06-13T13:14:21","slug":"o-santo-antonio-de-fernando-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=16154","title":{"rendered":"O Santo Ant\u00f4nio de Fernando Pessoa"},"content":{"rendered":"<p>Fernando Ant\u00f4nio Nogueira Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888, \u00e0s 15h20min, no Largo de S\u00e3o Carlos e Lisboa. Era Dia de Santo Ant\u00f4nio e, coincid\u00eancia ou n\u00e3o, sua m\u00e3e escolheu\u00a0uma alcunha bem parecida\u00a0com o nome original do santo: Ant\u00f4nio Fernando de Bulh\u00f5es. No site portugu\u00eas <a href=\"http:\/\/arquivopessoa.net\/textos\/3791\" target=\"_blank\">MultiPessoa<\/a>, que divulga a obra do escritor e oferece material did\u00e1tico e de pesquisa, h\u00e1 um poema chamado \u201cSanto Antonio\u201d. Segundo consta, este \u00e9 um dos poemas que estava dentro da <a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=8991\" target=\"_blank\">arca em que Pessoa guardava a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria <\/a>que ainda n\u00e3o havia sa\u00eddo em livro.<\/p>\n<blockquote>\n<div id=\"attachment_16156\" style=\"width: 312px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/pessoa_mae.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-16156\" class=\"size-full wp-image-16156  \" title=\"pessoa_mae\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/pessoa_mae.png\" width=\"302\" height=\"432\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/pessoa_mae.png 335w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/pessoa_mae-209x300.png 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-16156\" class=\"wp-caption-text\">O pequeno Fernando Pessoa no colo da m\u00e3e, Maria Magdalena<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: left;\">SANTO ANT\u00d3NIO<\/p>\n<p><em>Nasci exactamente no teu dia \u2014<br \/>\nTreze de Junho, quente de alegria,<br \/>\nCitadino, buc\u00f3lico e humano,<br \/>\nOnde at\u00e9 esses cravos de papel<br \/>\nQue t\u00eam uma bandeira em p\u00e9 quebrado<br \/>\nSabem rir&#8230;<br \/>\nSanto dia profano<br \/>\nCuja luz sabe a mel<br \/>\nSobre o ch\u00e3o de bom vinho derramado!<\/em><\/p>\n<p><em>Santo Ant\u00f3nio, \u00e9s portanto<br \/>\nO meu santo,<br \/>\nSe bem que nunca me pegasses<br \/>\nTeu franciscano sentir,<br \/>\nCat\u00f3lico, apost\u00f3lico e romano.<\/em><\/p>\n<p><em>(Reflecti.<br \/>\nOs cravos de papel creio que s\u00e3o<br \/>\nMais propriamente, aqui,<br \/>\nDo dia de S. Jo\u00e3o&#8230;<br \/>\nMas n\u00e3o vou escangalhar o que escrevi.<br \/>\nQue tem um poeta com a precis\u00e3o?)<\/em><\/p>\n<p><em>Adiante &#8230; Ia eu dizendo, Santo Ant\u00f3nio,<br \/>\nQue tu \u00e9s o meu santo sem o ser.<br \/>\nPor isso o \u00e9s a valer,<br \/>\nQue \u00e9 essa a santidade boa,<br \/>\nA que fugiu deveras ao dem\u00f3nio.<br \/>\n\u00c9s o santo das raparigas,<br \/>\n\u00c9s o santo de Lisboa,<br \/>\n\u00c9s o santo do povo.<br \/>\nTens uma aur\u00e9ola de cantigas,<br \/>\nE ent\u00e3o<br \/>\nQuanto ao teu cora\u00e7\u00e3o \u2014<br \/>\nEst\u00e1 sempre aberto l\u00e1 o vinho novo.<\/em><\/p>\n<p><em>Dizem que foste um pregador insigne,<br \/>\nUm austero, mas de alma ardente e ansiosa,<br \/>\nEtcetera&#8230;<br \/>\nMas qual de n\u00f3s vai tomar isso \u00e0 letra?<br \/>\nQue de hoje em diante quem o diz se digne<br \/>\nDeixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.<\/em><\/p>\n<p><em>Qual santo! Olham a \u00e1rvore a olho nu<br \/>\nE n\u00e3o a v\u00eaem, de olhar s\u00f3 os ramos.<br \/>\nChama-se a isto ser doutor<br \/>\nOu investigador.<\/em><\/p>\n<p><em>Qual Santo Ant\u00f3nio! Tu \u00e9s tu.<br \/>\nTu \u00e9s tu como n\u00f3s te figuramos.<\/em><\/p>\n<p><em>Valem mais que os serm\u00f5es que deveras pregaste<br \/>\nAs bilhas que talvez n\u00e3o concertaste.<br \/>\nMais que a tua long\u00ednqua santidade<br \/>\nQue at\u00e9 j\u00e1 o Diabo perdoou,<br \/>\nMais que o que houvesse, se houve, de verdade<br \/>\nNo que \u2014 aos peixes ou n\u00e3o \u2014 a tua voz pregou,<br \/>\nVale este sol das gera\u00e7\u00f5es antigas<br \/>\nQue acorda em n\u00f3s ainda as semelhan\u00e7as<br \/>\nCom quando a vida era s\u00f3 vida e instinto,<br \/>\nAs cantigas,<br \/>\nOs rapazes e as raparigas,<br \/>\nAs dan\u00e7as<br \/>\nE o vinho tinto.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00f3s somos todos quem nos faz a hist\u00f3ria.<br \/>\nN\u00f3s somos todos quem nos quer o povo.<br \/>\nO verdadeiro t\u00edtulo de gl\u00f3ria,<br \/>\nQue nada em nossa vida d\u00e1 ou traz<br \/>\n\u00c9 haver sido tais quando aqui and\u00e1mos,<br \/>\nBons, justos, naturais em singeleza,<br \/>\nQue os descendentes dos que n\u00f3s am\u00e1mos<br \/>\nNos promovem a outros, como faz<br \/>\nCom a imagina\u00e7\u00e3o que h\u00e1 na certeza,<br \/>\nO amante a quem ama,<br \/>\nE o faz um velho amante sempre novo.<br \/>\nAssim o povo fez contigo<br \/>\nNunca foi teu devoto: \u00e9 teu amigo,<br \/>\n\u00d3 eterno rapaz.<\/em><\/p>\n<p><em>(Qual santo nem santeza!<br \/>\nDeita-te noutra cama!)<br \/>\nSantos, bem santos, nunca t\u00eam beleza.<br \/>\nDeus fez de ti um santo ou foi o Papa? &#8230;<br \/>\nTira l\u00e1 essa capa!<br \/>\nDeus fez-te santo! O Diabo, que \u00e9 mais rico<br \/>\nEm fantasia, promoveu-te a manjerico.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9s o que \u00e9s para n\u00f3s. O que tu foste<br \/>\nEm tua vida real, por mal ou bem,<br \/>\nQue coisas, ou n\u00e3o coisas se te devem<br \/>\nCom isso a est\u00e9ril multid\u00e3o arraste<br \/>\nNa nora de uns burros que puxam, quando escrevem,<br \/>\nEssa prolixa nulidade, a que se chama hist\u00f3ria,<br \/>\nQue foste tu, ou foi algu\u00e9m,<br \/>\nS\u00f3 Deus o sabe, e mais ningu\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9s pois quem n\u00f3s queremos, \u00e9s tal qual<br \/>\nO teu retrato, como est\u00e1 aqui,<br \/>\nNeste bilhete postal.<br \/>\nE parece-me at\u00e9 que j\u00e1 te vi.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9s este, e este \u00e9s tu, e o povo \u00e9 teu \u2014<br \/>\nO povo que n\u00e3o sabe onde \u00e9 o c\u00e9u,<br \/>\nE nesta hora em que vai alta a lua<br \/>\nNum pl\u00e1cido e leg\u00edtimo recorte,<br \/>\nAtira risos naturais \u00e0 morte,<br \/>\nE cheio de um prazer que mal \u00e9 seu,<br \/>\nEm canteiros que andam enche a rua.<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00ea sempre assim, nosso pag\u00e3o encanto,<br \/>\nS\u00ea sempre assim!<br \/>\nDeixa l\u00e1 Roma entregue \u00e0 intriga e ao latim,<br \/>\nEsquece a doutrina e os serm\u00f5es.<br \/>\nDe mal, nem tu nem n\u00f3s merec\u00edamos tanto.<br \/>\nFoste Fernando de Bulh\u00f5es,<br \/>\nFoste Frei Ant\u00f3nio \u2014<br \/>\nIsso sim.<br \/>\nPorque dem\u00f3nio<br \/>\n\u00c9 que foram pregar contigo em santo?<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Na\u00a0Cole\u00e7\u00e3o L&amp;PM Pocket, h\u00e1 a s\u00e9rie Fernando Pessoa, com <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=510927&amp;SubsecaoID=0&amp;Serie=Fernando%20Pessoa\" target=\"_blank\">sete livros do mestre portugu\u00eas<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Ant\u00f4nio Nogueira Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888, \u00e0s 15h20min, no Largo de S\u00e3o Carlos e Lisboa. 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