﻿{"id":1590,"date":"2010-06-28T17:43:55","date_gmt":"2010-06-28T17:43:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=1590"},"modified":"2014-05-20T10:44:23","modified_gmt":"2014-05-20T13:44:23","slug":"balzac-e-a-politica-um-autor-de-direita-e-uma-obra-de-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=1590","title":{"rendered":"Balzac e a pol\u00edtica: um autor de direita e uma obra de esquerda"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/topobalzac11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1591\" title=\"topobalzac11\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/topobalzac11.jpg\" width=\"445\" height=\"70\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/topobalzac11.jpg 445w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/topobalzac11-300x47.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Ivan Pinheiro Machado<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=948848&amp;SubsecaoID=0&amp;Template=..\/livros\/layout_autor.asp&amp;AutorID=748315\" target=\"_blank\">Balzac<\/a> viveu em um dos per\u00edodos mais movimentados e importantes da hist\u00f3ria da humanidade. Nasceu em 20 de maio de 1799 e morreu em 19 de agosto de 1850. Isto significa que, 10 anos antes de seu nascimento, seu pai \u2013 advogado e vereador em Tours, cidade onde morava a fam\u00edlia de Balzac \u2013 estava \u00e0s voltas com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa que eclodiu em 14 de julho de 1789. Este dia \u00e9 o come\u00e7o do fim do poder absoluto de Luis XVI que acabou definitivamente em setembro de 1792 quando foi proclamada a Rep\u00fablica. Meses mais tarde, em fevereiro de 93, o rei e a rainha foram decapitados. Come\u00e7ou ent\u00e3o o per\u00edodo do Terror, comandado pelos radicais Marat, Danton e Robespierre. Marat acabou assassinado na banheira por Charlotte Corday. Depois foi Danton e, por fim, a cabe\u00e7a do \u201cincorrupt\u00edvel\u201d Robespierre foi parar no cesto, encerrando o per\u00edodo do Terror um ano depois de seu come\u00e7o. O Diret\u00f3rio passou a governar a Fran\u00e7a. \u00c9 a \u00e9poca do in\u00edcio das guerras napole\u00f4nicas, da ascens\u00e3o fulminante da burguesia, e da institui\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o generalizada. Em 18 brum\u00e1rio do ano IX, segundo o calend\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o (9 de novembro de 1799), aconteceu o famoso golpe de Estado que conduziu Napole\u00e3o \u00e0 chefia da Na\u00e7\u00e3o. Balzac tinha 8 meses quando ele assumiu o poder e 6 anos quando autoproclamou-se Imperador. Napole\u00e3o caiu em 1814, mas\u00a0 voltou do ex\u00edlio na Ilha de Elba para reassumir o governo dos \u201c100 dias\u201d. Seu fim ocorreu em 1815 quando foi derrotado em Waterloo. Balzac tinha 15 anos e assistiu nas Tulherias quando o Imperador fez a pomposa revista das tropas que iam para Waterloo. 20 anos depois, ele descreveria esta cena impressionante de forma magistral em<em> <a href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=636453&amp;ID=921131\" target=\"_blank\">A mulher de 30 anos<\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Finda a era de Napole\u00e3o, foi restaurada a monarquia com Luis XVIII, depois sucedido por seu primo Carlos X em 1824. Conservador, Carlos X tentou derrubar as conquistas de julho de 1789 e caiu com a Revolu\u00e7\u00e3o de julho de 1830. Subiu ao trono, Luis Felipe I, o \u201cFelipe \u00c9galit\u00e9\u201d, um monarca \u201cesclarecido\u201d situado bem \u00e0 esquerda de Carlos X e simpatizante de Revolu\u00e7\u00e3o. Mas Felipe foi destronado em 1848 quando, desgastado pela crise econ\u00f4mica e pelas intrigas palacianas, caiu em desgra\u00e7a tanto pela esquerda como pela direita. Foi proclamada ent\u00e3o \u2013 para desespero de Balzac \u2013 a II Rep\u00fablica. Balzac morreu em 1850 e n\u00e3o viu a volta da Fran\u00e7a Imperial. Em 1852, o sobrinho de Napole\u00e3o Bonaparte, Luis Bonaparte, foi coroado imperador, ap\u00f3s um plebiscito com a concord\u00e2ncia de 95% dos franceses. O Napole\u00e3o III ficaria 18 anos no poder.<\/p>\n<p><strong>\u00a0O \u201crelator\u201d de um novo mundo<\/strong><\/p>\n<p>Pode-se dizer que Balzac viveu, na plenitude de sua vida, toda a efervesc\u00eancia pol\u00edtica da Fran\u00e7a e da Europa da primeira metade do s\u00e9culo XIX.\u00a0 E n\u00e3o foi pouca coisa. Os primeiros 25 anos do s\u00e9culo XIX foram uma viagem vertiginosa com mudan\u00e7as que se refletiriam nos rumos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. O jovem Balzac estava l\u00e1 e teve a sensibilidade de perceber que aquela era uma nova sociedade. Havia uma burguesia financeira e industrial nascente, uma classe m\u00e9dia composta de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, profissionais liberais e comerciantes. E havia, sobretudo, a possibilidade de mudar de classe, de ascender socialmente. Enfim, um novo mundo estava batendo \u00e0 sua porta. E Balzac percebeu que era sua chance de entrar para o panteon da hist\u00f3ria; ele iria ser o \u201crelator\u201d deste novo mundo. Sua Com\u00e9dia Humana \u00e9 o documento definitivo desta transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto os historiadores se preocuparam em documentar os eventos hist\u00f3ricos, Balzac fez o inestim\u00e1vel servi\u00e7o de narrar a chamada \u201cvida privada\u201d da Europa neste meio s\u00e9culo. Marx e Engels nunca esconderam sua admira\u00e7\u00e3o por Balzac &#8211; que os pr\u00f3prios comunistas consideravam \u201cum vassalo da aristocracia\u201d. Mas Engels teve a percep\u00e7\u00e3o correta de que \u201cBalzac descreveu melhor a sociedade francesa do que todos os tratados de historiadores, economistas e estat\u00edsticos\u201d.<\/p>\n<p>Politicamente falando, Balzac \u00e9 o paradoxo em pessoa. Auto-intitulado monarquista e legitimista, era a favor da monarquia do \u201cdireito divino\u201d. Seu legado liter\u00e1rio \u00e9 um verdadeiro brado contra a usura, contra a sociedade do dinheiro pelo dinheiro. Suas presas prediletas s\u00e3o os banqueiros, os agiotas, os funcion\u00e1rios super-graduados do Estado franc\u00eas. N\u00e3o h\u00e1 um elogio da monarquia como sistema (embora muitas vezes ele apregoe &#8220;um governo forte&#8221;), mas existe um cinismo impregnado em seus personagens que freq\u00fcentam o poder. Sua literatura exp\u00f5e as v\u00edsceras de um sistema geralmente corrupto; o tr\u00e1fico de influ\u00eancias, o nepotismo, as sedu\u00e7\u00f5es do poder, o fisiologismo pol\u00edtico, a troca de favores.<\/p>\n<p>Se foi \u201cprogressista\u201d em sua obra e \u201creacion\u00e1rio\u201d na vida real, esta \u00e9 apenas mais uma contradi\u00e7\u00e3o deste homem que viveu os paradoxos e, dentro deles, construiu a maior obra da hist\u00f3ria da literatura. No final da sua vida, estava indignado com a Revolu\u00e7\u00e3o de 1848 quando Luis Felipe, que ele considerava um monarca \u201cliberal demais\u201d, foi derrubado. As barricadas nas ruas de Paris, a II Rep\u00fablica, deixaram Balzac perplexo. Para ele, era demais absorver a entrada de uma nova classe, no caso, a classe oper\u00e1ria, no jogo social. Politicamente, manifestava-se cansado e decepcionado, no ocaso de sua vida. Mesmo assim, apresentou-se como candidato a deputado pelo partido conservador na nova Constituinte. N\u00e3o foi eleito.<\/p>\n<p>Balzac defendia os aristocratas, era contra a Rep\u00fablica e tinha um fasc\u00ednio deslumbrado pela nobreza, pelo \u201cfaubourg\u201d Saint Germain, onde moravam os bem nascidos. Este homem de direita fez uma obra de esquerda. Balzac queria ser rico e nobre a qualquer custo. Mas exp\u00f4s as mazelas de um mundo f\u00fatil e corrupto. Era fascinado pelas altas rodas, pelo luxo, mas em seus romances ridicularizava os banqueiros, os agiotas e os grandes propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p>A nossa sorte \u00e9 que ele foi um desastre para os neg\u00f3cios, como vimos no post <a href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/site\/default.asp?p=961\" target=\"_blank\">\u201cUm homem de (maus) neg\u00f3cios\u201d<\/a>. Porque na impossibilidade de ser rico e poderoso s\u00f3 restou a ele ganhar a vida escrevendo a Com\u00e9dia Humana.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 <a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=1491\" target=\"_blank\">O homem que amava as mulheres<\/a><br \/>\n\u2013 <a title=\"Permanent Link to Balzac: a volta ao Brasil mais de 20 anos depois\" href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/?p=774\" rel=\"bookmark\">Balzac: a volta ao Brasil mais de 20 anos depois<\/a><br \/>\n\u2013 <a title=\"Permanent Link to Por que ler Balzac\" href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/?p=874\" rel=\"bookmark\">Por que ler Balzac<\/a><br \/>\n\u2013 <a title=\"Permanent Link to O monumento chamado Com\u00e9dia Humana\" href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/?p=895\" rel=\"bookmark\">O monumento chamado <em>Com\u00e9dia Humana<\/em><\/a><br \/>\n\u2013 <a title=\"Permanent Link to Balzac: o homem de (maus) neg\u00f3cios\" href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/?p=961\" rel=\"bookmark\">Balzac: o homem de (maus) neg\u00f3cios<\/a><br \/>\n\u2013 <a title=\"Permanent Link to Sexo para todos os gostos\" href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/?p=981\" rel=\"bookmark\">Sexo para todos os gostos<\/a><br \/>\n\u2013 <a title=\"Permanent Link to 20 de maio: anivers\u00e1rio de Balzac\" href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/?p=1075\" rel=\"bookmark\">20 de maio: anivers\u00e1rio de Balzac<\/a><br \/>\n\u2013 <a title=\"Permanent Link to Ouro e prazer\" href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/?p=1201\" rel=\"bookmark\">Ouro e prazer<\/a><br \/>\n\u2013 <a title=\"Permanent Link to Balzac e as balzaquianas\" href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/?p=1310\" rel=\"bookmark\">Balzac e as balzaquianas<\/a><br \/>\n\u2013 <a title=\"Permanent Link to O poder das mulheres na Com\u00e9dia humana\" href=\"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/?p=1401\" rel=\"bookmark\">O poder das mulheres na <em>Com\u00e9dia humana<\/em><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=1664\" target=\"_blank\"><em><strong>CLIQUE AQUI PARA LER A PARTE 12 DESTA S\u00c9RIE.<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ivan Pinheiro Machado Balzac viveu em um dos per\u00edodos mais movimentados e importantes da hist\u00f3ria da humanidade. 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