﻿{"id":15581,"date":"2012-05-08T15:42:48","date_gmt":"2012-05-08T18:42:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=15581"},"modified":"2013-09-12T15:30:06","modified_gmt":"2013-09-12T18:30:06","slug":"john-fante-por-caio-fernando-abreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=15581","title":{"rendered":"John Fante por Caio Fernando Abreu"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>Os sonhos de todos n\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>Se me perguntassem qual foi o livro que mais gostei de ler em 1984 (e nos \u00faltimos anos), responderia sem vacilar: <em>P<\/em><em>ergunte<\/em> <em>ao p\u00f3<\/em>, de John Fante. Ele trouxe de volta um tipo de emo\u00e7\u00e3o experimentado no final dos anos 1960, com a descoberta de J. D. Salinger, do Holden Caulfield de <em>O<\/em> <em>apanhador no campo de centeio <\/em>aos membros da fam\u00edlia Glass, \u00e0 qual pertencia Seymour, o suicida poeta zen. Em comum entre os dois, uma infinita piedade pela condi\u00e7\u00e3o humana e a inoc\u00eancia de personagens perdidas num mundo de rela\u00e7\u00f5es incompreens\u00edveis. <em>Sonhos de Bunker Hill <\/em>traz de volta o <em>alter ego <\/em>de Fante: o escritor Arturo Bandini, visto alguns anos depois de <em>Pergunte ao p\u00f3<\/em>. O virginal Bandini do livro anterior<em> <\/em>agora batalha no mundo dos roteiros cinematogr\u00e1ficos de Los Angeles \u2013 cidade que ele amou e cantou como ningu\u00e9m \u2013, fascinado por traseiros femininos, em luta contra a falta de grana e, quase sempre, de inspira\u00e7\u00e3o para escrever. Publicado originalmente em 1982, um ano antes da morte de Fante, aos 74 anos, o livro tem uma peculiaridade: n\u00e3o foi escrito, mas ditado a Joyce, mulher do autor. Cego, com as duas pernas amputadas devido a problemas com diabetes, essa foi a \u00fanica maneira que Fante encontrou de n\u00e3o parar de escrever. N\u00e3o podia parar. E, escrevendo ou ditando, a emo\u00e7\u00e3o era sempre a mesma: tripas e cora\u00e7\u00e3o, como diz seu admirador <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..%2Flivros%2Flayout_buscaprodutos.asp&amp;FiltroStr=Bukowski&amp;FiltroCampo=Autores&amp;I1.x=3&amp;I1.y=14\" target=\"_blank\">Bukowski<\/a>, misturados no mesmo esfor\u00e7o de fundir humor e dor, ternura e rid\u00edculo, grandeza e mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Bandini \u00e9 palha\u00e7o, her\u00f3i, gigol\u00f4, artista, vagabundo, rom\u00e2ntico: tudo ao mesmo tempo. Da\u00ed talvez sua irresist\u00edvel simpatia, capaz de fazer com que qualquer um de n\u00f3s se identifique com suas confus\u00f5es. Em volta de Bandini, uma galeria de personagens \u2013 muitas nitidamente calcadas em modelos reais daquela fauna absurda dos anos de ouro de Hollywood, nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940 \u2013 t\u00e3o malucas quanto ele. Podem ser a roteirista Velda van der Zee, autora (em coautoria com Bandini) do hilariante faroeste Sin City, ou o tamb\u00e9m roteirista Frank Edgington, vagamente homossexual, com quem Bandini divide uma hist\u00f3ria amb\u00edgua, regada a vinho e maconha (ele agora est\u00e1 menos moralista do que quando conheceu Camila Lopez, a inesquec\u00edvel princesa maia de sapatos em farrapos, de <em>Pergunte ao p\u00f3<\/em>), o lutador Duque de Sardenha, ou a amante Helen Brownell, dona do hotel onde ele mora. Em todos, a palavra de Fante n\u00e3o demarca nenhum limite definido entre a dignidade e o grotesco. Nessa delicada faixa de transi\u00e7\u00e3o do c\u00f4mico para o tr\u00e1gico, nessa corda bamba entre o que se gostaria de ser e o que realmente se \u00e9, equilibram-se as pungentes criaturas de Fante. Que fazem rir um riso nervoso, de olhos molhados. Os sonhos sonhados em Bunker Hill, guardadas circunst\u00e2ncias e propor\u00e7\u00f5es, s\u00e3o os mesmos sonhos de todos n\u00f3s. \u00c9 o sonho de um trabalho criativo e gratificante, que a realidade acaba por reduzir a duas palavras no roteiro de Sin City: <em>\u00d4oo! <\/em>e <em>Eia! <\/em>Os sonhos de um grande amor pulverizados pelo cansa\u00e7o sem <em>sex appeal <\/em>de uma cinquentona, e a modesta contesta\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9ramos bons um para o outro, Helen Brownell e eu\u201d. O sonho de uma volta triunfante ao lugar de origem \u2013 quando Bandini retorna a Boulder, no Colorado, e um porre antiestrat\u00e9gico transforma em tombo as vantagens contadas sobre Johnny Weismuller e Esther Williams e Buster Crabbe. Em todos os tombos de Bandini, o desmentido da fantasia de que a vida, afinal, seja menos mesquinha. Viver \u2013 a pr\u00f3pria vida vai provando aos pouquinhos \u2013 n\u00e3o tem nenhum <em>happy<\/em> <em>end <\/em>em technicolor e cinemascope. Para Fante-Bandini, a \u00fanica forma de conquistar essa ilus\u00e3o de sentido, grandeza ou beleza da vida talvez tenha sido escrever.<\/p>\n<p>Por isso, no final, com \u201cdezessete d\u00f3lares na carteira e o medo de escrever\u201d, ele senta-se em frente \u00e0 m\u00e1quina e, orando a Deus e a Knut Hamsum, inicia o processo m\u00e1gico e salvador de transformar em fic\u00e7\u00e3o cheia de poesia uma realidade que nem sempre foi t\u00e3o po\u00e9tica assim. \u201cAh vida!\u201d \u2013 ele clamava em <em>Pergunte ao p\u00f3<\/em>. \u2013 \u201cTua amarga doce trag\u00e9dia, sua puta deslumbrante que me levaste \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o\u201d. John Fante n\u00e3o foi exatamente \u201cum gigante da literatura\u201d, nem escreveu sobre grandes trag\u00e9dias da alma humana: detinha-se sobre o pequeno, com muito cuidado. Com doses generosas de sentimentos raros: perd\u00e3o e amor. Ele escreveu pouco: al\u00e9m de <em>Pergunte ao p\u00f3 <\/em>e <em>Bunker Hill<\/em>, sua obra comp\u00f5em- se apenas de <em>Wait Until Spring, Bandini <\/em>(1938), os contos<em> <\/em>de <em>Dago Red <\/em>(1940), <em>Full of Life <\/em>(1952) e <em>The Brotherhood<\/em> <em>of Grape <\/em>(1977) [postumamente\u00a0foi publicado\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=636453&amp;ID=535480\" target=\"_blank\">1933 foi um ano ruim<\/a><\/em>]. Passou quase toda a vida<em> <\/em>retirado dos cintilantes circuitos da badala\u00e7\u00e3o, \u00e0s voltas com problemas de sa\u00fade. Era um homem muito simples, todos dizem. Sabia que suas hist\u00f3rias n\u00e3o tinham muitas pretens\u00f5es mais do que resgatar do p\u00f3 do esquecimento figuras que, se ele n\u00e3o as tivesse lembrado, permaneceriam para sempre an\u00f4nimas. Sabia tamb\u00e9m que tudo parece meio idiota quando se pensa na morte. E que as pessoas, de muitas maneiras estranhas, tortuosas, piradas, no final das contas s\u00f3 querem amar e ser felizes. Doloroso \u00e9 que isso, que parece t\u00e3o pouco, seja geralmente t\u00e3o inating\u00edvel. Fante-Bandini sabia muito bem de todas essas coisas.<\/p><\/blockquote>\n<p>(Texto escrito por <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=948848&amp;SubsecaoID=0&amp;Template=..\/livros\/layout_autor.asp&amp;AutorID=38\" target=\"_blank\">Caio Fernando Abreu<\/a> em 1985 e publicado originalmente na introdu\u00e7\u00e3o do livro\u00a0<em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..\/livros\/layout_produto.asp&amp;CategoriaID=527090&amp;ID=814904\" target=\"_blank\">Sonhos de Bunker Hill<\/a><\/em>, de John Fante.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os sonhos de todos n\u00f3s Se me perguntassem qual foi o livro que mais gostei de ler em 1984 (e nos \u00faltimos anos), responderia sem vacilar: Pergunte ao p\u00f3, de John Fante. Ele trouxe de volta um tipo de emo\u00e7\u00e3o experimentado no final dos anos 1960, com a descoberta de J. D. 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