﻿{"id":1495,"date":"2010-06-18T13:48:13","date_gmt":"2010-06-18T13:48:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-editores.com.br\/blog\/?p=1495"},"modified":"2010-06-21T11:48:30","modified_gmt":"2010-06-21T11:48:30","slug":"adeus-a-saramago-o-unico-premio-nobel-da-lingua-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=1495","title":{"rendered":"Adeus a Saramago, o \u00fanico Pr\u00eamio Nobel da l\u00edngua portuguesa"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Ivan Pinheiro Machado<\/em><\/p>\n<p>Aquela quarta-feira de outubro de 1998 parecia uma quarta-feira comum na Feira do Livro de Frankfurt. Os corredores apinhados de editores, agentes e livreiros em geral cumpriam a rotina de vender e comprar livros e direitos de publica\u00e7\u00e3o. O segundo andar da ala 5, no enorme espa\u00e7o destinado \u00e0s Feiras, era ocupado pelos estandes das editoras espanholas, italianas, gregas, turcas e pelo estande oficial do Brasil que ficava h\u00e1 poucos metros do estande oficial de Portugal. Um espa\u00e7o bem grande, onde os editores portugueses recebiam seus clientes e amigos.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos tomando o primeiro caf\u00e9 do dia no estande brasileiro, prontos para cumprir uma agenda que inclui uma m\u00e9dia de 10 reuni\u00f5es por dia, de quarta \u00e0 s\u00e1bado, quando ouviu-se\u00a0uma explos\u00e3o de gritos, risos e assovios vindos do estande ao lado. Parecia gol de Portugal. Os 30 hectares da Feira de Frankfurt, com seus longos corredores acarpetados e suas esteiras rolantes que comunicam os pavilh\u00f5es, costumam guardar um certo recato silencioso. Neg\u00f3cios de milh\u00f5es de d\u00f3lares s\u00e3o sussurrados pelos estandes. N\u00e3o \u00e9 comum gritos, assovios, cantorias. Salvo quando um autor \u00e9 comunicado de que acaba de ganhar o pr\u00eamio Nobel.<\/p>\n<p>Enquanto sa\u00edamos curiosos de onde est\u00e1vamos, tivemos tempo de ver um senhor magro e alto ser arrastado em triunfo por uma multid\u00e3o de conterr\u00e2neos emocionados que cantava o hino da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, \u201cGr\u00e2ndola Vila Morena\u201d. Jos\u00e9 Saramago havia recebido a not\u00edcia, coincidentemente no meio dos livros, em territ\u00f3rio do seu pa\u00eds, na grande feira internacional. A correria foi infernal. Em minutos, centenas de jornalistas, emissoras de TVs, curiosos e seguran\u00e7as engolfavam o estande portugu\u00eas marcado por aquele momento hist\u00f3rico. Todos estavam comovidos, inclusive n\u00f3s brasileiros e nossa velha l\u00edngua portuguesa. Jos\u00e9 Saramago escreveu, entre outros romances, \u201cEvangelho segundo Jesus Cristo\u201d, \u201cA jangada de Pedra\u201d, Ensaio sobre a cegueira\u201d, \u201cMemorial do convento\u201d e o maravilhoso \u201cO ano da morte de Ricardo Reis\u201d.<\/p>\n<p>Hoje pela manh\u00e3, enquanto a S\u00e9rvia\u00a0estava prestes\u00a0a derrotar a Alemanha\u00a0na segunda rodada da Copa do Mundo, recebi a not\u00edcia de que Jos\u00e9 Saramago morrera na sua cidade de Lazarota, nas Ilhas Can\u00e1rias, aos 87 anos. \u00c9 sempre triste receber a not\u00edcia da morte de um homem bom. E com Jos\u00e9 Saramago morreu um s\u00edmbolo de humanismo, f\u00e9 na utopia e esperan\u00e7a de um mundo mais justo e igual. Membro do Partido Comunista Portugu\u00eas, foi um dos pilares de sustenta\u00e7\u00e3o intelectual da famosa Revolu\u00e7\u00e3o de Cravos de 1975, que acabou com a terr\u00edvel ditadura Salazarista. Aqueles \u201cque s\u00e3o jovens\u00a0h\u00e1 menos tempo do que n\u00f3s\u201d, como diz o Anonymus Gourmet, talvez n\u00e3o saibam. Mas n\u00e3o foi pouco acabar com a sanguin\u00e1ria\u00a0tirania de Salazar, um d\u00e9spota \u00e0 altura dos seus piores colegas latinoamericanos da \u00e9poca. E Saramago lutou pelos seus ideais, foi perseguido, preso e, por fim, venceu a ditadura. Morreu fiel a sua utopia, acreditando que era poss\u00edvel haver um mundo melhor do este em que vivemos.<\/p>\n<div id=\"attachment_1496\" style=\"width: 284px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/saramago-award.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1496\" class=\"size-full wp-image-1496\" title=\"saramago-award\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/saramago-award.jpg\" alt=\"\" width=\"274\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/saramago-award.jpg 274w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/06\/saramago-award-205x300.jpg 205w\" sizes=\"auto, (max-width: 274px) 100vw, 274px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1496\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Saramago recebendo o Pr\u00eamio Nobel de Literatura 1998<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ivan Pinheiro Machado Aquela quarta-feira de outubro de 1998 parecia uma quarta-feira comum na Feira do Livro de Frankfurt. 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