﻿{"id":12793,"date":"2011-12-08T15:01:11","date_gmt":"2011-12-08T17:01:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=12793"},"modified":"2011-12-08T15:15:01","modified_gmt":"2011-12-08T17:15:01","slug":"oh-yes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=12793","title":{"rendered":"Oh yes"},"content":{"rendered":"<p><em>por Rafael Raffa*<\/em><\/p>\n<p>Eu estava morando em outro pa\u00eds. Sozinho. Trabalhava 12 horas por dia, seis dias por semana. Acordava e ia para o trabalho. Voltava de madrugada para lavar roupas, lou\u00e7a, limpar o banheiro. E toda madrugada, eu aleatoriamente abria o livro <em>The Pleasures of the Damned<\/em>, de Charles Bukowski, e lia alguns poemas. A naturalidade deles me fazia bem. Havia algu\u00e9m por tr\u00e1s das palavras, realmente. N\u00e3o havia mentira. Apenas alguns exageros, claro. E o segredo estava nesses exageros. Toda a mis\u00e9ria cotidiana traduzida num simples amarrar de cadar\u00e7o. A vida simplificada em arte. Como se tudo aquilo pudesse acontecer. O jeito que as palavras rolavam p\u00e1gina abaixo, encaixando-se perfeitamente em sua confus\u00e3o. Humor nos momentos certos. O triunfo sobre a dor. Assim, n\u00e3o me sentia t\u00e3o sozinho.<\/p>\n<p>Numa dessas madrugadas, pensava em desistir de tudo. Ir embora. Sentia que podia morrer e n\u00e3o haveria ningu\u00e9m para fechar meus olhos, como fazem nos filmes. Sozinho, no quarto, sem motivo para seguir. Uma pequena trag\u00e9dia. Ao mesmo tempo, desistir de l\u00e1, era desistir de mim. Do que eu pretendia ver e sentir. Estava t\u00e3o confuso, que folhava o livro sem ler, somente olhando as palavras. At\u00e9 que parei num poema curto que me chamou a aten\u00e7\u00e3o. <em>Oh yes<\/em>, o t\u00edtulo:<\/p>\n<blockquote><p><em><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/bukowski_flowers.jpg\"><\/a><\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/bukowski_flowers.jpg\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/buk_pleasures.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-12799\" title=\"buk_pleasures\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/12\/buk_pleasures-198x300.jpg\" alt=\"\" width=\"123\" height=\"180\" \/><\/a>h\u00e1 coisas piores na vida do que<br \/>\nficar sozinho<br \/>\nmas frequentemente leva d\u00e9cadas<br \/>\npara entender isso<br \/>\ne mais frequentemente<br \/>\nquando voc\u00ea entende<br \/>\n\u00e9 tarde demais<br \/>\ne n\u00e3o h\u00e1 nada pior do que<br \/>\ntarde<br \/>\ndemais<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Levantei e fui preparar algo para comer. Pensando em ir embora. Pensando em ficar. O mundo pressionando suas paredes contra mim. Coloquei uma pizza congelada no forno. Abri uma garrafa de vinho. Tomei um longo gole no bico. Algo em torno de 20 segundos, o vinho escorrendo pela minha boca. Sentindo-me muito bem com isso. Sentindo um sopro de esperan\u00e7a no est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Comi, como se aquilo fosse um verdadeiro banquete. Como se fizesse sentido. O vinho descendo leve pela garganta. A rua Finchley, laranja, do lado de fora. A melhor pizza do mundo. Tudo t\u00e3o simples, como nos poemas. Servi outro copo e estiquei minhas pernas. Algo dentro de mim havia esquecido de se preocupar.<\/p>\n<p>Escutei o colombiano com quem eu dividia o apartamento chegando. Subindo as escadas sem vontade. Os p\u00e9s pesados nas escadas. \u00a0Escutei a porta abrindo e batendo forte ao fechar . Deve estar voltando da casa da namorada ga\u00facha, pensei.<\/p>\n<p><em>&#8211; Meus Deus, as mulheres brasileiras s\u00e3o malucas.<\/em> Ele disse, entrando na sala e sentando-se ao meu lado.<br \/>\n<em>&#8211; Conta alguma coisa que eu n\u00e3o saiba.<\/em><\/p>\n<p>Abri o livro na mesa; p\u00e1gina 188. \u00a0Oh yes, apontei, e fui buscar outro copo para ele. Servi um dos grandes. A gente precisava. Perguntei o que havia achado do poema. Legal, respondeu. Perguntei como estava o namoro. N\u00e3o podia estar melhor, disse. N\u00f3s dois rimos. E continuamos. Rindo da sorte e do azar. Rindo do laranja da rua Finchley. Rindo dos pequenos traumas da vida. Rindo do vinho. E, principalmente, rindo de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Eu consigo entender quando gritam que Charles Bukowski s\u00f3 escreve sobre mis\u00e9ria, bebedeiras, sexo, escatologias. Que \u00e9 <em>\u201c<a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=12547\" target=\"_blank\">muito s\u00e1dico, ocasionalmente fascista e discriminat\u00f3rio contra determinados grupos<\/a>\u201d<\/em>. Que n\u00e3o presta. Que n\u00e3o tem pretens\u00e3o art\u00edstica. Que n\u00e3o \u00e9 literatura. Eu entendo, mas n\u00e3o consigo deixar de pensar que deixaram escapar alguma coisa. Nunca os vejo falando sobre a esperan\u00e7a, a beleza das pequenas coisas, o apoio no simples. A forma, escondida pela naturalidade. Quase um acidente. A forma atrav\u00e9s da confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez, quando o leram, fizeram a pergunta errada. Com Bukowski, est\u00e1 tudo ali, exposto. N\u00e3o h\u00e1 inten\u00e7\u00f5es por de tr\u00e1s das palavras. As inten\u00e7\u00f5es est\u00e3o nos detalhes, nos acontecimentos, no humor, na realidade. Perguntaram-se o que ele quis dizer, quando o que mais importa, \u00e9 o que ele fez eles entenderem. O filho da puta mais dur\u00e3o que voc\u00ea j\u00e1 viu, sem m\u00e1scara alguma. Assim como eu. Como voc\u00ea. Como qualquer um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Espero que numa pr\u00f3xima vez, deixem a naturalidade das palavras simples entrarem em seus pulm\u00f5es. Sem as muletas liter\u00e1rias. Sem as muletas do bom senso. Apenas o galope selvagem das frases que entram cortes e saem cicatrizes.<\/p>\n<p>Sirvo mais um copo de vinho agora. Levanto para o alto. Fa\u00e7o um brinde para o colombiano e outro pra voc\u00ea, Hank.<\/p>\n<p><em>* Rafael Raffa \u00e9 estudante de jornalismo e, depois de morar em Londres, voltou \u00e0 sua cidade natal: Porto Alegre. Ele \u00e9 t\u00e3o f\u00e3 de Bukowski que tatuou em\u00a0sua perna esquerda um desenho feito por &#8220;Hank&#8221;,\u00a0de quem\u00a0a L&amp;PM publica todos os <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..%2Flivros%2Flayout_buscaprodutos.asp&amp;FiltroStr=Bukowski&amp;FiltroCampo=Autores&amp;I1.x=22&amp;I1.y=6\" target=\"_blank\">romances, mais contos e poemas<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Rafael Raffa* Eu estava morando em outro pa\u00eds. Sozinho. Trabalhava 12 horas por dia, seis dias por semana. Acordava e ia para o trabalho. Voltava de madrugada para lavar roupas, lou\u00e7a, limpar o banheiro. E toda madrugada, eu aleatoriamente abria o livro The Pleasures of the Damned, de Charles Bukowski, e lia alguns poemas. 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