﻿{"id":12081,"date":"2011-11-01T15:52:07","date_gmt":"2011-11-01T17:52:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=12081"},"modified":"2011-11-01T16:10:27","modified_gmt":"2011-11-01T18:10:27","slug":"52-sebastian-b-dangerfield-o-vagabundo-iluminado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=12081","title":{"rendered":"52. Sebastian B. Dangerfield: o vagabundo iluminado"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/ERA-UMA-VEZ-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-12082\" title=\"ERA UMA VEZ 2\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/ERA-UMA-VEZ-2-1024x122.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"53\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/ERA-UMA-VEZ-2-1024x122.jpg 1024w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/ERA-UMA-VEZ-2-300x35.jpg 300w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/ERA-UMA-VEZ-2.jpg 1121w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Por Ivan Pinheiro Machado*<\/em><\/p>\n<p>Todos t\u00eam aqueles cinco livros da sua vida. Eu at\u00e9 tenho d\u00favida sobre os outros quatro. Teria de escolher entre dez, quinze. Mas sei bem qual \u00e9 o primeiro da lista: <em>Ginger Man<\/em>, de J. P. Donleavy. A primeira vez que eu li tinha 18 anos. A segunda vez, eu j\u00e1 estava com 40 anos. Agora, quatro d\u00e9cadas depois de ter lido pela primeira vez, eu mantenho intacta a emo\u00e7\u00e3o, o fervor que as frases el\u00edpticas, barrocas, transgressoras e debochadas me causaram no primeiro encontro. Procuro, procuro e n\u00e3o me lembro de um livro cujo impacto tenha sido igual com tanta diferen\u00e7a de tempo entre a primeira e a segunda leitura.\u00a0\u00a0Tudo porque este \u00e9 um livro genial.<\/p>\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o que li chamava-se, na edi\u00e7\u00e3o brasileira, <em>Sexta-feira triangular<\/em>, lan\u00e7ado pela editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. Meu exemplar, comprado pelo meu pai em 1970 \u00e9 um dos 30 ou 40 livros que eu conservo daquela \u00e9poca. Colado com durex na lombada e no miolo, meu velho <em>Sexta-feira triangular<\/em> resistiu ao tempo, a\u00a0v\u00e1rias leituras e chegou combalido ao come\u00e7o da segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21. E o mais impressionante \u00e9 que este desgrenhado, rasgado, velho e amarelado livro cont\u00e9m um texto de divina vanguarda, refinada loucura e deslumbrante beleza\u00a0quando trata\u00a0das vicissitudes, das mis\u00e9rias e das grandezas da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<div id=\"attachment_12083\" style=\"width: 415px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/sexta_feira_triangular.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12083\" class=\"size-large wp-image-12083 \" title=\"sexta_feira_triangular\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/sexta_feira_triangular-689x1023.jpg\" alt=\"\" width=\"405\" height=\"601\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/sexta_feira_triangular-689x1023.jpg 689w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/sexta_feira_triangular-202x300.jpg 202w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/sexta_feira_triangular.jpg 1090w\" sizes=\"auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12083\" class=\"wp-caption-text\">A edi\u00e7\u00e3o colada com durex, a primeira lida por Ivan Pinheiro Machado<\/p><\/div>\n<p>Certa vez, com pouco mais de 20 anos de idade, convidado pelo meu amigo Fernando Gasparian, eu fui a um jantar na sua casa. Sentei ao lado de Enio Silveira, o dono da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. Era um homem em torno dos 55 anos, cuja dignidade e postura de resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar serviam de exemplo para todos n\u00f3s. Sua grande livraria no centro do Rio de Janeiro fora incendiada pelo famigerado CCC (Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas). Enfim, eu o admirava profundamente e estava tenso sentado ao seu lado quando ele me olhou, me examinou de alto a baixo e perguntou: \u201cE voc\u00ea, t\u00e3o jovem,\u00a0o que voc\u00ea faz?\u201d. Eu n\u00e3o tive coragem de dizer que era editor e balbuciei que era jornalista, amigo do Gasparian. A seguir eu disse a ele: \u201cEu li <em>Sexta-feira Triangular<\/em>, que o senhor editou e achei um livro incr\u00edvel, um dos mais impressionantes que eu j\u00e1 li\u201d. O Enio afastou a cadeira e me olhou de novo de alto a baixo: \u201cVoc\u00ea leu este livro?\u201d. Eu confirmei com a cabe\u00e7a. Ele sorriu e me disse que eu tinha sido um dos poucos que tiveram esta grande experi\u00eancia, pois este livro \u201ctinha sido um dos maiores\u00a0fracassos de venda\u00a0da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira\u201d.<\/p>\n<p>J. P. Donleavy, seu autor, firme e forte com 80 anos hoje, publicou <em>Ginger Man<\/em> com pouco mais de 29 anos e \u00e9 sua obra-prima. Americano, filho de pais irlandeses, morou nos EUA, em Dublin e hoje reside em Londres. Uma vez, trabalhando como fot\u00f3grafo para o jornal <em>Zero Hora<\/em>, antes da exist\u00eancia da L&amp;PM, fui fotografar Erico Verissimo em sua casa no bairro Petr\u00f3polis em Porto Alegre. O rep\u00f3rter era o saudoso Marcos Faermann, criador de v\u00e1rios jornais alternativos, entre eles o famoso \u201cVersus\u201d. Terminada a sess\u00e3o de fotos, eu perguntei ao Erico, que era um homem extraordinariamente gentil e generoso: \u201cErico, tu j\u00e1 ouviste falar de um tal de J. P. Donleavy? Eu li um livro dele que eu adorei, mas ningu\u00e9m conhece este cara\u201d. O Erico abriu um sorriso e disse &#8220;Ginger Man!\u201d. Eu fiquei paralisado e bradei \u201cEste mesmo!\u201d. \u201c\u00c9 um livro bel\u00edssimo \u2013 ele disse -, louco, mas bel\u00edssimo\u201d.<\/p>\n<p>Por anos a fio eu dizia (de sacanagem) \u201ceste livro que s\u00f3 eu e o Erico Verissimo lemos no Brasil, \u00e9 um livro genial&#8230;\u201d Passou-se o tempo, muito tempo&#8230; Em 2006, est\u00e1vamos eu e Caroline Chang, editora aqui da L&amp;PM, numa reuni\u00e3o na Bienal de S\u00e3o Paulo com a agente inglesa-brasileira Tassy Bahran, quando ela falou: \u201ctenho um livro aqui que o Johnny Deep\u00a0 comprou os direitos para filmar, chama-se \u2018Ginger Man\u2019\u201d. Eu, que estava distra\u00eddo, dei um pulo. \u201cO qu\u00ea????\u201d. A Tassy arregalou seus belos olhos verdes e perguntou no seu sotaque <em>british-carioqu\u00eas<\/em>: \u201cO que houve?\u201d. Eu respondi apenas \u201cEu quero publicar este livro\u201d. E contei toda esta hist\u00f3ria acima.<\/p>\n<p>Pois bem. Compramos os direitos e a Cac\u00e1 (como \u00e9 conhecida mundialmente a Caroline Chang), num trabalho de detetive, localizou os herdeiros do tradutor Mario Mascherpe e comprou os direitos de utilizar sua tradu\u00e7\u00e3o feita para a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. Cabe aqui uma homenagem a este grande tradutor, pois este trabalho \u00e9 quase intranspon\u00edvel pela velocidade na narrativa, pelas express\u00f5es de g\u00edria e basicamente por ser um livro falado o tempo todo por desqualificados, vagabundos, miser\u00e1veis e personagens muito estranhos. Tudo isso em Dublin. Num clima joyceano de neblina, u\u00edsque, chuva fina, em meio \u00e0 desesperan\u00e7a caracter\u00edstica dos anos que sucederam a 2\u00aa Grande Guerra. Pois Mario Mascherpe conseguiu a proeza de traduzir e manter intacta a linguagem e a magia do livro.<\/p>\n<div id=\"attachment_12091\" style=\"width: 378px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/Um_safado_dublin.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12091\" class=\"size-large wp-image-12091 \" title=\"Um_safado_dublin\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/Um_safado_dublin-613x1023.jpg\" alt=\"\" width=\"368\" height=\"614\" srcset=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/Um_safado_dublin-613x1023.jpg 613w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/Um_safado_dublin-179x300.jpg 179w, https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/Um_safado_dublin.jpg 1864w\" sizes=\"auto, (max-width: 368px) 100vw, 368px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12091\" class=\"wp-caption-text\">Capa de &quot;Um safado em Dublin&quot;, que deve chegar \u00e0 Cole\u00e7\u00e3o L&amp;PM Pocket no fim de novembro<\/p><\/div>\n<p>O grande Enio Silveira que me perdoe, mas mudamos o t\u00edtulo, j\u00e1 que &#8220;Ginger Man&#8221; \u00e9 praticamente intraduz\u00edvel (homem-gengibre) no seu sentido irland\u00eas. Optamos por <em>Um\u00a0safado em Dublin<\/em>. Achamos que tem mais <em>sex appeal<\/em>. O livro sair\u00e1 no final de novembro. A saga de Sebastian B. Dangerfield.\u00a0E continua sendo um dos poucos livros geniais que eu li na minha vida.<\/p>\n<p><em>* Toda ter\u00e7a-feira, o editor Ivan Pinheiro Machado resgata hist\u00f3rias que aconteceram em mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de L&amp;PM. Este \u00e9 o\u00a0quinquag\u00e9simo segundo post da S\u00e9rie \u201c<\/em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/blog\/?cat=777\" target=\"_blank\"><em>Era uma vez\u2026 uma editora<\/em><\/a><em>\u201c.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ivan Pinheiro Machado* Todos t\u00eam aqueles cinco livros da sua vida. Eu at\u00e9 tenho d\u00favida sobre os outros quatro. Teria de escolher entre dez, quinze. Mas sei bem qual \u00e9 o primeiro da lista: Ginger Man, de J. P. Donleavy. A primeira vez que eu li tinha 18 anos. 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