﻿{"id":11003,"date":"2011-09-16T10:30:35","date_gmt":"2011-09-16T13:30:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=11003"},"modified":"2011-09-16T10:49:04","modified_gmt":"2011-09-16T13:49:04","slug":"morando-na-camisa-embaixo-do-chapeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=11003","title":{"rendered":"Morando na camisa embaixo do chap\u00e9u"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Anonymus Gourmet (Jos\u00e9 Antonio Pinheiro Machado)*<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/ze_antonio_churras.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-11016\" title=\"ze_antonio_churras\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/ze_antonio_churras.jpg\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"174\" \/><\/a>Anonymus Gourmet, que sobreviveu ao regime militar, inclui entre suas vaidades favoritas a toler\u00e2ncia am\u00e1vel ao direito das minorias. Ele sempre esteve do lado mais dif\u00edcil, orgulha-se Madame Queiroz, testemunha daqueles tempos. Ela gosta de repetir a frase de Borges (ele, sempre ele): <em>A um verdadeiro cavalheiro s\u00f3 podem interessar causas perdidas.<\/em> Houve um tempo em que os vegetarianos n\u00e3o passavam de uma minoria ridicularizada. Anonymus, ent\u00e3o, n\u00e3o hesitou em empunhar alfaces e cenouras como se fossem estandartes que n\u00e3o poderiam ser calados. Hoje, a carne a carne vermelha como dizem aqueles que desejam estigmatizar nossos bifes, diz a solid\u00e1ria Madame Queiroz \u00e9 o alvo da Inquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u2013 Ainda bem que os Torquemadas ainda n\u00e3o est\u00e3o incendiando a\u00e7ougues!<\/em> \u2013 constata Anonymus.<\/p>\n<p>Em pleno m\u00eas Farroupilha (no in\u00edcio, era a \u201cdata\u201d, com o tempo virou \u201cSemana Farroupilha\u201d, agora \u00e9 o setembro inteiro), Madame Queiroz gosta de lembrar um dos maiores escritores do Rio Grande, o inesquec\u00edvel Athos Damasceno: \u201cAo passo que o Norte flutuava numa doce enseada de calda, n\u00f3s aqui singr\u00e1vamos num mar vermelho de sangue \u2013 sangue de boi, de ovelha e de carneiro. E n\u00e3o raro, at\u00e9 sangue de homem, tanto nos custou, em diferentes \u00e9pocas, levantar uma barreira de peitos contra a cobi\u00e7a dos espanh\u00f3is e suas pretens\u00f5es territoriais\u201d.<\/p>\n<p>Tudo isso adverte que o churrasco dominical rio-grandense tem ra\u00edzes profundas. Anonymus gosta de lembrar que o gado bovino chegou ao Rio Grande do Sul no s\u00e9culo 17, mostrando o recorte j\u00e1 amarelado de uma antiga revista Claudia, no texto excelente da querida amiga Ad\u00e9lia Porto. Era o chamado gado xucro ou gado chimarr\u00e3o, que vivia \u00e0 solta, sem cerca e sem controle, ca\u00e7ado pelos \u00edndios charruas, nativos da regi\u00e3o, que se tornaram grandes mestres da arte do churrasco. Ad\u00e9lia conta que a habilidade e o apetite dos \u00edndios espantaram o padre Ant\u00f4nio Sepp\u00e9, que esteve por aqui em 1691. Sepp\u00e9 escreveu um livro, Viagem \u00e0s Miss\u00f5es Jesu\u00edtas e Trabalhos Apost\u00f3licos, onde se l\u00ea: \u201cImposs\u00edvel dizer-se com que per\u00edcia e rapidez os \u00edndios pegam uma r\u00eas, derrubam-na, tiram-lhe o couro e esquartejam-na. Mas muito mais r\u00e1pidos ainda s\u00e3o no comer\u201d. Perplexo, o padre fala de um casal de \u00edndios que, sentindo fome, interrompeu a lavra\u00e7\u00e3o de uma ro\u00e7a e devorou um dos bois de servi\u00e7o, utilizando o arado, que era de pau, para principiar o fogo \u2013 um ins\u00f3lito churrasco de emerg\u00eancia. Depois dos \u00edndios, vieram os comerciantes de couros e os tropeiros, que recolhiam gado para S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. Eram os primeiros ga\u00fachos, gente rude, sem governo, que \u201cmorava na sua camisa, debaixo do chap\u00e9u\u201d.<\/p>\n<p><em>* <\/em><a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?TroncoID=805134&amp;SecaoID=948848&amp;SubsecaoID=0&amp;Template=..\/livros\/layout_autor.asp&amp;AutorID=34\" target=\"_blank\"><em>Jos\u00e9 Antonio Pinheiro Machado (Anonymus Gourmet) <\/em><\/a><em>\u00e9 autor de <a href=\"http:\/\/www.lpm.com.br\/site\/default.asp?Template=..%2Flivros%2Flayout_buscaprodutos.asp&amp;FiltroStr=jos%E9+antonio+pinheiro+machado&amp;FiltroCampo=Autores&amp;I1.x=34&amp;I1.y=3\" target=\"_blank\">diversos livros da s\u00e9rie Gastronomia L&amp;PM<\/a>. Este texto foi originalmente publicado na pg. 2 do\u00a0Caderno Gastronomia de Zero Hora do dia 16 de setembro.<br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Anonymus Gourmet (Jos\u00e9 Antonio Pinheiro Machado)* Anonymus Gourmet, que sobreviveu ao regime militar, inclui entre suas vaidades favoritas a toler\u00e2ncia am\u00e1vel ao direito das minorias. Ele sempre esteve do lado mais dif\u00edcil, orgulha-se Madame Queiroz, testemunha daqueles tempos. 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