﻿{"id":10629,"date":"2011-09-01T15:38:44","date_gmt":"2011-09-01T18:38:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=10629"},"modified":"2011-09-05T10:17:16","modified_gmt":"2011-09-05T13:17:16","slug":"as-possibilidades-de-uma-ilha-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=10629","title":{"rendered":"A(s) possibilidade(s) de uma ilha &#8211; Parte I"},"content":{"rendered":"<p><em>Alexandre Boide conta a hist\u00f3ria dos Mang\u00e1s*<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em>A coisa tinha mudado mesmo de figura. E de maneira radical. Em 1945, em meio ao que sobrou da cidade de Osaka devastada pela guerra, Osamu Tezuka ia ao Cine Shouchiku assistir aos desenhos animados de Walt Disney, de quem era um grande f\u00e3, sonhando em algum dia poder fazer algo pelo menos parecido. Em 1994, os Est\u00fadios Disney lan\u00e7aram com grande alarde sua megaprodu\u00e7\u00e3o <em>O rei le\u00e3o<\/em>, que tinha \u201csemelhan\u00e7as\u201d escandalosas com <em>Kimba \u2014 O le\u00e3o branco<\/em>, de Tezuka, a come\u00e7ar pelo nome do protagonista. A quest\u00e3o do pl\u00e1gio era t\u00e3o flagrante que o ator Matthew Broderick, escalado para dublar a voz de Simba, chegou a declarar que imaginava se tratar de um remake \u201cdo desenho do le\u00e3o branco que eu via quando crian\u00e7a\u201d.<\/p>\n<div class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<div id=\"attachment_10637\" style=\"width: 403px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/reisleoes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10637\" class=\"size-full wp-image-10637 \" title=\"reisleoes\" src=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/reisleoes.jpg\" alt=\"\" width=\"393\" height=\"516\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10637\" class=\"wp-caption-text\">\u00c0 esquerda, os desenhos de &quot;Kimba, o le\u00e3o branco&quot; (de 1965) e \u00e0 direita, &quot;O Rei Le\u00e3o&quot; (de 1994). A Disney copiou at\u00e9 os enquadramentos dos quadrinhos de Tezuka<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>Em menos de quarenta anos, o epicentro do entretenimento de qualidade em quadrinhos e anima\u00e7\u00e3o havia se deslocado de Hollywood e das grandes editoras de HQs nova-iorquinas para o extremo Oriente, ainda que, na \u00e9poca, a maior parte das pessoas n\u00e3o tivesse se dado conta disso. N\u00e3o muito tempo depois, os mang\u00e1s cairiam como uma bomba sobre o mercado ocidental de cultura pop.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o para isso se deve em parte a uma bomba real e mort\u00edfera: aquela que foi lan\u00e7ada sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945. Com a derrota na 2\u00aa Guerra Mundial, o Jap\u00e3o foi irremediavelmente invadido pelos produtos de consumo do triunfante capitalismo norte-americano, e a cultura popular e o entretenimento n\u00e3o poderiam ficar de fora. Os coloridos <em>comic books<\/em>, com suas cores vibrantes e seus her\u00f3is fantasiados, al\u00e9m das divertidas tiras de jornal conhecidas na \u00e9poca como <em>funnies<\/em>, foram uma revela\u00e7\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o local, acostumada a quadrinhos mais est\u00e1ticos, baseados na est\u00e9tica das gravuras tradicionais japonesas. Por\u00e9m, de acordo com os preceitos de sua cultura milenar e sua mentalidade abertamente insular, os japoneses n\u00e3o hesitariam em logo come\u00e7ar a fazer as coisas \u00e0 sua pr\u00f3pria maneira. Assim como a Toyota superou a Ford, os mang\u00e1s engoliram o espa\u00e7o dos <em>comic books<\/em>.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7aram a ser criados no Jap\u00e3o, os quadrinhos foram libertados de uma s\u00e9rie de paradigmas. Para come\u00e7ar, os gibis n\u00e3o precisavam se limitar a 32 duas p\u00e1ginas com as aventuras de super-her\u00f3is que atravessam as d\u00e9cadas enfrentando quase sempre os mesmos vil\u00f5es. As revistas de quadrinhos japonesas t\u00eam o tamanho e a grossura de listas telef\u00f4nicas, com diversas s\u00e9ries se desenrolando ao mesmo tempo, todas elas concebidas para ter in\u00edcio, meio e fim, mesmo que a hist\u00f3ria se estenda por centenas de volumes e milhares de p\u00e1ginas. Nada de her\u00f3is que morrem apenas para renascer alguns n\u00fameros a seguir, ou de personagens comemorando 70 anos de publica\u00e7\u00e3o ininterrupta ap\u00f3s passar pela m\u00e3o de dezenas de roteiristas e desenhistas diferentes. Um exemplo marcante dessa diferen\u00e7a de conceito foi dado em mar\u00e7o de 1970, quando centenas de f\u00e3s de mang\u00e1 se reuniram na sede da editora Kodansha para se despedir com um funeral simb\u00f3lico de um boxeador da s\u00e9rie <em>Ashita no Joe<\/em> (\u201cJoe do Amanh\u00e3\u201d), de Tetsuya Chiba, com direito a cerim\u00f4nia conduzida por um sacerdote budista em um ringue de tamanho oficial \u2014 e todos os presentes sabiam que sua morte n\u00e3o era s\u00f3 um golpe de marketing.<\/p>\n<p><em><strong>(Continua amanh\u00e3)<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>*Alexandre Boide \u00e9 tradutor e coordenador editorial <a href=\"https:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=8498\" target=\"_blank\">dos Mang\u00e1s que ser\u00e3o publicados<\/a> no final de 2011 pela L&amp;PM. &#8220;A(s) possibilidade(s) de uma ilha&#8221; foi escrito especialmente para este Blog e ser\u00e1 publicado em tr\u00eas partes, hoje, sexta e s\u00e1bado. N\u00e3o deixe de acompanhar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre Boide conta a hist\u00f3ria dos Mang\u00e1s* A coisa tinha mudado mesmo de figura. E de maneira radical. 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