Posts Tagged ‘Josué Guimarães’

7. Josué & Millôr, os primeiros grandes autores

terça-feira, 21 dezembro 2010

Por Ivan Pinheiro Machado*

Josué Guimarães foi autor de obras-primas como os romances “A Ferro e Fogo – Tempo de Solidão”, “A Ferro e Fogo – Tempo de Guerra”, “É Tarde para saber”, “Camilo Mortágua”, “Enquanto a noite não chega”, entre outros. Era amigo e cliente do meu pai. Por ter sido colaborador de Jango e Brizola, a ditadura nunca largou o pé do Josué, a ponto dele ter que refugiar-se primeiro em Santos, São Paulo, com nome falso e mais tarde em Lisboa, onde testemunharia a Revolução dos Cravos em 1975. A propósito do movimento que acabou com o regime truculento do ditador Salazar, escreveu o livro “Lisboa Urgente”, publicado pela editora Civilização Brasileira que pertencia ao seu amigo Enio Silveira. Foi nesta época que eu o conheci. Estava indo para Frankfurt e tinha uma escala em Lisboa. Meu pai pediu para que eu fosse portador de uma encomenda para o Josué. Quando desembarcamos em Lisboa para pegar a conexão para Frankfurt, o Josué me aguardava no aeroporto. Conversamos uma meia hora, entreguei o pacote e ele convidou-me para passar uns dias em sua casa em Cascais quando retornasse de Frankfurt. Dito e feito. Uma semana depois, cheguei à capital portuguesa e fui desfrutar da maravilhosa hospitalidade de Nídia e Josué. Foram dias inesquecíveis, não só pelo carinho dos anfitriões, mas pelo clima que se vivia em Lisboa. Era uma verdadeira festa de libertação que não acabava nunca. E pra quem, como eu, chegava de um país dominado por uma sombria ditadura, curtir Lisboa naquele ano de 1976, com vinte e poucos anos, era uma experiência pra nunca mais esquecer. Certa noite, depois do jantar, Josué abriu uma garrafa de vinho verde e me chamou pra sacada de sua bela casa. “Vem cá, guri, vamos conversar”. Obedeci, curioso. Josué foi direto ao ponto. “Tu queres publicar um livro meu?” Eu quase caí da cadeira.

A L&PM engatinhava, tinha publicado só 3 ou 4 livros e o Josué completava, com Erico Veríssimo e Dyonélio Machado, o trio de autores gaúchos com renome nacional no início dos anos 70. Obviamente eu disse sim. “Meu editor brasileiro me pediu pra modificar um romance que enviei para publicação. O principal personagem é um rapaz que atua na guerrilha urbana, é comunista e vive na clandestinidade. Ele conhece uma moça normal, de classe média, e eles se apaixonam, mas ela não sabe das atividades dele. Meu editor está com medo dos milicos. Não vou mudar o livro, vou mudar de editora. Toma os originais, lê e amanhã me diz alguma coisa, boa noite!” Comecei a ler naquela hora mesmo, 11 horas da noite. Às 3 da madrugada eu tinha terminado o livro com um nó na garganta. Mal conseguia dormir. A perspectiva de publicar um grande livro de um grande autor, era excitante demais para pegar no sono. Em julho de 1976, a L&PM lançava “É tarde para saber”, com capa do grande pintor gaúcho Nelson Jungbluth. O lançamento foi numa memorável tarde de autógrafos na tradicional Livraria Lima, em Porto Alegre. Foram milhares de livros vendidos na época. E vende muito até hoje, quando seguimos publicando a obra completa de Josué Guimarães.

Um mês depois, saiu o livro “Devora-me ou te decifro” do Millôr Fernandes. Ou seja, não dava mais para voltar atrás.

Para ler o próximo post da série “Era uma vez uma editora…” clique aqui.

Lembrem sempre de Josué Guimarães

terça-feira, 25 maio 2010


Ivan Pinheiro Machado

Quando Josué Guimarães morreu num domingo ensolarado, no dia 23 de março de 1986, seus leitores, amigos e admiradores perdiam não só o grande escritor, cheio de planos, mas perdiam também uma referência. Para todos nós, Josué era um exemplo de coerência e postura moral. Um humanista ferrenho, incapaz – mesmo diante das grandes dificuldades materiais que viveu – de capitular com a ditadura que vigorava da época. Josué era perseguido pela polícia política e, por consequência, ignorado pela elite cultural que dava as cartas na época. Salvo exceções, é claro.

A L&PM Web TV está apresentando o único depoimento audiovisual existente de Josué Guimarães. Na forma como exibimos aqui, ele está editado com imagens de referência e foi apresentado na TV COM em Porto Alegre, por ocasião da dramatização de A Ferro e Fogo sua obra mais conhecida (aproveito a ocasião para agradecer à RBS, na pessoa de Alice Urbim, que gentilmente nos cedeu esta cópia restaurada e editada). O vídeo original da entrevista foi produzido em maio de 1984 pela L&PM Vídeo, empresa da L&PM Editores. A produção foi do Paulo de Almeida Lima, minha e do jornalista Marcelo Lopes, já falecido. O entrevistador foi o jornalista José Antonio Pinheiro Machado, que hoje faz grande sucesso como Anonymus Gourmet. E a entrevista foi feita na casa de Josué na rua Riveira, no bairro Petrópolis em Porto Alegre

Logo depois da abertura democrática, no final dos anos 80, este vídeo foi emprestado para a TV Educativa de Porto Alegre, que queria fazer uma cópia e colocar no ar. Nós emprestamos o material, sem problemas. Com o passar do tempo e a “reabilitação” pós-ditadura de Josué, a TVE, através de alguns de seus ex-dirigentes, arrogou-se a autoria do vídeo, o que foi rapidamente desmentido pelas imensas evidências da nossa produção. Josué era um homem de idéias claras e de uma coerência absoluta – repito. Ele jamais colocou os pés na TVE. Para ele, a TV estatal era um braço do regime ditatorial. Portanto, o que os nossos internautas podem assistir aqui é uma raridade.

Além deste depoimento gravado em vídeo, a equipe editorial da L&PM fez uma grande entrevista que foi publicada em mais de 40 páginas na saudosa revista Oitenta, nos idos de 1983. Esta entrevista estará disponível no nosso site em breve. E nada mais foi feito além do que a L&PM, que foi sua principal editora, realizou.

Suas firmes posições de resistência democrática custaram a Josué Guimarães a indiferença de seus contemporâneos. Este é o trágico da ditadura; ela espalha o medo, o pânico. E aqueles que estavam “bem postos” jamais se aproximavam de um perseguido político. Hoje, ninguém mais se lembra dos apaniguados do regime militar que ditavam as regras da época. Mas Josué ficou. Sua permanência se deve a sua enorme dimensão como pessoa e pela sua obra poderosa que se projeta no tempo encantando gerações após gerações.