Posts Tagged ‘On the road’

A grande exposição dos beats na Europa

quinta-feira, 28 julho 2016

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“Beat Generation”, a primeira grande retrospectiva sobre o tema na Europa está aberta desde 22 de junho do Centro Pompidou em Paris. Concebida e apresentada pelo próprio centro, é considerada uma mostra sem precedentes que enfatiza o movimento que marcou profundamente a cena criativa contemporânea.

Nômade, a exposição vai além de Paris para aportar em Nova York e San Francisco, Cidade do México e Tânger. E mostrar que o movimento beat também passa pela música, cinema, fotografia e artes plásticas.

O rolo do manuscrito original de “On the Road” está lá, claro, desenrolando-se na semi escuridão para que assim não sofra com a luz e siga preservado para as próximas gerações… beats.

SERVIÇO

O que: Exposição Beat Generation, curadoria de Philippe-Alain Michaud e Jean-Jacques Lebel
Quando: Até 3 de outubro de 2016
Onde: Centro Pompidou, Galeria 1, Nível 6, 75191 Paris Cedex 04: 01 44 78 12 33. Metro Hotel de Ville Rambuteau. Aberto das 11 às 21h, todos os dias excepto às terças-feiras, 14 ou 11 €. Válida no dia para o museu nacional de arte moderna e todas as exposições.

Assista ao vídeo oficial da exposição:

A L&PM tem uma série inteira dedicada aos beats.

O Dia Mundial do Rock em ritmo literário

quarta-feira, 13 julho 2016

Em homenagem ao Dia Mundial do Rock, cruzamos letras com músicas e criamos as trilhas sonoras perfeitas (ou nem tanto) para certos clássicos da literatura. Tem para todos os gostos. Aumente o som e dance baby, dance…

Para Memória póstumas de Brás Cubas: “The dead man walking”, de David Bowie, em versão acústica:

Para On the Road, “Highway 61 Revisited”, de Bob Dylan, na versão de Johnny Winter:

Para O amor é um cão dos diabos, ou qualquer outro livro de Charles Bukowski, “Sympathy for the Devil”, The Rolling Stones:

Para Peter Pan, “Fly Away From Here”, do Aerosmith:

Para Crime e Castigo, “Help!”, dos Beatles:

Para Romeu e Julieta,” Smells like teen spirit”, do Nirvana:

Para Alice no País das Maravilhas,  “What a Wonderful World” na versão de Joey Ramone:

5 de fevereiro de 1914: nascia William Burroughs, o mais velho dos beats

sexta-feira, 5 fevereiro 2016

William S. Burroughs foi mais longe do que os outros beats. Não que tenha feito mais sucesso, mas além de ter vindo ao mundo antes de Allen Ginsberg e Jack Kerouac, o “velho Bill” morreu depois deles. Nascido em 5 de fevereiro de 1914, faleceu de ataque cardíaco em 2 de agosto de 1997 aos 83 anos. Um verdadeiro sobrevivente a oito décadas de vida junky. Em On the road, de Kerouac, ele virou o personagem Old Bull Lee.

Burroughs foi uma figura polêmica. Seu currículo incluía relações com garotos menores de idade e o assassinato da esposa (que ele matou sem querer ao brincar de Guilherme Tell). Mas isso não o impediu de ter um séquito enorme de fãs e muitos amigos famosos que o veneraram até o fim - incluindo aí Mick Jagger, Patti Smith e Madonna.

No livro Jack Kerouac & Allen Ginsberg: As cartas, Burroughs é tema frequente na correspondência trocada entre os amigos beats. Aqui, por exemplo, Kerouac escreve sobre ele em março de 1952:

Jack Kerouac [São Francisco, Califórnia] para
Allen Ginsberg [Paterson, Nova Jersey]

fim de março de 1952

Caro Allen:
[...]
Notícias do livro de Bill são fantásticas – eu sabia, quem mais escreve uma confissão completa, soque seu Meron fodido num chiqueiro, blá, Bill ainda é fantástico; escrevi DUAS semanas atrás e pedi a ele para que me levasse para o Equador com ele e [Lewis] Marker, e ainda estou esperando uma resposta: aqui um trecho da carta que ele me escreveu:
“Caro Jack, não sei por quanto tempo vou ficar por aqui. Fui classificado como um ‘estrangeiro problemático’ e o departamento de imigração vai pedir minha saída assim que o caso for decidido…” (mais tarde) (fala sobre seu novo romance gay, estou sugerindo que o chame simplesmente de Queer, é uma sequência para Junk, e ele diz que é melhor, e acredito que seja…) “E me deixe dizer, meu jovem,” (ele escreve) “que eu não ‘abandonei minha sexualidade em algum lugar perdido na estrada do ópio,’ esta frase ficou comigo por todos estes anos. Preciso pedir a você que, se eu aparecer no seu livro atual, que eu apareça adequadamente equipado.” (e aí acrescenta, depois do ponto) “com capacidades masculinas. Meu Deus, cara, você sabe mesmo escolher suas mulheres. Não precisava ter me dito para não dar o seu endereço para a esposa de Kell, ela e eu nem nos dizemos oi, acho que ela não gosta de mim” (soa como o velho bill no Ruyon da 8ª Av., não é?) o P.S. é como segue: “Outra coisa, não estou totalmente feliz com aparecer sob a alcunha de Old Bull Balloon, não consigo deixar de pensar que o epíteto Bull faz uma referência pouco elogiosa, e não sou velho de forma alguma… você vai me equipar” (equipar de novo, duas vezes essa palavra) “com cabelos brancos no próximo livro”. Não é interessante isso vindo de Bill?… no novo livro ele é Bill Hubbard, por falar nisso. Ele diz que Dennison foi descoberto por sua mãe em Cidade pequena, cidade grande, de forma que terá que usar Sebert Lee como nome em Junk, mas para se esconder de mamãe, mas… “Pensei em Sebert Lee, mas Sebert é como Seward e Lee é o nome de minha mãe. Acho que ainda assim vai funcionar.” (fim da carta). (louco?) Se ele me chamar, meu terceiro romance vai estar a caminho imediatamente… vai ser sobre Bill descendo à América do Sul, ainda sem título, e tão vasto como On the Road, diga a Carl, e também diga a Carl que vou enviar o Road completo e datilografado direitinho com todas as considerações feitas e arrumadinho no máximo até abril. De forma que eu possa começar o romance número 3, quero seguir em frente, um desses anos vou conseguir produzir TRÊS obras-primas em um ano, como fez Shakespeare em seu ano Hamlet-Lear-Júlio César, – não convidei você para Paris porque preciso de você, estava só sendo legal com um amigo escritor e sendo tradicional, e também, vai se foder.

Ti-Jean

Burroughs e Kerouac fotografados por Allen Ginsberg em 1953

Ginsberg e Burroughs em 1984

De William Burroughs, a Coleção L&PM Pocket publica Cartas do Yage e O gato por dentro.

Jack Kerouac nos Simpsons

segunda-feira, 8 junho 2015

No episódio 20 da 26ª temporada de Os Simpsons, que foi ao ar no início de maio nos EUA, o pai de Hommer, Abe Simpson, conta uma história para Lisa e Bart: em 1950, quando ele estava na Força Aérea, pega uma carona com Jack Kerouac e Neal Cassady. E como você pode ver na sequência abaixo, ele parece ter sido responsável por On the road ter o estilo que tem… :-P (Clique aqui para assistir o episódio completo – A sequência com Kerouac e Cassady começa aos 17 minutos).

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A L&PM publica On the road em diferentes formatos, incluindo O manuscrito original.

Os anos mais importantes da vida de Kerouac

quinta-feira, 12 março 2015

1922 – Jack Kerouac nasce em 12 de março.

1926 – Morte do seu irmão Gerard.

1934 – Encontra a sra. Dinneen, professora de literatura, e a srta. Mansfield, bibliotecária, que o encorajam a escrever. É apaixonado pela leitura de histórias em quadrinho policiais e fantásticas.

1939 – Seu talento como jogador de futebol americano lhe permite obter uma bolsa na universidade Columbia.

1940 – Entra na universidade. Machuca a perna e não pode mais jogar. Lê o romancista Thomas Wolfe e essa leitura será determinante para sua escolha de se tornar escritor.

1941 – Aprofunda seu envolvimento com Jazz. Abandona a universidade.

1942 – Engaja-se na marinha mercante. Escreve o esboço de O mar é meu irmão (The sea is my brother).

1943 – Sai da marinha.

1944 – É apresentado a Lucien Carr e, por intermédio dele, em maio, encontra Allen Ginsberg. Em junho, conhece William Burroughs.

1946  – Morte de seu pai, Leo Kerouac, que lhe pede para cuidar da mãe Gabrielle aconteça o que acontecer. Em dezembro, Neal Cassady chega a Nova York.

1947 – Trabalha em um volumoso romance inspirado em Thomas Wolfe: Cidade pequena, cidade grande. Em julho faz sua primeira viagem de carona de Nova York a Denver.

1948 – Termina Cidade pequena, cidade grande. Atravessa os EUA de leste a oeste. Viaja pelo sul com Neal Cassady. Começa On the road.

1949 – Novas viagens com Neal Cassady pelos EUA.

1950 – Viagem ao México. Prossegue On the Road. Casa-se com Joan Haverty.

1951 – Em abril, termina On the Road.

1952 – Estadia em São Francisco, na casa dos Cassady. Ligação com Carolyn Cassady. Em fevereiro, fruto do relacionamento com Joan, nasce sua filha Janet Michelle. Escreve Visões de Cody. Na casa de Burroughs, começa O livro dos sonhos.

1953 – Escreve Os subterrâneos. Descobre o budismo.

1955 – Na cidade do México, conhece Esperanza Villanueva que dará origem ao livro Tristessa.

1956 – Entre junho e setembro trabalha como guarda florestal em Desolation Peak e começa a escrever Anjos da desolação.

1957 – Publica On the road.

1958 – Publica Os vagabundos iluminados.

1960 – Entrega-se cada vez mais ao álcool.

1961  – Última viagem ao México. Termina Anjos da Desolação e Big Sur. No outono, encontra-se pela primeira vez com a filha Janet, então com nove anos e meio.

1962 – Publica Visões de Gerard e Big Sur. Afasta-se ainda mais dos amigos dos anos 1940.

1964 – Último encontro com Neal Cassady. Sua irmã Nin morre de parada cardíaca.

1966 -Publica Satori em Paris. Casa-se com Stella Sampas.

1968 – Morte de Neal Cassady no México.

1969 – Solidão e decadência. Morre no dia 21 de outubro em consequência de uma hemorragia.

Kerouac_familia

A família Kerouac: Jack, Nin, Gabrielle e Leo

 

Que tal ajudar o Beat Museum a comprar a carta perdida de Neal Cassady?

quinta-feira, 4 dezembro 2014

A carta que Neal Cassady enviou para Jack Kerouac e que teria inspirado o estilo de escrita de On the Road ficou perdida durante décadas. Encontrada, ela está prestes a ir à leilão. São 18 páginas e 16 mil palavras em um fluxo de pensamento de Neal Cassady. Conhecida como “Carta de Joan Anderson” – porque fala de uma mulher com este nome com a qual Neal passou um final de semana – suas páginas foram mostradas pela primeira vez aos jornalistas na segunda-feira, 1º de dezembro. O leilão acontecerá no dia 17 de dezembro, exatos 64 anos depois de ter sido escrita por Cassady. O lance inicial será de 300 mil dólares e estima-se que chegue a 500 mil.

As 18 páginas da carta de Neal Cassady que inspirou a escrita de Jack Kerouac foram mostradas aos jornalistas em 1 de dezembro de 2014.  Crédito: Reuters/Deepa Seetharaman

As 18 páginas da carta de Neal Cassady que inspirou a escrita de Jack Kerouac foram mostradas aos jornalistas em 1 de dezembro de 2014.
Crédito: Reuters/Deepa Seetharaman

O Beat Museum, de São Francisco, está tentando arrecadar dinheiro para arrematar a preciosidade. A ideia é que assim ela que possa ser exibida e posteriormente publicada, declarou o fundador do museu Jerry Cimino. Para isso, o museu lançou uma campanha online para arrecadar meio milhão de dólares. “Nós literalmente chamamos essa carta de o Santo Graal da Geração Beat”, declarou Cimino.

A questão é que faltam menos de duas semanas para o leilão e até agora a campanha de arrecadação – que aceita doações a partir de 1 dólar -  não chegou nem a 1% do valor final. Se você estiver a fim de participar, clique aqui e vá lá conferir as contrapartidas.

O diretor do Beat Museum, Jerry Cimino, esta em campanha para arrecadar fundos para a compra da carta que é considerada o "Santo Graal da Geração Beat".

O diretor do Beat Museum, Jerry Cimino, esta em campanha para arrecadar fundos para a compra da carta que é considerada o “Santo Graal da Geração Beat”.

A casa de leilões não pode apresentar o texto integral da carta porque ele possui direitos autorais que pertencem à família Cassady. O porta-voz dos Cassady não foi encontrado para comentar o assunto.

Na carta, Neal Cassady descreve uma série de aventuras vividas em um final de semana, incluindo a escalada do lado de fora de uma janela quando a mãe de Joan inesperadamente voltou para casa. Ele também fez um desenho da janela na carta que foi vista pelos jornalistas.

Leia em um post anterior sobre como a carta foi encontrada.

Encontrada a carta perdida que inspirou o estilo de “On the Road”

terça-feira, 25 novembro 2014

Foi a partir de uma carta que recebeu de seu amigo Neal Cassady, em 1957, que Jack Kerouac mudou seu estilo de escrita e produziu On the road em uma espécie de fluxo de consciência. Conhecida como “Carta de Joan Anderson”,  nela Cassady descreveu, em 18 páginas, a mulher com que ele passara um final de semana nos anos 1950.

Considerada perdida pelo próprio Kerouac, que havia contado em uma entrevista ao The Paris Review, em 1968, que a ela havia sido emprestada a Allen Ginsberg que, por sua vez, teria deixado com um amigo que morava em uma casa flutuante no norte da Califórnia. Kerouac disse na entrevista que esse amigo havia caído no mar com a carta e que lamentava muito que isso tivesse acontecido, já que era uma das coisas mais impressionantes que ele já havia lido. O que Kerouac não sabia era que a “Carta de Joan Anderson” tinha sido enviada por Ginsberg a uma editora independente chamada Golden Goose, mas que jamais abriu o envelope e nunca a devolveu. A sorte foi que, quando a editora fechou, um operador de áudio que ocupava o mesmo escritório, guardou alguns papéis, entre eles, a valiosa carta de Cassady.

Foi a filha desse operador que resgatou a preciosidade: “Meu pai não sabia quem era Allen Ginsberg e nem quem era Neal Cassady, nem fazia parte da cena beat, mas ele amava poesia e por isso guardou essa carta” disse em Los Angeles a atriz Jean Spinosa que encontrou a carta ao limpar a casa do pai, após a morte dele há dois anos. “Ele não entendia como alguém poderia querer jogar as palavras de outra pessoa no lixo” por isso a guardou.

Especialistas em cultura beat dizem que essa carta possui um valor inestimável, pois se não fosse ela, Kerouac provavelmente não teria tido o “estalo” de escrever o manuscrito original de On the road.

A carta será leiloada no dia 17 de dezembro.

Os amigos Neal Cassady e Jack Kerouac

Os amigos Neal Cassady e Jack Kerouac

 

Descobertas cartas inéditas de Kerouac

sexta-feira, 19 setembro 2014

Folha Online – 19/09/2014 – Por Redação

Cartas inéditas do escritor americano Jack Kerouac (1922-1969) foram descobertas recentemente nos EUA. De acordo com o jornal The Guardian, ao todo 17 cartas, dois cartões postais e sete fragmentos de texto foram encontrados pela filha de um amigo de infância do escritor.

Nos textos, enviados por Kerouac ao amigo George J. Apostolos entre 1940 e 1941, ele se declara completamente apaixonado e fala de outras questões da juventude. Na época, Apostolos vivia em Lowell, Massachusetts, e Kerouac em Nova York, onde cursava uma escola preparatória e, posteriormente, a Universidade da Columbia.

O jovem e apaixonado Jack Kerouac

O jovem e apaixonado Jack Kerouac

Segundo um representante da casa de leilões Skinner, que irá vender o material em novembro, os textos mostram o escritor no “processo de se tornar Kerouac”. “É preciso lembrar que são correspondências particulares trocadas entre dois jovens no final dos anos 1930 e começo de 1940. Kerouac faz menção a velhas aventuras colegiais, a saudades de sua casa em Lowell e descreve suas descobertas sociais, bebedeiras, festas e experiências com garotas”, diz o diretor de livros e manuscritos da Skinner, Devon Gray.

Em um dos textos, Kerouac narra sua paixão e desencanto pela irmã de uma amiga, com que “pretende se casar”.

“Não há dúvidas de que nem eu nem você já vimos uma criatura tão primorosa como Jacqueline Sheresky”, escreve. “O pescoço dela tem aquela marca de sangue azul. Ele faz uma curva delicada, e como marfim, para um queijo amendoado perfeitamente moldado, e dali para lábios escarlates trementes, que cobrem uma fileira de dentes de mármore.”

O escritor continua a carta com seus planos para ganhar a atenção da garota. “O problema é que não tenho coragem para convidá-la ao baile de formatura… Se eu pudesse levar esta deusa ao Waldorf, eu viveria o suficiente por uma noite.”

Uma das cartas descobertas

Uma das cartas descobertas

Kerouac ainda conta para Apóstolos que temia que outro rapaz, chamado Sokolow, já tivesse convidado Sheresky para a festa, e depois narra como a encontrou dançando com Sokolow no baile. “Que maldito sórdido, um esquisito sem esperança, hipócrita, idealista, inseguro e babaca eu sou.” Em cartas seguintes, ele fala de encontros com outra garota.

De acordo com a casa de leilões, a amizade entre Kerouac e Apóstolos nunca foi mencionada por biógrafos, uma vez que os textos nunca estiveram disponíveis para pesquisadores e para o público. A casa espera arrecadar entre US$ 2 mil e US$ 5 mil (entre R$ 4.736 e R$ 11.841) por cada carta.

Segundo Gray, a filha de Apóstolos sabia que o pai tinha algumas cartas do escritor, mas achou que elas haviam sido queimadas, até encontrá-las entre as coisas do pai, após a morte do amigo de Kerouac.

A L&PM publica uma série inteira com livros de Jack Kerouac. Clique aqui e veja lá.

Slim Gaillard, mais do que um personagem de Kerouac

segunda-feira, 8 setembro 2014

Em seu blog, Claudio Willer escreveu um post onde centrava suas atenções sobre Slim Gaillard, músico que ocupa algumas páginas de On the Road, de Jack Kerouac (219 a 221 na edição da L&PM). No recentemente lançado Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico, de sua autoria, Willer também dedica alguns parágrafos para o jazzista. E conta que, quando preparou o livro, não achou quase nada sobre Gaillard no meio digital. “Mas, nesse manancial infinito, aparecem agora bons registros; inclusive um documentário extenso da BBC, descoberto pelo músico Pita Araujo, que colaborou em dois dos meus cursos sobre Geração Beat.” escreve ele.  A seguir, dois vídeos com Gaillard.

Um trecho dos comentários de Os rebeldes, incluindo citação de Kerouac.

Um dos trechos exaltados da louvação a jazzistas em On the Road é sobre um dos mais originais dentre aqueles músicos. É quando Kerouac e Cassady se encontram com Slim Gaillard, o excêntrico guitarrista negro que, ao falar, se expressa através de glossolalias, fonemas não-semantizados. Cassady o proclama “Deus”; Kerouac o retrata como iluminado, xamã: “Slim Gaillard é um negro alto e magro com grandes olhos melancólicos que tá sempre dizendo “Legal-oruni” e “que tal um bourbon-oruni?” [...] E então [depois de interpretar seu jazz] ele se levanta lentamente, pega o microfone e diz, com muita calma: “Grande-oruni…. belo-ovauti… olá-oruni…. bourbon-oruni… tudo-oruni…. como estão os garotos da primeira fila, fazendo a cabeça com suas garotas-oruni…. oruni…. vauti…. orunirumi….” (Kerouac 2004, pgs. 219-221)

Ele ainda “grita coisas malucas em espanhol, em árabe, em dialetos peruanos e egípcios, e em cada língua que conhece, e ele conhece inúmeras línguas”. Sim, “inúmeras línguas” – mais a língua pessoal, equivalente ao “falar em línguas” pentecostal: às glossolalias, os fonemas não-semantizados dos rituais em doutrinas iniciáticas. Conforme a antropóloga Felicitas Goodman, há padrões em comum nessas manifestações em contextos tão distintos: cultos pentecostais, tribais e outras práticas religiosas nas quais ocorrem transes ou possessões (Goodman, em Eliade 1985, vol. VI, pgs. 563-566). Correspondem à “outra língua” aprendida pelos xamãs em seu trajeto iniciático, segundo Eliade.

Octavio Paz mostrou que a mesma manifestação reaparecia em poetas modernos: Huidobro, Khlébnikov, Artaud, Schwitters. Interpretou-a como tentativa de recuperar a linguagem adâmica ou divina; aquela do tempo que precedeu a Queda (Paz 1991, no ensaio “Leitura e contemplação”). A fala sagrada, mágica, é não-significativa, puramente sonora, como também expõe Gershom Scholem:”O fato de que a atuação da palavra vai muito além de todo “entendimento” é algo que não precisa apoiar-se na especulação religiosa, pois tal é a experiência do poeta, do místico e de todo falante que se delicia com o elemento sensível da palavra.” (Scholem 1999, p. 15)

Slim Gaillard foi, sem dúvida, um personagem sob medida para corresponder à preferência de Kerouac por excêntricos e marginais. Mestiço, teria nascido em Cuba, filho de uma afro-cubana e de um grego. Segundo outra versão, era norte-americano, de Detroit; levou uma vida errante, morou na África e de fato sabia oito línguas, além de haver criado um dicionário para seu vocabulário particular. Como músico, foi ao mesmo tempo um intérprete típico de blues, da mesma estirpe do exuberante Cab Calloway, e um precursor e improvisador. Seu “Tutti Frutti”, dos anos de 1930, antecipou, de modo evidente, o rock que se imporia duas décadas mais tarde. E seu ecletismo o aproxima das modernas correntes ‘fusion’. Por haver misturado repertórios e ter sido provocador e performático (chegou a apresentar-se tocando piano com as palmas para cima e guitarra com a mão esquerda, um comportamento ofensivo para profissionais), foi um marginal até no mundo jazzístico, embora se houvesse apresentado com Parker, Gillespie e outros expoentes.
O trecho sobre Gaillard, em especial, e os relatos de encontros com vagabundos, em geral, permitem uma interpretação da devoção de Kerouac por tais personagens, tanto à luz do misticismo, quanto literária: eles falam. São oraculares, sibilinos: a frase cifrada, enigmática, é, assim como na Antiguidade, uma profecia. Representam a língua falada em sua expressão mais genuína. A intenção de Kerouac – realizada especialmente em Visões de Cody, com suas páginas de transcrição de fita gravada – era trazer tais sons para a escrita.

O manuscrito original de On the Road em uma exposição sobre a Rota 66

sexta-feira, 22 agosto 2014

Se você decidir colocar o pé na estrada e chegar a Los Angeles até 4 de janeiro de 2015, ainda poderá conferir a exposição “Route 66: The Road and The Romance”. Entre os destaques da mostra está o rolo do manuscrito original de On the Road, aquele em que Jack Kerouac digitou a primeira versão do seu mais famoso romance.

O rolo do manuscrito original de On the Road

O rolo do manuscrito original de On the Road

A mostra que está em exibição no Autry National Center of the American West se desenrola pelos 2.400 quilômetros de extensão da estrada que foi testemunha ocular de uma América em movimento. “Route 66: The Road and the Romance” percorre a estrada icônica desde seu início, em 1926, estende-se através da Grande Depressão e chega até um olhar contemporâneo, incluindo o que está sendo feito pela sua preservação.

São 250 artefatos extraordinários que traçam a história da Rota 66 e seu impacto na cultura popular americana. Eles foram cedidos por instituições e coleção particulares de todo os EUA e muitos nunca havia sido exibidos juntos.

Dorothea Lange (United States, 1895–1965), Human Erosion in California (Migrant Mother), 1936, gelatin silver print (13 7/16 x 10 9/16 in.) (The J. Paul Getty Museum, Los Angeles)

Uma das fotos da exposição. De Dorothea Lange (United States, 1895–1965), Human Erosion in California (Migrant Mother), 1936

Placas originais dos anos 1970 -  “East 66 / West 66,” Williams, Arizona, circa 1970s. Coleção Steve Rider

Placas originais dos anos 1970 – “East 66 / West 66,” Williams, Arizona, circa 1970s. Coleção Steve Rider

“Western Motel” um neon original datado de cerca de 1950. Coleção do Museum of Neon Art

“Western Motel” um neon original datado de cerca de 1950. Coleção do Museum of Neon Art

Além da mostra, há uma programação paralela. No dia 11 de setembro, por exemplo, haverá o evento “Waiting for Jack: A Beat Poetry Experience”. Pena que Los Angeles é tão longe…

A L&PM publica o Manuscrito Original em dois formatos.