Posts Tagged ‘Jean-Paul Sartre’

Simone de Beauvoir: a filósofa era ela

segunda-feira, 9 janeiro 2017

Ela nasceu em 9 de janeiro de 1908 em Paris. E se tornou um dos maiores nomes da filosofia do século 20. Simone de Beauvoir foi uma das fundadoras do movimento filosófico que ficou conhecido como Existencialismo, ao lado de Jean-Paul Sartre e outros contemporâneos seus. Além disso, tornou-se ícone feminista no mundo após a publicação de O segundo sexo, em que faz uma profunda análise do papel da mulher na sociedade.

Companheira de Sartre, ela é citada diversas vezes na biografia do filósofo, escrita por Annie Cohen-Solal e publicada pela L&PM:

Em junho de 1929, 76 candidatos se apresentam às provas de mestrado de filosofia: Sartre obtém o primeiro lugar entre os 27 aprovados e depois repete a façanha entre os 17 finalistas. (…) Como primeiro colocado dessa turma de 1929 no mestrado de filosofia, Sartre ganha por pequena diferença de pontos do candidato classificado em segundo lugar e que, casualmente, é uma mulher: Simone Bertrand de Beauvoir. ‘Rigorosa, exigente, precisa e técnica’, conta também [Maurice] Gandillac, ‘era a caçula da turma: tinha apenas 21 anos; três anos mais moça que Sartre, portanto, e havia conseguido realizar a proeza de fazer dois períodos letivos em um só, pois tinha se preparado, ao mesmo tempo, para receber o diploma de estudos superiores e para prestar o concurso de mestrado. Aliás, dois dos integrantes da comissão julgadora, os professores Davy e Wahl, me confessaram mais tarde que ficaram sem saber a quem conceder o primeiro lugar, se a ela ou a Sartre. Pois se Sartre demonstrava qualidades indiscutíveis, inteligência e cultura simplesmente impressionantes, embora por vezes aproximativas, todo mundo estava pronto a concordar que a filósofa era ela.

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Academia Sueca revela carta em que Sartre avisava que recusaria o Nobel

terça-feira, 6 janeiro 2015

Ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura em 1964 Jean-Paul Sartre recusou o prêmio. Até aí nenhuma novidade. O que se descobriu agora é que essa saia justa poderia ter sido evitada caso uma carta enviado por Sartre à Academia Sueca, responsável pelo prêmio, não tivesse demorado para chegar. Em uma mensagem escrita em outubro daquele ano, Sartre pedia que não fosse cotado para o prêmio, pois caso vencesse não aceitaria.

Só que, quando a carta foi entregue em Estocolmo, Sartre já estava entre os indicados. Semanas depois, o filósofo francês foi anunciado vencedor e, como tinha avisado, recusou o prêmio. A recusa, aliás, entrou para a história como o caso mais famoso e surpreendente de alguém que tinha dito “não” à Academia Sueca.

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Em um texto publicado pouco depois do episódio no jornal “Le Monde”, Sartre lamentou o fato de sua decisão ter se tornado um escândalo. “Um prêmio foi oferecido e eu recusei”, escreveu ele. “Não sabia que essa decisão era tomada sem o conhecimento do vencedor, e acreditava ainda estar em tempo de evitar o ocorrido.”

A existência da carta em que Sartre avisava que não aceitaria o prêmio só veio à tona no final de 2014, em uma reportagem do diário sueco “Svenska Dagbladet”. Isso porque a Academia Sueca mantém sigilo de 50 anos sobre os bastidores de todas as decisões tomadas.

Na época da recusa, Sartre já havia publicado os três primeiros volumes de O idiota da família, a biografia de Gustave Flaubert que é publicada pela L&PM.

Manuscrito Sartre vai a leilão em Paris

segunda-feira, 14 abril 2014

Um manuscrito até então desconhecido do livro As Palavras, de Jean-Paul Sartre, será leiloado este mês em Paris, segundo a casa de leilões Artcurial. O rascunho de 24 páginas, conservado até então numa coleção privada, tem um preço inicial avaliado entre 40.000 e 50.000 euros (algo em torno de 122.000 e 150.000 reais). De acordo com o leiloeiro, as páginas, escritas com tinta azul, constituem “a verdadeira matriz de As Palavras“.

Poucos meses após ser publicado, em 1964, há 50 anos, As Palavras rendeu a Sartre (1905-1980) o Prêmio Nobel de Literatura, que foi rejeitado pelo filósofo.

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Professor da USP escreve sobre “O idiota da família” na Folha de S. Paulo

quarta-feira, 12 fevereiro 2014

A convite da Folha de S. Paulo, o professor da USP Franklin Leopoldo e Silva escreveu um texto sobre o recente lançamento de “O idiota da família” ( L&PM Editores), de Jean-Paul Sartre. Professor de história da filosofia contemporânea na USP, Franklin é autor do livro “Ética e literatura em Sartre” (Unesp, 2004). Clique na imagem para ler seu texto, publicado no caderno Ilustríssima em 9 de fevereiro:

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“O idiota da família” no jornal O Globo

segunda-feira, 10 fevereiro 2014

Leia matéria do jornalista Fernando Eichenberg sobre o lançamento de O idiota da família, escrita diretamente de Paris e publicada no Caderno Prosa e Verso do jornal O Globo em 8 de fevereiro de 2013. Clique nas imagens para ampliá-las.

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‘O idiota da família’: uma vida passada a limpo, por Ivo Barroso

Por Ivo Barroso*

Razão tinha Flaubert quando declarou “Madame Bovary sou eu”. O comportamento dúbio, as reações sentimentais da personagem, seu modo de agir e raciocinar eram todos reflexos de condições psíquicas a que ele se impunha para analisá-las com cuidado e detença. É sabida a morosidade com que compunha seus livros, não só no que respeita à elaboração do estilo, cujas frases revia incansavelmente, mas também no ajuste final de cada gesto e de cada palavra dos seres que animava.

Sua biografia não revela grandes lances: solteirão de muitos amores mas poucas ligações permanentes, arredio da grande cidade, avesso a qualquer tipo de convenções (“As honrarias desonram, os títulos degradam, os empregos entorpecem”), Gustave Flaubert havia se refugiado na literatura, em sua propriedade rural de Canteleu-Croisset, para vencer sua aversão pela tolice humana. Esse recolhimento campestre teve, no entanto, outros determinantes. Flaubert sofria de epilepsia psicogênica, e seu pai, cirurgião-chefe no hospital de Rouen, achou conveniente que o jovem trancasse matrícula no curso de Direito em Paris e se recolhesse à província, onde seria mais bem assistido pela família. Ideal para ele, que só pensava em escrever. Mas alguns infortúnios domésticos iriam marcá-lo: o irmão mais velho, Achille, médico-cirurgião como o pai, acabou louco; a irmã Caroline, por quem tinha manifesta afeição, casou-se em 1845 com Emile Hamard e teve uma filha de mesmo nome, morrendo em seguida; Flaubert assumiu a criação da menina, pois Hamard, desesperado, enlouqueceu após a morte da esposa. O pai, seu grande esteio, morreu no ano seguinte. Restou-lhe a sra. Flaubert, descrita por ele como sua carcereira, confidente, ama, paciente, banqueira e crítica.

Contudo, muitos são os amigos fieis que o cercam, como Louis Bouilhet e Maxim du Champ, este com quem viaja para o Egito, Palestina, Grécia etc., dilapidando boa parte da herança que lhe coubera com a morte do pai. E grande é o número de correspondentes e confidentes, aos quais escreve montanhas de cartas (hoje reunidas em cinco volumes), comentando projetos literários e afãs amorosos. Visto como o “carrasco de si mesmo”, esse cultor do mot juste tornou-se um dos maiores estilistas da literatura francesa do século XIX. Seus livros mais conhecidos (“Salambô“, “Madame Bovary”, “Bouvard e Pécuchet”) trouxeram-lhe grande fama e sucesso financeiro, embora outros, como “A educação sentimental” e “A tentação de Santo Antão” não alcançassem o grande público, e, neste último caso, houvesse até a insistência dos amigos para que o jogasse fora.

Por sua importância literária era natural que Flaubert despertasse a atenção de muitos biógrafos, alguns dos quais da importância de Henry James, Guy de Maupassant, Emile Faguet e Jules Goncourt, interesse que persiste mesmo em nossos dias com a premiada biografia de Frederick Brown (2006).

Em 1971, o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre surpreendeu seus leitores com a publicação do primeiro volume de uma biografia de Flaubert intitulada “O idiota da família”. O livro tinha cerca de 1000 páginas, anunciava-se um segundo tomo já para o ano seguinte e havia o plano da publicação de mais outros dois volumes que sairiam em datas não muito distantes. Indagado sobre seu interesse por Flaubert, Sartre respondeu que via nele o seu antípoda, mas que o admirava exatamente por isso, em vez de desprezá-lo. A novidade maior do empreendimento, além de seu indubitável apelo épatant, estava (segundo o autor) na aplicação de um método investigativo que conjugava existencialismo, psicanálise e crítica literária, a fim de tratar o assunto (a vida de um autor) em sua globalidade definitiva. O objetivo foi sem dúvida obtido e a análise de fato vasculha da adega ao sótão, mas depreende-se igualmente da leitura que Sartre quis fazer uma “revisão” completa de Flaubert, como escritor e como ser humano, talvez para “aproximá-lo” um pouco mais de si. Dessa forma, poderíamos imaginar que Sartre quis fazer com Flaubert o que este fazia com seus personagens: incorporar-se neles.

Logo no início, por exemplo, Sartre se vale de um depoimento de Caroline, a sobrinha querida de Flaubert, e embora lhe dê todo o crédito, disseca-lhe as palavras como que para redesenhá-las de modo a que signifiquem a mesma coisa, mas insinuando outras mais. Cada momento da vida de Flaubert é, assim, passado a limpo, ou melhor, reanalisado de modo a aproximá-lo de seu biógrafo, aqui transformado num deus todo-poderoso capaz de reformular o destino. Sem dúvida, um trabalho de amor, de aprimoramento, talvez um impulso de fazer por outrem o que não foi possível (ou desejável) fazer para si mesmo. O resultado final é uma obra-prima do enfoque biográfico, a transformação do reflexo no espelho na imagem mental do refletido. Sartre conseguiu com esta obra assemelhar-se literariamente ao mestre amado a quem odiava no princípio.

*Ivo Barroso é tradutor e poeta

No prefácio de “O idiota da família”, Sartre explica por que escolheu Flaubert

terça-feira, 21 janeiro 2014

O idiota da família é a continuação de Questões de método. Seu tema: o que se pode saber de um homem, hoje em dia? Pareceu-me que só poderíamos responder a esta pergunta através do estudo de um caso concreto: o que sabemos – por exemplo – de Gustave Flaubert? Para isso, precisaremos totalizar as informações de que dispomos a seu respeito. Nada prova, a princípio, que essa totalização seja possível e que a verdade de uma pessoa não seja plural; os dados são muito

diferentes por natureza: ele nasceu em dezembro de 1821, em Rouen – eis um tipo; ele escreveu à amante, muito tempo depois: “A Arte me espanta” – eis outro. O primeiro é um fato objetivo e social, confirmado por documentos oficiais; o segundo, também objetivo quando nós nos atemos à coisa dita, remete, por seu significado, a um sentimento vivido, e nada decidiremos sobre o sentido e o alcance desse sentimento se antes não tivermos estabelecido se Gustave é sincero, em geral e, em especial, nesta circunstância. Não correremos o risco de chegar a camadas de significados heterogêneos e irredutíveis? Este livro tenta provar que a irredutibilidade é apenas aparente e que cada informação, colocada em seu devido lugar, torna-se a parte de um todo que está constantemente sendo feito e, ao mesmo tempo, revela sua profunda homogeneidade com todas as outras partes.

Afinal, um homem nunca é um indivíduo; seria melhor chamá-lo de universal singular: totalizado e, por isso mesmo, universalizado por sua época, ele a retotaliza ao reproduzir-se nela como singularidade. Universal pela universalidade singular da história humana, singular pela singularidade universalizante de seus projetos, ele exige ser estudado a um só tempo pelas duas pontas. Precisaremos encontrar um método apropriado. Apresentei os princípios de um em 1958 e não repetirei o que disse então: prefiro mostrar, sempre que necessário, como ele se faz no próprio trabalho para obedecer às exigências de seu objeto.

Uma última palavra: por que Flaubert? Por três motivos. O primeiro, bastante pessoal, há muito tempo deixou de valer, apesar de estar na origem dessa escolha: em 1943, ao reler sua Correspondência na má edição Charpentier, tive a sensação de ter contas a ajustar com ele e de que devia, para isso, conhecê-lo melhor. Desde então, minha antipatia inicial transformou-se em empatia, única atitude exigida para compreender. Por outro lado, ele se objetivou em seus livros. Qualquer um pode dizer: “Gustave Flaubert é o autor de Madame Bovary”. Mas qual a relação do homem com a obra? Eu nunca falei sobre isso até então. Nem ninguém, que eu saiba. Veremos que é dupla: Madame Bovary é derrota e vitória; o homem que se mostra na derrota não é o mesmo exigido para sua vitória; será preciso entender o que isso significa. Por fim, suas primeiras obras e sua correspondência (treze volumes publicados) manifestam-se, veremos, como a mais estranha confidência, a mais facilmente decifrável: como se ouvíssemos um neurótico falando “ao acaso” no divã do psicanalista. Acreditei que me seria permitido, para esta difícil provação, escolher um tema fácil, que se revelasse com facilidade e sem o saber. Acrescento que Flaubert, criador do romance “moderno”, está na interseção de todos os nossos problemas literários de hoje.

Agora, é preciso começar. Como? Pelo quê? Pouco importa: podemos entrar em um morto da maneira que quisermos. O essencial é partir de um problema. Daquele que escolhi, em geral pouco se fala. Leiamos, no entanto, um trecho de uma carta à srta. Leroyer de Chantepie: “É de tanto trabalhar que consigo calar minha melancolia natural. Mas o velho fundo muitas vezes reaparece, o velho fundo que ninguém conhece, a chaga profunda sempre escondida”.* O que isso quer dizer? Uma chaga pode ser natural? De todo modo, Flaubert nos remete à sua proto-história. O que se precisa tentar conhecer é a origem dessa chaga “sempre escondida” e que, de todo modo, tem origem em sua primeira infância. Este não será, acredito, um mau começo. (Jean-Paul Sartre, Prefácio de O idiota da família)

Em 7 de maior de 1971, o "Figaro littéraire" publicou uma caricatura feito por J. Redon em que Sartre vai se transformando em Flaubert

Em 7 de maior de 1971, o “Figaro littéraire” publicou uma caricatura feito por J. Redon em que Sartre vai se transformando em Flaubert

Anonymus Gourmet e “O idiota da família”

sexta-feira, 17 janeiro 2014

Em sua coluna no Caderno Gastrô do Jornal Zero Hora, publicada nesta sexta-feira, 17 de janeiro, J. A. Pinheiro Machado – o Anonymus Gourmet -, escreve sobre o recente lançamento da L&PM Editores: O idiota da família, de Jean-Paul Sartre. Vale a pena ler:

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Sartre fala sobre “O idiota da família”

quarta-feira, 15 janeiro 2014

Em 1967, Jean-Paul Sartre concedeu uma longa entrevista à Rádio Canadá que ficou conhecida como “Dossier Sartre-De Beauvoir”. Os entrevistadores foram Claude Lanzmann, redator da revista “Les Temps Modernes” e Madeleine Gobeil, professora da Universidade de Carlton. Abaixo, o trecho em que Lanzmann pergunta sobre Flaubert que, na época, estava sendo biografado por Sartre. A resposta é uma verdadeira aula:

 

“O idiota da família” entre os principais destaques do ano

terça-feira, 7 janeiro 2014
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O primeiro volume de “O idiota da família”

O Caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo de sábado, 5 de janeiro, apontou os principais destaques literários do início de 2014. No topo da lista está o primeiro volume de “O idiota da família”, a biografia de 3.000 páginas de Flaubert (autor de Madame Bovary) escrita por Jean Paul Sartre e até agora inédita em português. O volume 1, com tradução de Júlia da Rosa Simões, chega às livrarias nas próximas semanas. Obra definitiva de Sartre, “O idiota da família” é fundamental para quem quer mergulhar no pensamento e nas ideias do grande mestre da filosofia contemporânea.

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Flaubert por Sartre

quinta-feira, 12 dezembro 2013

Em 12 de dezembro de 1821 nascia Gustave Flaubert, cuja vida foi desvendada por Jean-Paul Sartre em O idiota da família, que chega ao Brasil pela L&PM em 2014. Para celebrar o aniversário do autor de Madame Bovary – enquanto a tão aguardada biografia não chega – leia o trecho inicial para ter um gostinho do que vem por aí:

“Quando o pequeno Gustave Flaubert, perdido, ainda “bestial”, emerge da primeira infância, as técnicas estão à sua espera. E os papéis. O adestramento começa: não sem sucesso, ao que parece; ninguém nos diz, por exemplo, que tenha tido problemas para caminhar. Pelo contrário, sabemos que o futuro escritor tropeçou foi quando se tratou da prova primordial, o aprendizado das palavras. Tentaremos ver, mais adiante, se teve, desde o princípio, dificuldades para falar. O certo é que se saiu mal em outra prova linguística, iniciação e rito de passagem, a alfabetização: uma testemunha conta que o menino aprendeu a ler muito tarde e que seus familiares o tinham então por criança retardada.”

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