Posts Tagged ‘Holanda’

Cruyff

quinta-feira, 8 julho 2010

A seleção holandesa era chamada de Laranja Mecânica, mas nada tinha de mecânico aquela obra da imaginação, que desconcertava todo mundo com suas mudanças incessantes. Como A Máquina do River, também caluniada pelo nome, aquele fogo laranja ia e vinha, impelido por um vento sábio que o trazia e o levava: todos atacavam e todos defendiam, espalhando-se e unindo-se vertiginosamente em leque, e o adversário perdia as pistas diante de uma equipe onde cada um era onze.
Um jornalista brasileiro chamou-a de desorganização organizada. A Holanda tinha música e o que regia a melodia de tantos sons simultâneos, evitando a bagunça e o desafino, era Johann Cruyff. Maestro da orquestra e músico, Cruyff trabalhava mais do que todos.
Aquele magrinho elétrico tinha entrado para o Ajax quando era menino: enquanto sua mãe servia na cantina do clube, ele recolhia as bolas que iam para fora, limpava as chuteiras dos jogadores, colocava as bandeirinhas nos cantos dos campos e fazia tudo o que lhe pedissem e nada do que lhe mandassem. Queria jogar e não deixavam, por seu físico frágil e seu caráter demasiadamente forte. Quando deixaram entrar, ele ficou. E ainda garoto estreou na seleção holandesa, jogou estupendamente, marcou um gol e com um murro fez o árbitro desmaiar.
Depois continuou sendo esquentado, trabalhador e talentoso. Durante duas décadas ganhou vinte e dois campeonatos, na Holanda e na Espanha . Parou aos trinta e sete anos, quando acabava de fazer seu último gol, nos braços da multidão que o acompanhou do estádio até sua casa.

Até o final da Copa, o blog da L&PM publica diariamente um trecho do livro Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano. Leia os anteriores:
Gol de Zarra
Obdulio
Gol de Maradona
O gol
O árbitro
Gol de Nilton Santos
O pecado de perder

Todos querem falar com Eduardo Galeano

segunda-feira, 5 julho 2010

Ivan Pinheiro Machado

Eduardo Galeano é a grande referência internacional do Uruguai. É apaixonado por futebol e autor do clássico Futebol ao sol e a sombra. Sem arroubos patrióticos, Galeano é apaixonado pela sua Celeste, como é chamada carinhosamente a seleção uruguaia. E nós somos seus editores no Brasil, razão pela qual TODOS os grandes veículos de comunicação brasileiros, via amigos ou desconhecidos, pedem para que intercedamos junto ao Galeano para que ele dê declarações e entrevistas a respeito do grande confronto de amanhã contra a Holanda nas semi-finais da Copa. A todos damos a mesma desculpa: não temos esse poder. O que temos feito, diante do assédio da imprensa pedindo telefone, endereço e pistolão é… dar o e-mail. E mesmo por e-mail, todas as tentativas de contactá-lo têm caído no vazio. Pelo que sei, a única pessoa que ele atende, em meio a sua concentração cívica e futebolística ,é seu tradutor, o escritor Sergio Faraco, que está retraduzindo As Veias Abertas da América Latina. Por outro lado, soubemos de fonte segura que ele esteve incógnito, assistindo a Uruguai e Gana no telão da Plaza Independência em Montevidéu, no meio da massa. Quem sabe ele não vai lá amanhã?

Eu compreendo o Galeano. Primeiro, ele está curtindo recluso esta fábula maravilhosa que é seu pequeno país chegar entre as quatro grandes equipes do planeta; que histórias deve estar dando este frenesi! E por mais que ele seja interrompido amanhã contra a Holanda, já terá sido um grande feito da Celeste. E segundo, Galeano, na sua honrada e sincera modéstia, deve estar constrangido, porque – apesar de seu status de celebridade, afinal é publicado em mais de 30 países – jamais se considerou porta-voz do povo uruguaio.

A L&PM está publicando durante a Copa a série Futebol ao sol e à sombra. Diariamente são postados trechos do livro de Galeano. Veja os posts feitos até agora:
Gol de Maradona
O gol
O árbitro
Gol de Nilton Santos
O pecado de perder