Arquivo de novembro, 2015

Oscar Wilde poderia ter morrido de amor

segunda-feira, 30 novembro 2015

Já postamos aqui neste blog o obituário de Oscar Wilde, publicado no The New York Times em 01 de dezembro de 1900. O anúncio de falecimento comunicava que o escritor havia morrido às três da tarde do dia 30 de novembro e que teria vivido os últimos meses sob o nome de Manmoth. O texto dizia ainda que Lord Alfred Douglas estava com ele quando morreu. E que, apesar da causa morte ser meningite, havia a possibilidade do escritor ter cometido suicídio. Segundo seus biógrafos, no entanto, ambas as afirmações parecem não proceder. Nem seu antigo amante estava com ele e nem Wilde teria atentado contra a própria vida.

Nascido em Dublin no ano de 1854, o autor de O retrato de Dorian Gray viu sua vida mudar ao ser  acusado e processado pela família de “Bosie”, como era chamado Lord Alfred Douglas, o jovem aristocrata por quem Wilde se apaixonou. Condenado a trabalhos forçados que consumiram sua saúde e sua reputação, Oscar Wilde exilou-se em Paris e acabou seus dias pobre e no anonimato.

Oscar Wilde e Bosie Douglas

“Em 30 de novembro de 1900, o genial e extravagante Oscar Wilde, um dos maiores escritores do século XIX, senão de toda a história da literatura, morreu, aos 46 anos, em meio aos piores sofrimentos, ao anonimato total e à miséria mais absoluta, num quartinho decrépito e gelado de um sórdido hotel parisiense” conta Daniel Salvatore Schiffer em Wilde, da Série Biografias L&PM.

O livro também revela que o último contato que Wilde teve com Bosie veio por carta em 12 de novembro: “Terrivelmente angustiado, porém sem mais nenhuma ligação com a realidade por conta da febre que começava a se apoderar dele, Oscar só conseguia falar, num início de delírio de suas enormes dívidas. Depois, de repente, enquanto Wilde se agitava cada vez mais, Dupoirier irrompeu o quarto. Trazia uma carta. Era um bilhete de Bosie, espantosamente afetuoso, ao qual anexara, depois que Ross lhe informou sobre a misérie na qual vivia seu antigo amante, um cheque de dez libras. Comovido pelo gesto, Wilde deixou algumas lágrimas rolarem.”

A história de amor entre Oscar Wilde e Bosie está contada no filme “Wilde”, de 1997. No papel do escritor está Stephen Fry e como seu jovem amante, Judie Law. Vale ver o trailer:

Qual a cor do vestido de Alice?

quinta-feira, 26 novembro 2015

A maioria vai responder: azul com avental branco, ora essa…

Essa é a cor mais familiar para todos nós. Mas a questão é que provavelmente essa não foi a primeira cor imaginada por Lewis Carroll e pelo ilustrador John Tenniel para vestir a famosa personagem. Publicada pela primeira vez em livro há 150 anos, Alice já usou, além do azul, vermelho e amarelo em diferentes versões.

As primeiras representações coloridas de Alice não aparecem nos livros originais, mas em produtos associados à história. Em “The Wonderland Quadrilles”, uma peça musical para piano-forte dedicada a Alice e publicada por volta de 1872, o cartaz traz ilustrações de Tenniel com cores aprovadas por Carroll. Nessa impressão, Alice usa vermelho e branco. Alice também aparece de vermelho na capa da edição de 1887 da editora britânica Macmillan (que publicou o livro em 1865), mas as ilustrações internas seguiram sendo em preto e branco.

Cartaz de uma peça musical para piano-forte inspirada na Alice de Lewis Carroll

Cartaz de uma peça musical para piano-forte inspirada na Alice de Lewis Carroll

A primeira vez que em que Alice ganhou cores nas ilustrações internas foi em 1889 no livro chamado The Nursery Alice, uma adaptação para crianças pequenas e onde Tenniel e Carroll optaram por Alice com vestido amarelo, avental branco e fitas e meias azuis. Estas mesmas cores aparecem em um selo postal criado por Lewis Carroll. E também foram as cores escolhidas para a capa de Alice no País das Maravilhas da Coleção L&PM Pocket.

Ilustração

Alice de amarelo em 1889

Cores aprovadas por Carroll estão na capa da L&PM

Cores aprovadas por Carroll estão na capa da L&PM

Em 1903, nas edições da Macmillan de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, a menina ganhou vestido azul, avental branco com detalhes amarelos e meias amarelas.

Alice1903

Alice em 1903

O vermelho voltou a ser usado em 1907, pela mesma editora, quando Alice aparece em todos os desenhos com vestido vermelho e avental branco com detalhes azuis. Mas as meias permaneceram amarelas.

McMillan1907

Alice na edição de 1907

Em 1911, Harry G. Theaker foi contratado para colorir dezesseis ilustrações de Tenniel para uma edição de Alice Através do Espelho. O azul utilizado por ele para colorir o vestido de Alice, o avental branco e as meias brancas listradas de azul, estabeleceram o vestido icônico que se manteve nas edições da Macmillan desde então. Posteriormente, esta seria a cor adotada por Walt Disney para seu filme de 1951.

A Disney optou pelo azul que se tornaria a cor mais conhecida

A Disney optou pelo azul que se tornaria a cor mais conhecida

Em 1927, John Macfarlane aplicou uma nova coloração nas ilustrações, mantendo o vestido azul, mas colocando detalhes em vermelho no avental branco. Há uma versão destas cores em que as meias são listradas e que a L&PM usa na capa de Alice no País do Espelho.

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Essa versão aparece pela primeira vez em 1927

alice no pais o espelho

As ilustrações de Tenniel também aparecem com vestido azul e branco, avental branco com vermelho e meias listradas

E aí, qual a sua preferida?

Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher

quarta-feira, 25 novembro 2015
Página do livro "Os filhos dos dias" de Eduardo Galeano

Página do livro “Os filhos dos dias” de Eduardo Galeano

cartaz_filme_borboletasO filme No tempo das borboletas que retrata o período de ditadura militar (1930-1961) na República Dominicana, onde por 31 anos o povo esteve refém das atrocidades cometidas pelo general Rafael Leónidas Trujillo. Sob seu lema ou estás comigo ou contra mim, e com o beneplácito da Igreja, Trujillo mandava matar todos os que se opunham ao seu regime. Foi responsável direto pelo assassinato de mais de 30 mil pessoas.

O filme conta a saga das irmãs Mirabal: Minerva, Patria, María Teresa, filhas de um pequeno proprietário de terras que vivia na cidade de Ojo de Agua, don Enrique Mirabal, e da dona de casa Mercedes Mirabal, que desafiaram a sangrenta ditadura do general Trujillo.

Em homenagem à luta das irmãs Mirabal, o 1º Encontro de Mulheres da América Latina e Caribe, realizado em 1981, em Bogotá, decidiu criar o Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher na data de 25 de novembro de cada ano.
Com direção de Mariano Barroso e as atrizes Salma Hayek, Mía Maestro, Pilar Padilla, Lumi Cavazos e Ana Martín, o filme é uma contundente denúncia da violência do sistema contra a mulher, e sua exibição nas escolas e bairros possibilita um importante debate sobre a luta da mulher por uma nova sociedade e por sua emancipação.

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As belas irmãs Mirabal

 

O roubo da Mona Lisa em filme e livros

terça-feira, 24 novembro 2015

Está em cartaz, em alguns cinemas do centro do país, um filme baseado em fatos reais: “Picasso e o roubo da Mona Lisa”. Nem todo mundo sabe, mas no dia 20 de agosto de 2011, um domingo, a Mona Lisa de Da Vinci foi misteriosamente roubada do Museu do Louvre em Paris. O filme se concentra em dois nomes que foram suspeitos de estarem envolvidos no roubo: o pintor Pablo Picasso e o poeta Guillaume Apollinaire. Veja o trailer:

Achou interessante e não vai conseguir ver o filme? Há duas maneiras de saber mais sobre essa história:

1. Ler Roubaram a Mona Lisa!, de R. A. Scotti, que faz um relato vívido e minucioso deste que foi o maior furto da história da arte. Além de contar como Picasso e Apollinaire viraram suspeitos, se aprofunda nessa incrível e curiosa caçada global envolvendo ladrões audaciosos, falsificadores de arte, trapaceiros astutos, colecionadores milionários – e, sobretudo, a mulher mais linda, enigmática e desejada do mundo: Mona Lisa, a Gioconda.

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2. Ler Paris Boêmia – Os aventureiros da Arte Moderna (1900-1930), o primeiro volume da trilogia de Dan Franck e que tem um capítulo inteiro dedicado ao roubo da Mona Lisa. Além disso, o livro, que tem o jovem Picasso na capa, traz muitas outras histórias que se passam no caldeirão cultural que era a Paris do início do século XX.

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Um novo Frankenstein está chegando nos cinemas e nas livrarias

segunda-feira, 23 novembro 2015

Um filme com nome, sobrenome e uma história de terror clássica para contar. “Victor Frankenstein”, nova adaptação da famosa obra de Mary Shelley estreia nesta quinta-feira, 26 de novembro, no Brasil.

O longa reconta a história do brilhante cientista Victor Frankenstein que tem o sonho de reanimar os mortos.  James McAvoy está no papel título e, ao seu lado, vemos Daniel Radcliffe (o protagonista da série Harry Potter) como seu assistente Igor Strausman. Igor acompanha horrorizado a transformação de seu mestre que vai perdendo todo limite e ética. Fiel ao colega (aqui é mais colega do que mestre), Igor tenta salvá-lo antes que a loucura vá longe demais e traga terríveis consequências. Vale lembrar que Igor não foi criado por Mary Shelley e aparece apenas nos filmes, não no livro.

“Victor Frankenstein” tem a direção de Paul McGuigan, mais conhecido por ser o diretor de alguns episódios da série britânica Sherlock. Veja aqui o trailer legendado:

Para os que ainda não leram a história original de Mary Shelley, escrita quando ela tinha apenas 19 anos, a L&PM Editores tem Frankenstein na Coleção L&PM Pocket e está lançando um novo volume, em formato maior, que chegará às livrarias em dezembro.

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Patti Smith no Beat Museum em San Francisco

sexta-feira, 20 novembro 2015

Jerry Cimino, do Beat Museum, publicou em sua página do Facebook na noite de quinta-feira, 19 de novembro:

Eu estava sentado na recepção, lendo um livro, quando, com o canto do meu olho, percebi movimento. Eu fiz minha costumeira saudação: “Hey galera, bem-vindos ao Beat Museum.” Então olhei e vi Patti Smith passando seus grandes olhos pelos livros do balcão. “Oh”, foi o que eu disse ao reconhecê-la. “Eu imagino que você saiba um pouco sobre tudo isso.”

Ela balançou a cabeça calmamente e disse “Sim, Allen era meu amigo.” Nós falamos por um tempo. Eu a apresentei aos meus amigos que estavam pelo Museu. “Não quero atrapalhar” eu falei me despedindo. “Oh, não” Patti disse. “Fale-me sobre essa exposição. E como você conseguiu todas essas coisas incríveis?”

“Pessoas me deram. Elas querem mostrar o que os beats significam para elas. É uma ótima maneira de construir um museu.”

“Eu tenho algumas coisas que pertenceram a Allen e a Gregory,” ela disse. “Vou enviá-las a você.”

Patti comprou alguns itens para si e para alguns amigos. Ela foi muito gentil e amável e disse que voltaria com mais tempo e que estava na cidade para participar de um evento.

A cantora e escritora Patti Smith com seus amigos beats: Carl Solomon, Allen Ginsberg e William Burroughs

A cantora e escritora Patti Smith com seus amigos beats: Carl Solomon, Allen Ginsberg e William Burroughs

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A fachada do Beat Museum em San Francisco

Clique aqui para ver a Série Beat da L&PM.

Um Pequeno Príncipe chamado Cate Blanchett

segunda-feira, 16 novembro 2015

Como não gostar de Cate Blanchett? Linda e talentosa, elegante e versátil, ela encarna qualquer tipo de personagem: da Rainha Elizabeth a Bob Dylan, passando por mulheres de todos os tipos. Em 2013, ganhou o Oscar por sua atuação em Blue Jasmine, de Woody Allen. E, breve, a veremos no papel título de Carol, baseado na obra de Patricia Highsmith.

A estreia de Carol nos EUA, aliás, é um dos motivos que levou a atriz a ser capa da edição de dezembro da revista americana WMagazine que tem o título de “Cate Blanchett: uma rosa sem espinhos” e o subtítulo “Cate Blanchett insiste que ela não é a personificação da perfeição. Nós discordamos.”

No site da revista já é possível ler parte do texto e ver algumas das imagens do editorial de moda com Cate com a temática de “O Pequeno Príncipe” e sua rosa. As fotos são de Tim Walker.

Uau!

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Cate Blanchet Planeta

A L&PM publica Carolde Patricia Highsmith e O Pequeno Príncipe, de Saint-Éxupery, em dois formatos.

Thiago Lacerda encarna Macbeth com som e fúria

segunda-feira, 16 novembro 2015

Por Paula Taitelbaum

O crítico Nelson de Sá escreveu sobre a peça Macbeth, de Shakespeare, dirigida por Ron Daniels, no Caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo. Em seu texto, o crítico diz que Thiago Lacerda, ator que dá vida ao personagem título, “vai do heróico ao demoníaco numa trajetória convincente e assustadora”. No sábado, 14 de novembro, eu estava em São Paulo e fui assistir à montagem no Sesc Vila Mariana. E por isso digo mais: a atuação de Thiago Lacerda é literalmente uma loucura. Ele grita, cospe, mata, ama, odeia, luta e alucina com a força e o vigor de um ator que poderia muito bem estar atuando no Globe Theatre em Londres. Há três anos atrás, o mesmo Lacerda escarnou Hamlet, sob a mesma batuta de Daniels, mas eu confesso que nem sabia.

Giulia Gam como Lady Macbeth não fica atrás e Nelson de Sá escreveu que é “sua maior interpretação no palco em muito tempo”. Eu já tinha visto Giulia num palco e sabia do que ela era capaz, afinal é uma atriz que começou nos palcos. Mas de Thiago eu não sabia o que esperar. E me surpreendi justamente porque não há uma só cena em que ele não surpreenda. A minha preferida é uma cena em que ele está enrolado em um cobertor, já totalmente dominado pelo delírio paranóico.

Se for a São Paulo, fica a dica para assistir. Além das atuações, o figurino (que lembra o uniforme do BOPE), a música, os adereços e o cenário enriquecem as atuações na medida exata. Por falar em medida, o mesmo elenco e o mesmo diretor também estão em cartaz com outra peça de Shakespeare: Medida por medida. Quinta e sábado, eles apresentam Macbeth, sexta e domingo, Medida por medida. A temporada paulista das duas peças vai até final de janeiro.

Ah, e pra quem não sabe, Ron Daniels é um dos maiores especialistas em Shakespeare do mundo.

Thiago Lacerda encarna um Macbeth primoroso

Thiago Lacerda é o tirano Macbeth em uma atuação excepcional

Quadro de Modigliani vendido por mais de R$ 600 milhões, um dia já causou escândalo e foi chamado de porcaria

quarta-feira, 11 novembro 2015

170,4 milhões de dólares – cerca de 647,2 milhões de reais, foi o preço pago pelo quadro “Nu Couché” (Nu Deitado), de Amedeu Modigliani, arrematado nesta segunda-feira, 9 de novembro, pelo multimilionário chinês Liu Yigian em um leilão da Christie’s.

O nu de Modigliani arrematado em leilão por mais de R$ 600 milhões

O nu de Modigliani arrematado em leilão por mais de R$ 600 milhões

Mas quem diria que esse mesmo quadro, em dezembro de 1917, foi um dos que foram chamados de “porcaria” por um comissário de polícia que ficou chocado com os nus do pintor na vitrine e interior de uma conhecida galeria parisiense. Organizada pelo poeta polonês Leopold Zborowski, amigo e marchand de Modigliani, uma exposição individual na Gallerie Berthe Weill deveria acontecer entre os dias 3 e 30 de dezembro daquele ano, mas acabou durando apenas um dia por causa do escândalo. Nu Couché era uma dessas pinturas.

Material da exposição com texto do poeta Blaise Cendrars

Material da exposição com texto do poeta Blaise Cendrars

Leia o trecho do livro Modigliani, de Christian Parisot (Coleção L&PM Pocket Biografias) que conta como tudo aconteceu:

biografiamodiglianiZborowski tivera a boa ou má ideia de colocar na vitrine dois nus para atrair os visitantes. Escândalo fenomenal! Berthe Weill o relata em seu livro de memórias. No domingo 2 de dezembro, haviam sido pendurados os suntuosos nus de Modi na galeria e dois então na vitrine. Na segunda-feira dia 3, às catorze horas: vernissage. Como de hábito, a Srta. Weill enviara convites a todo um grupo de conhecedores especialmente escolhidos. Amantes das artes, colecionadores, mas também cronistas, críticos, pintores, personalidades. Por volta das quatro horas, com o dia terminando, a galeria é iluminada. Intrigado em ver tanta gente dentro da loja, um transeunte para, depois dois, depois três. Uma multidão de simplórios brincalhões se amontoa, logo atraindo os burgueses que se desviam de seus caminhos para informar-se sobre o objeto desse ajuntamento. Nunca os escândalos artísticos precedentes, e Deus sabe quantos houve, os chocaram tanto!

Afronta ao pudor! Ultraje aos bons costumes! Crime de leso-transeuntes bem-pensantes e intransigentes sobre as leis imutáveis do que eles decretaram que deviam ser as boas maneiras! Alarmado com a aglomeração, o vizinho da frente, que não é outro que o comissário Rousselot, superintendente do bairro, fica perturbado:

- O que é isto? Um nu!

Um nu está colocado bem em frente a sua janela. Ele envia um agente à paisana:

- O senhor comissário ordena que você retire este nu.

- Ora! Por quê? – surpreende-se Berthe Weill.

Acentuando, num tom mais alto, o agente acrescenta:

- O senhor comissário ordena também que você retire este.

Nem Berthe Weill nem os convidados entendem, mas os dois quadros são retirados da vitrine. Lá fora, a multidão cada vez mais densa fica agitada. Temendo um motim, o comissário envia seu agente novamente:

- O senhor comissário roga-lhe que suba.

- “Roga-lhe” é melhor, mas você vê, não tenho tempo – observa a proprietária da galeria.

Subindo o tom, o agente insiste:

- O comissário roga-lhe que suba.

Atravessando a rua sob as vaias e gracinhas da multidão, Berthe Weill resolve subir até o comissário:

- O senhor pediu-me para subir?

- Sim! E eu ordeno que você retire todas essas porcarias! – diz ele num tom de estranha insolência que não tolera réplica.

- Mas há conhecedores que não têm essa opinião… – arrisca timidamente a infeliz galerista, intimidada pela irritação do comissário. – Mas o que têm esses nus?

- Esses nus! Eles têm PELOS! – berra então o comissário, com uma voz estrondosa e os olhos esbugalhados.

A morte do rebelde e maldito Arthur Rimbaud

terça-feira, 10 novembro 2015

Em 1891, após uma sofrida viagem de navio até Marselha devido a dores insuportáveis em sua perna direita, Arthur Rimbaud decide procurar ajuda num hospital local. Ao ser examinado, a reação dos médicos foi alarmante:

Os médicos a serviço do dr. Antoine Trastoul, um senhor de quarenta anos, as enfermeiras e as freiras ficaram atônitos. Nunca viram um membro tão putrefato, tão monstruoso. A perna parece uma enorme e aterrorizante abóbora. E crescerá ainda mais, sem a menor dúvida, caso não realizem a amputação o mais rápido possível.

Como de costume, Rimbaud lamenta sua infelicidade em cartas à mãe e à irmã, Isabelle. Do hospital onde ficara internado, ele escreve uma carta pedindo que venham visitá-lo. Em 27 de maio, sua perna é amputada rente ao tronco. A cirurgia transcorre bem e a recuperação é rápida. Após receber alta, ele providencia uma perna mecânica e decide voltar a morar com a família, que não vê há dez anos, em Roche. Comunica sua volta por meio de uma carta a Isabelle, que promete esperá-lo na estação de Voncq.

Durante a viagem de trem, a cicatriz da cirurgia que parecia resolvida volta a incomodá-lo. Mas ao chegar à estação , o reencontro com a irmã o faz esquecer qualquer sofrimento. Ela já não é mais aquela adolescente apagada e quieta de quem ele se lembrava, mas sim uma mulher de 30 anos, forte e ao mesmo tempo doce e amável, que decorou o quarto do irmão com “cortinas novas, tecidos finos de algodão e graciosos buquês e flores”.

Apesar do esforço de Isabelle, as limitações físicas impostas pela perna amputada e o retorno às lembranças de infância transformaram a estadia num verdadeiro inferno, como descreve a biografia de Rimbaud, publicada recentemente pela L&PM:

O fato é que ele não tem o que fazer em Roche, nesse vilarejo perdido das Ardenas, a que chamam de Terra dos Lobos, a não ser passear seu enfado e sua tristeza, uma tristeza mortal, e ficar deitado no quarto durante longas horas olhando para o vazio, remoendo remorsos, lembranças de infância e pensamentos funestos. (…) Já não suporta mais a luz do dia. É preciso fechar as venezianas, deixar a porta do quarto sempre encostada. O pior é que volta a sentir dores no coto e na virilha. De início, pensa que deve ser por causa da perna artificial comprada em Marselha e toma todas as providências para substituí-la. No entanto, por mais que consulte os médicos da região e de Charleville, por mais que tome as medicações que lhe são prescritas, que recorra a “um simples remédio de benzedeira”, a chás de papoula, a óleos e massagens, continua sofrendo muito. Isso desencadeia crises de desespero, lágrimas, ataques de raiva, cóleras, gritos, xingamentos, blasfêmias, noites intermináveis de insônia… E o leva a persuadir-se de que o único remédio capaz de atenuar suas dores horríveis seria volta a viver em Harar.

Ele decide ir embora e Isabelle o acompanha. Mas a viagem de volta é ainda mais estafante e cruel. A cada trepidação do trem, ele se contorce, aperta o coto com força e geme. Nenhuma posição lhe parece confortável: costas, ombros, braços e principalmente o coto são “pontos terrivelmente dolorosos”. Mas ele insiste em continuar a viagem. A febre o faz delirar, rir e chorar. Quando dá por si novamente, está de volta ao hospital onde amputara a perna. Os médicos se supreendem ao vê-lo de novo e num estado ainda pior do que o encontraram da primeira vez. O câncer se espalhara e Rimbaud está condenado.

Seu tumor cancerígeno, uma espécie de saco pútrido inchado que se estende do quadril até a barriga, atrai agora curiosos do hospital. Os visitantes, os outros pacientes e os médicos que passam por seu quarto “ficam mudos e aterrorizados diante desse câncer estranho”. É como se estivesse diante de uma monstruosidade de circo.

A pedido de Isabelle, católica fervorosa, Rimbaud, que era ateu convicto, chega a se confessar com um padre. Não apenas para agradar a irmã, mas pela última esperança de que alguma força superior possa curá-lo.

Mas não houve santo capaz de mudar o destino daquele homem de apenas 37 anos que, adolescente, havia escrito poemas geniais e inigualáveis. Em 10 de novembro de 1891, por volta das duas da tarde, Arthur Rimbaud morreu. Seu estado de saúde e as sucessivas viagens o impediram de receber uma notícia que talvez tivesse ajudado a melhorar seu estado de saúde ou que, pelo menos, lhe garantiria um fim mais digno: apenas três dias antes, era publicado em Paris pelo editor Léon Genoceaux um livro de 180 páginas reunindo seus poemas sob o título de Reliquaire e que ele havia escrito entre 1869 e 1872.

Para conhecer os detalhes da vida de um dos maiores poetas que o mundo já viu, leia o volume Rimbaud da Série Biografias. E não deixe de conhecer também seus poemas, aqui em edição bilíngue:

Rebeldes_e_Malditos_Rimbaud